O Alfa Me Escolheu

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Capítulo 1

POV da Nora

Eu me joguei na cadeira da minha mesa, encarando a montanha de processos espalhados pela superfície já gasta como baixas de guerra. Tinha acabado de voltar de uma cidadezinha no fim do mundo — três dias lidando com um caso de abuso contra um Lycan idoso, com apenas oito horas de sono no total — e minha cabeça parecia que alguém estava usando uma britadeira no meu crânio.

As lâmpadas fluorescentes do escritório da filial de Blackwood do DSW zumbiam lá em cima, aquele chiado elétrico constante que tinha virado a trilha sonora da minha vida. Os telefones tocavam numa harmonia desesperada enquanto meus colegas iam e vinham entre as baias, agarrados às canecas de café. O lugar inteiro cheirava a café queimado e desespero institucional — perfume de corte no orçamento público.

Esfreguei as têmporas, tentando focar no formulário à minha frente. Outra mulher sem sorte, 37 anos, suspeita de violência doméstica. Eu precisava agendar uma visita. Meus dedos mal estavam indo em direção ao teclado quando o diretor bateu na parede da minha baia.

— Nora, tem um minuto?

Ergui os olhos para o meu supervisor, reparando na camisa amassada e nas linhas de estresse marcadas fundo ao redor dos olhos. Marcus Brennan estava à frente da filial de Blackwood havia quinze anos, e dava para ver cada um deles. — Claro. O que foi?

— Na minha sala. Agora.

Ótimo. Eu o segui pelo labirinto de baias, acenando para a Claire quando ela articulou boa sorte da mesa dela. Seja o que fosse, não ia ser agradável. O Marcus só usava a sala dele pra duas coisas: conversa de orçamento e tarefa ingrata que ninguém mais queria.

Ele fechou a porta atrás de mim e apontou para a cadeira do outro lado da mesa. Eu me sentei, notando o convite formal em cima do caos de papéis de sempre.

— Eu preciso que você vá a um evento hoje à noite — ele disse, sem rodeios. — Seis e meia.

Eu pisquei. — Hoje? Marcus, eu acabei de voltar de—

— Eu sei. Mas isso é importante. — Ele pegou o convite, um cartão creme com detalhes em dourado em alto-relevo que provavelmente custou mais do que o meu aluguel do mês. — A família Taylor vai fazer o baile beneficente anual no Hotel Blackwood. Eles doaram uma grana considerável para o Departamento de Bem-Estar das Espécies. O Alfa deles pediu especificamente que a gente enviasse representantes.

Senti o cansaço pesar ainda mais. Um evento pra bajular doador.

— Você é a melhor que a gente tem pra esse tipo de coisa. — Ele deslizou o convite pela mesa na minha direção.

Tradução: eu sou a que fica melhor arrumada. Peguei o convite e li os detalhes. Baile Beneficente Anual da Família Taylor. Traje social completo opcional. Leilão silencioso e lances ao vivo para beneficiar várias causas, incluindo o DSW.

— Leilão beneficente? — perguntei.

Marcus assentiu. — Grande. Eles arrecadam milhões todo ano. Nosso repasse deles depende de manter boas relações, então a gente precisa aparecer e parecer agradecido.

Duas horas sorrindo para Lycans ricos que jogavam dinheiro na nossa direção pra se sentirem bem consigo mesmos, enquanto continuavam criando exatamente os problemas que a gente passava a vida tentando resolver. Eu queria dizer não. Queria ir pra casa, tomar um banho e dormir por, sei lá, quinze horas.

Mas o Marcus tinha razão. A gente precisava do dinheiro. A filial de Blackwood estava se segurando por um fio.

— Tá bom — eu disse, com a voz sem emoção.

— Leva o Benjamin e a Claire com você. Força em número. — Ele fez uma pausa, e a expressão dele amoleceu um pouco. — Eu sei que é pedir demais, principalmente depois da semana que você teve. Mas a gente não pode recusar.

Fiquei de pé, enfiando o convite na bolsa. “Mais alguma coisa?”

“É.” Marcus até sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. “Só tenta não falar pra nenhum deles o que você realmente acha dessa caridade deles, que é só pra abater no Imposto de Renda.”


O vestiário da filial de Blackwood tinha cheiro de produto de limpeza industrial e desespero, igual a praticamente todo o resto daquele prédio. Parei diante do espelho, tirando a minha jaqueta de campo surrada da DSW e encarando a mulher que me devolvia o olhar.

Três dias dormindo quase nada tinham deixado sombras sob meus olhos cinza-azulados que corretivo nenhum daria conta de esconder. Meu cabelo loiro estava um desastre, ainda impregnado com o cheiro do motel onde eu tinha desabado entre uma entrevista e outra. Eu estava com a cara exata do que eu era: uma prestadora de serviço do governo, de vinte e quatro anos, funcionando à base de cansaço e rancor.

Joguei água fria no rosto e peguei minha roupa de emergência — um blazer cinza-escuro, calça social preta e uma blusa branca só um pouco amassada. Enquanto me trocava, peguei meu reflexo de novo e senti aquela risada amarga de sempre subir na garganta.

Uma assistente social humana indo a um baile beneficente de licantropos. Antigamente, isso teria sido ridículo.

Trinta anos. Era esse o tempo desde que a Lei de Integração das Espécies supostamente tinha deixado tudo igual. Licantropos e humanos, vivendo lado a lado, mesmos direitos, mesmas oportunidades. Uma história bonita de união e progresso, que fica ótima em livro de História e desmorona no segundo em que você pisa no mundo real.

Prendi o cabelo num coque bem arrumado, fixando com grampos. No espelho, eu enxergava a verdade que a lei fingia que não existia. Licantropos tinham força, sentidos aguçados, longevidade e, mais importante, a agressividade necessária pra dominar toda indústria que realmente importava. Mineração, energia, segurança — qualquer lugar em que você precisasse de poder físico e capacidade de intimidar, quem mandava eram os licantropos.

E os humanos? Pra gente sobrava ser a “classe profissional”. Os advogados, os contadores, os assistentes sociais. Os que limpavam a bagunça depois que os licantropos faziam o estrago, fingindo que a gente estava no mesmo patamar.

Alisei o blazer, pensando no estado do Departamento de Bem-Estar das Espécies — a agência que todo mundo tinha esquecido que existia. A que tinha um orçamento que não pagava nem as férias de uma família rica. A que estava com o aquecedor quebrado havia três meses e ainda não tinha conserto porque não tinha dinheiro pra reparar.

A gente devia ser a ponte entre as espécies, a rede de proteção pros vulneráveis. Em vez disso, éramos o enteado esquecido do governo federal, sobrevivendo de migalhas e da doação ocasional — por culpa — das mesmas famílias que criavam a maior parte dos nossos casos.

“Por que você se mata tanto por isso?” A voz de Kyle Vaughn ecoou na minha cabeça, aquela mistura de carinho e frustração que eu tinha ouvido tantas vezes ao longo do último ano. “A DSW é um navio afundando, meu bem.”

Eu sempre ria, desconversava, dizia que acreditava no trabalho. Que, mesmo com o sistema quebrado, eu ainda podia ajudar as pessoas que caíam pelas frestas. Mas ali, naquele vestiário caindo aos pedaços, vestindo minha única roupa decente pra ir implorar dinheiro a gente que nos enxergava como abatimento de imposto, eu tive que me perguntar se ele não estava certo.

Meu celular vibrou. Mensagem do Kyle.

Mal posso esperar pra te ver amanhã à noite. Um ano com a mulher mais incrível do mundo. Planejei uma coisa especial. ❤️

Eu sorri apesar do cansaço. Amanhã era o nosso aniversário. A gente estava junto havia um ano e, apesar da desaprovação óbvia da família dele com a namorada humana, o Kyle tinha ficado do meu lado. Isso tinha que valer alguma coisa.

Eu também.

Guardei o celular na bolsa e dei uma última olhada no espelho. Tá bom o bastante. Eu não precisava impressionar aquela gente; só precisava não envergonhar o departamento.

“Nora!” A voz do Benjamin atravessou a porta. “O carro tá pronto! A gente tem que ir, senão vamos perder o maldito evento!”

Benjamin tinha acabado de se formar na faculdade, meu parceiro temporário. Ele entrou no departamento cheio de entusiasmo e otimismo, e agora já estava começando a reclamar do trabalho o tempo todo.

“Já tô indo”, respondi.

Alguns minutos depois, peguei meu casaco e saí, encontrando a Claire no corredor. Ela tinha conseguido achar um vestido que pelo menos parecia decente, o cabelo escuro arrumado em ondas.

“Você ficou bem arrumada”, eu disse.

“Você também. Bom, tão bem quanto dá pra ficar ganhando salário de DSW.” Ela passou a andar ao meu lado. “Será que vai ter comida boa?”

“É a família Taylor. Os aperitivos provavelmente custam mais do que o nosso salário do mês.”

O Benjamin estava esperando perto do carro. Ele tinha penteado o cabelo castanho e estava de gravata, com uma cara mais séria do que o normal.

“Prontos pra ver gente rica jogando dinheiro pro alto?”, ele perguntou, rindo.

Entrei no banco do passageiro. “Pronta tanto quanto vou estar. Só lembra: sorri, seja educado e, pelo amor de Deus, não faz nenhuma loucura.”

O Benjamin conduziu o carro do departamento pelas ruas esburacadas de Blackwood em direção à rodovia.

O Hotel Blackwood se erguia na paisagem como um dedo do meio para tudo o que Blackwood representava. Só vidro, aço e ostentação agressiva, bem na divisa da cidade de Silverton — perto o suficiente do nosso distrito pra dizer que estavam “devolvendo algo pra comunidade”, longe o bastante pra nunca precisarem realmente olhar pra ela.

O Benjamin entrou na rotatória da entrada e, na hora, eu me senti deslocada. Carros de luxo se alinhavam na porta — sedãs baixos com pintura personalizada, SUVs que custavam mais do que eu ganharia em cinco anos. Um manobrista de uniforme impecável apareceu na minha janela antes mesmo de eu abrir a porta direito.

“Boa noite, senhora. Bem-vinda ao Hotel Blackwood.”

Eu desci, puxando o blazer pra ficar alinhado enquanto o Benjamin gaguejava alguma coisa sobre se precisava dar gorjeta. A Claire apareceu ao meu lado, os olhos arregalados ao encarar o saguão visível através das portas de vidro.

“Caralho”, ela soltou, sem ar. “Eu acabei de entrar em outro mundo?”

“Provavelmente. Vem.” Eu conduzi os dois pra dentro. O saguão era feito de pé-direito altíssimo e iluminação cuidadosamente pensada, aquele tipo de luxo calculado que gritava a gente tem mais dinheiro do que você consegue imaginar.

Um homem de terno impecável se aproximou, com um sorriso profissional e distante. “Boa noite. Vocês estão com o baile beneficente da família Taylor?”

“Sim. Nós somos do Departamento de Bem-Estar das Espécies.” Eu puxei minha identificação.

A expressão dele mudou — não chegou a ser calorosa, mas ficou um pouco menos fria. “Claro. O sr. Taylor comentou que você se juntaria a nós. Por aqui, por favor.”

Ele nos conduziu pelo saguão em direção a um par de portas duplas, de onde eu já conseguia ouvir o burburinho de conversas e uma música baixa. Enquanto caminhávamos, vi outros convidados — mulheres em vestidos de grife e homens de smoking, com aquela autoconfiança tranquila de quem nunca precisou se preocupar se dava pra pagar mercado e gasolina na mesma semana.

“O leilão ao vivo começa às sete”, nosso acompanhante dizia. “Os lugares de vocês ficam na seção central, quinta fila. Vocês vão ter uma excelente visão do palco.”

“E que tipo de itens vão a leilão?”, Claire perguntou, com os olhos arregalados.

“Ah, peças extraordinárias. Obras de arte raras, pacotes de viagem de luxo, joias de designers exclusivos. O item mais disputado do ano passado saiu por um milhão de dólares.” Ele gesticulou em direção à entrada do salão. “Aproveitem a noite.”

Encontramos nossos lugares — bons, tenho que admitir, com uma visão desimpedida do palco, onde um púlpito já estava pronto para o leiloeiro. O salão de baile era obsceno de tão luxuoso.

Afundei na cadeira macia e tentei ignorar o embrulho no estômago. Aquele não era o meu mundo. Eu estava ali para sorrir, representar a DSW e depois ir embora e esquecer que aquelas pessoas existiam.

“Senhoras e senhores”, uma voz ecoou pelos alto-falantes. “Bem-vindos ao Gala Beneficente Anual da Família Taylor. Esta noite, nos reunimos para apoiar causas vitais em nossa comunidade, incluindo o trabalho extraordinário do Departamento de Bem-Estar das Espécies.”

Um aplauso educado se espalhou pelo salão. Forcei um sorriso quando algumas cabeças se viraram na nossa direção.

O leilão começou com itens menores — lembranças autografadas, coleções de vinho, escapadas de fim de semana. Os lances eram descontraídos, quase entediados, como se estivessem escolhendo entre entradas, e não gastando milhares de dólares.

Então a voz do leiloeiro ganhou um tom diferente. “E agora, senhoras e senhores, a joia da coroa desta noite. Uma peça sob medida deslumbrante da Cartier — o colar Cascata ao Luar. Platina e diamantes, com uma pedra central de 15 quilates. Avaliado em 850 mil dólares. Começamos os lances em 500 mil?”

Um holofote iluminou uma vitrine de veludo sendo levada ao palco. Mesmo do meu lugar, eu via o colar cintilar como luz de estrela aprisionada, obsceno de tão bonito — e de tão caro.

“Alguém oferece 500 mil?”

Uma plaquinha se ergueu em algum ponto da seção da frente.

“Quinhentos mil para a plaquinha 47. Alguém oferece 550 mil?”

Outra plaquinha. Os lances subiram rápido — 600 mil, 650 mil, 700 mil. Eu assistia com uma mistura de fascínio e nojo. Aquele dinheiro podia sustentar a nossa unidade inteira por meio ano. Podia ajudar centenas de famílias. Em vez disso, ia ficar pendurado no pescoço de alguém em coquetéis.

“Oitocentos e cinquenta mil para a plaquinha 23. Alguém oferece 900 mil?”

Silêncio. O leiloeiro esperou, esticando a tensão.

“Oitocentos e cinquenta mil... dou-lhe uma...”

“Um milhão de dólares.”

A voz cortou o salão como uma lâmina. Grave, imperiosa, inconfundivelmente Alfa. E inconfundivelmente familiar.

Meu sangue gelou.

Eu me virei para a seção da frente, com o coração martelando contra as costelas. Um homem se levantou, plaquinha erguida, o perfil iluminado pelas luzes do palco.

Kyle.

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