Capítulo 4
POV da Nora
Os seguranças me mantinham presa no lugar, sem eu conseguir me mexer. Victoria se aproximou devagar e, à luz da lua, eu consegui ver a expressão dela com nitidez — fria, cheia de desprezo, com uma satisfação quase doentia.
Ela parou bem na minha frente, olhando para baixo como se eu fosse um inseto.
— Senhorita Grey, seja lá o que você teve com o meu filho acabou. Entendeu?
— Entendi perfeitamente. — Eu encarei os olhos dela, sem recuar. — Inclusive, eu estava dizendo exatamente isso para o seu filho. Acabou. Então pode guardar as suas ameaças.
— Ameaças? — Victoria chegou a rir. — Ah, querida, eu não faço ameaças. Eu constato fatos. E o fato é: você nunca vai ser boa o bastante para o meu filho. Você não tem nada. Você não é nada. Perto do que a família Taylor pode oferecer, você não vale coisa alguma.
As palavras bateram como golpes de verdade, mas eu mantive o rosto neutro.
— É isso que você diz para si mesma? Que qualquer pessoa que não nasceu dentro do seu clubinho não vale nada?
Os olhos de Victoria faiscaram de raiva.
— Como você se atreve—
— Não, como você se atreve. — Alguma coisa dentro de mim estalou, e toda a dor e a humilhação da noite vieram à tona, fervendo. — Você não sabe nada sobre mim. Não sabe o que eu faço todos os dias, o quanto eu trabalho, o que eu já passei. Você só vê “pobre” e “humana” e decide que eu sou inferior a você.
— Você É inferior a nós! — a voz de Victoria subiu, ecoando pela floresta. — Você acha que esse seu empreguinho no governo te torna especial? Você é uma faxineira, limpando a bagunça que gente como eu faz. Você vai passar a vida inteira fazendo isso porque é burra demais pra entender como o mundo real funciona!
— Pelo menos eu ajudo as pessoas! — eu rebati. — E você faz o quê além de usar o seu filho como moeda num acordo?
— Eu estou garantindo o futuro dele! — Ela já estava gritando, e a compostura cuidadosamente mantida começava a desmoronar. — Algo que você nunca seria capaz de fazer, porque você não tem nada a oferecer!
— Ótimo! — Minhas mãos tremiam, mas eu já não me importava. — Porque eu não quero passar a vida numa família que só valoriza dinheiro. Eu não quero virar alguém como você!
O rosto de Victoria se deformou de ódio.
— Sua insolente… — Ela deu um passo na minha direção, e eu vi os olhos dela brilharem em dourado. A loba estava vindo à tona.
— Você sabe com quem está falando?
— Com uma mulher que acabou de me chamar de inútil na minha cara. — Mesmo com o coração disparado, eu me mantive firme. — Uma mulher que devia sentir vergonha, mas provavelmente não consegue.
— Como você se atreve! — As mãos de Victoria se fecharam em punhos, e a respiração dela acelerou.
Ela me encarou, os lábios se repuxando de leve para trás, revelando dentes que pareciam mais afiados do que antes.
— Você precisa aprender o seu lugar — ela sibilou, dando mais um passo à frente. — Você precisa entender o que acontece quando humanos esquecem onde é o lugar deles… —
“Deixa eu deixar isso bem claro”, eu disse, com a voz surpreendentemente firme. “Eu não me casaria com alguém da sua família nem que você implorasse. Eu não quero o Kyle, mesmo que ele rasteje de volta. Porque eu prefiro ser ‘inútil’ e manter a minha dignidade do que ser qualquer coisa numa família como a sua.”
“Você está pedindo!” Ela levantou a mão; as unhas agora estavam totalmente estendidas, afiadas como garras de lobo, os olhos completamente dourados, e um rosnado baixo vibrou na garganta dela.
Os dois seguranças tentaram impedi-la. “Senhora, se acalma... a senhora não pode matar ela...”
Mas Victoria não estava ouvindo. As garras desceram na direção do meu rosto—
Eu fechei os olhos por instinto, levantando os braços para proteger a cabeça. Eu sabia que não dava pra desviar.
Então a noite explodiu em som.
Um rugido — não, um uivo — rasgou a escuridão. Era enorme, primal, o tipo de som que fazia cada instinto no meu corpo gritar predador. Ele ecoou entre as árvores, atravessou a estrada, parecendo vir de todos os lados e de lugar nenhum.
As garras de Victoria pararam a menos de oito centímetros do meu rosto; o corpo dela ficou rígido, tremendo por instinto.
Todo mundo se virou para encarar a floresta—
POV do Julian
A floresta à noite era o meu lugar.
Eu corria na escuridão em forma de lobo, as patas quase não fazendo barulho no chão da mata. O estresse do dia — as reuniões intermináveis, as manobras políticas, a bajulação dos outros — tudo isso sumia quando eu estava assim. Só instinto, movimento e a verdade limpa e simples da caçada.
Eu tinha saído do baile beneficente da família Taylor querendo descarregar a tensão do dia. Deixar meu lobo sair, correr, respirar.
Mas aí eu senti um cheiro levado pelo vento.
No começo era fraco. Doce e limpo, com um fundo que fez meu lobo ficar completamente imóvel. E tinha algo que era, de um jeito único, dela.
A reação do meu lobo foi imediata e avassaladora. Todos os meus instintos despertaram de uma vez, exigindo que eu seguisse aquele cheiro, encontrasse a origem.
Eu tentei afastar aquilo. Disse a mim mesmo que era só um interesse residual do nosso encontro anterior. Não fazia sentido um cheiro no vento me afetar com tanta força.
Mas meu lobo não estava ouvindo. Meu lobo já tinha mudado de direção, já estava correndo em direção à rodovia, em direção àquele cheiro que puxava alguma coisa funda e primal no meu peito.
Quando cheguei mais perto, eu ouvi vozes. Vozes irritadas. E, por baixo delas, um batimento cardíaco que eu, de alguma forma, reconheci — rápido, apavorado.
Eu rompi a linha das árvores bem a tempo de ver Victoria, meio transformada, de pé sobre uma figura caída, com as garras erguidas.
O cheiro me atingiu como um golpe físico. Medo. Prestes a ser machucada.
Meu lobo assumiu por completo.
O rugido que explodiu da minha garganta era pura dominância de Alfa, o tipo de som que se ouvia a quilômetros. Era uma ordem, um aviso e uma promessa de violência — tudo ao mesmo tempo.
