Capítulo 3
POV da Nora
Meu celular vibrou dentro da bolsa. Eu peguei o aparelho — era um colega da unidade de Blackwood ligando para falar sobre o andamento do caso de violência doméstica. Atendi.
— A pasta está na minha gaveta...
A mão do Kyle disparou e arrancou o celular de mim, encerrando a ligação.
A voz dele ganhou uma aspereza que eu nunca tinha ouvido antes.
— A gente tá bem no meio disso e você vai atender ligação de trabalho?
Arranquei o celular de volta.
— O que você tá fazendo?
— Você faz ideia do quanto eu tenho estado frustrado? — O desespero na voz dele estava virando outra coisa, mais feia. — A gente tá junto há um ano, Nora. Um ano inteiro. E quantas vezes a gente realmente se viu? Quantos encontros você desmarcou por causa do trabalho?
A acusação ficou suspensa no ar entre nós. Eu congelei.
— Toda vez que eu precisei remarcar, eu te avisei antes — eu disse, com cuidado. — Todas as vezes. E você disse que estava tudo bem. Você disse que entendia que meu trabalho era importante. Você disse que a gente podia remarcar.
— Eu tava tentando te apoiar! — A voz dele ecoou nas paredes de concreto. — Mas quer saber? Talvez eu devesse ter sido sincero. Seu celular não para de tocar. Você vive pegando o carro pra ir pra algum lugar no fim do mundo. Você nunca tem tempo. Quando foi a última vez que você me escolheu em vez do trabalho?
As palavras doeram mais do que eu queria admitir. Porque uma parte de mim sabia que tinha verdade ali. Quantas noites eu fiquei até tarde? Quantos fins de semana eu passei na estrada?
Mas então eu me lembrei do que eu tinha planejado.
— Eu ia tirar folga amanhã — eu disse, baixo. — Amanhã. Eu ia passar nosso aniversário com você. Eu até tinha planos de pegar seu presente amanhã de manhã.
Eu vi alguma coisa se partir na expressão dele; vi a raiva escoar e sobrar só arrependimento.
— Mas acho que agora não tem mais sentido. — Passei por ele em direção à escada. — Espero que aquela mulher te faça feliz, Kyle. De verdade.
— Espera. — Ele segurou meu braço de novo, mais suave dessa vez, suplicando. — Por favor, Nora. Não joga tudo fora. Eu sei que eu estraguei, mas a gente pode consertar. Só me dá um tempo—
— Tempo. — Eu olhei pra ele, olhei de verdade. — Quanto tempo, Kyle? Seja sincero comigo. Você abriria mão da sua herança por mim? Se a sua família te obrigasse a escolher, você deixaria a família Vaughn?
A pergunta ficou entre nós. Eu vi os olhos cor de âmbar dele se arregalarem, vi ele abrir a boca pra responder e, em seguida, fechar de novo. O silêncio se esticou, os segundos passando, e eu senti alguma coisa dentro de mim finalmente — irrevogavelmente — se quebrar.
— Foi o que eu pensei. — Eu me soltei do aperto dele. — Eu não vou abrir mão da minha carreira por você, Kyle. Eu não vou ser alguém que você mantém nas sombras. A gente quer coisas diferentes. Sempre quis. É melhor a gente aceitar isso agora.
— Você não pode estar falando sério. — A voz dele falhou. — Nora, por favor—
— Adeus, Kyle.
Eu me virei e subi as escadas. Mesmo assim, ele resolveu me seguir. Eu acelerei o passo.
— Nora! Espera!
A voz do Kyle. Desesperada. Implorando.
Eu não olhei pra trás. Andei mais rápido, respirando curto, o saguão se esticando à minha frente sem fim, como uma cena de pesadelo.
As portas giratórias estavam logo adiante. Pelo vidro, eu vi um táxi encostando na calçada, um passageiro descendo. Deus finalmente tinha me concedido uma pequena misericórdia.
Eu atravessei a porta e corri até o táxi, bem na hora em que o passageiro saía. O motorista ainda estava lá, o taxímetro ainda rodando.
—Moça, a senhora precisa de… —ele começou.
—Sim. —Eu puxei a porta de trás e me joguei para dentro. —Anda. Por favor, só dirige.
—Pra onde?
Passei o endereço do meu apartamento, com a voz tremendo.
Pela janela, vi Kyle explodir para fora das portas do hotel. —Nora! Não faz isso! A gente precisa conversar!
—Moça, aquele homem tá te incomodando? —o motorista perguntou, preocupado.
—Só dirige —eu disse. —Por favor.
O motorista deve ter ouvido alguma coisa na minha voz —desespero, exaustão, coração partido— porque não fez mais perguntas. Apenas engatou e saiu do meio-fio.
Olhei para trás, pelo vidro traseiro. Kyle ficou na calçada, a boca se mexendo, chamando meu nome, mas entre o barulho do motor e o trânsito da cidade, eu já não conseguia mais ouvir.
Quando o táxi se afastou do hotel, finalmente me permiti recostar no banco. Deixar os olhos se fecharem. Deixar uma lágrima escorrer pela minha bochecha, e depois outra.
As luzes da cidade viravam borrões do lado de fora. Eu estava tão cansada. Cansada pra caralho —desse trabalho que exigia tudo de mim, desse relacionamento que no fim era uma mentira.
Eu não percebi o SUV preto nos seguindo.
Não percebi que ele mantinha uma distância calculada enquanto a gente pegava o caminho da rodovia.
Não percebi até ser tarde demais.
O SUV avançou de repente, o motor rugindo. Veio rápido pela nossa esquerda e, por um instante, eu achei que fosse só ultrapassar. Mas então ele jogou o carro com força, entrando na nossa frente.
O motorista xingou e pisou no freio. O táxi derrapou, os pneus guinchando, e meu corpo foi sacudido com força contra o cinto de segurança. Paramos com um tranco, metade no acostamento, metade no cascalho.
—Mas que porra… —o motorista começou.
As portas do SUV se abriram. Dois homens saíram, os dois com porte de jogador de futebol americano, e os olhos brilhando eram o bastante para denunciar a espécie.
Então uma terceira figura desceu. Esbelta, elegante, envolta em pele.
Victoria Vaughn. A mãe do Kyle.
Meu coração martelava nas costelas, mas eu me obriguei a manter a calma. Apertei o spray de pimenta dentro da bolsa —equipamento padrão de defesa de assistente social da DSW.
O motorista se virou para me olhar, o rosto pálido. —Moça, eu não sei do que se trata, mas acho que a gente devia chamar a polícia—
—Não vai ajudar. —A voz de Victoria atravessou a janela, carregada de uma autoconfiança perturbadora. —Eu só quero ter uma conversinha com a senhorita Grey. Se ela colaborar, isso acaba rápido.
Ela fez um gesto para os dois seguranças.
Eles puxaram a porta do carro e abriram. Eu tentei resistir, mas força humana não era nada contra o poder de um Lycan. Um dos seguranças agarrou meu braço e me arrastou para fora apesar das minhas tentativas de me soltar. Minha bolsa escapou da minha mão, e o spray de pimenta caiu fazendo barulho no assoalho.
Uma dor aguda atravessou meus joelhos e cotovelos enquanto me manuseavam com brutalidade, mas eu cerrei os dentes com força, me recusando a soltar um grito.
Victoria lançou um sorriso de desprezo para o motorista. —Você não viu nada. Entendeu? Agora suma daqui, ou amanhã eu faço sua licença de táxi ser cassada.
O motorista olhou para ela, apavorado, e depois para mim. Eu vi a culpa nos olhos dele, mas também o medo. Ele sabia que resistir só traria um desastre maior.
—Me desculpa, moça —ele disse baixo, então ligou o carro e fugiu depressa dali.
As lanternas traseiras vermelhas desapareceram na escuridão, e eu fiquei na rodovia deserta, diante de três Lycans.
