Capítulo 2: Elogio
POV da Xhani
O sinal do intervalo do almoço tocou, e a gente saiu correndo para as próximas aulas. A minha, por acaso, era Educação Física, então fui direto para o vestiário feminino me trocar. Tirei a parte de cima do uniforme e comecei a vestir a camiseta de esporte, sem pensar duas vezes. Foi bem nessa hora que a Sra. O — nossa professora de Educação Física, ferozmente sem papas na língua — entrou. Ela não tinha medo de ninguém e, com certeza, não ligava para o que os outros pensavam. E eu tinha a honra de ser a aluna favorita dela, sem querer me gabar.
A Sra. O parou, olhou direto para mim e mandou eu parar o que estava fazendo. Lá estava eu, só de short e top esportivo, de repente me sentindo completamente exposta. A Sra. O nunca tinha me destacado daquele jeito, tão na frente de todo mundo, e meu estômago se embrulhou.
Ela se virou para as outras meninas no vestiário, que tinham parado de se trocar para me encarar. O choque estava estampado no rosto de todo mundo — de todo mundo, menos da Celina. Aquela garota estava com o sorrisinho debochado de sempre, quase babando de vontade de ver a Sra. O gritar comigo.
Mas a Sra. O surpreendeu geral. De costas para mim, ela falou para o grupo:
— Alguém pode me dizer o que vocês veem quando olham para a Xhani?
Uma onda de confusão tomou conta do vestiário. Ninguém disse nada. Até eu fiquei ali, sem entender.
A Sra. O continuou:
— Querem saber o que eu vejo quando olho para a Xhani? — Ela abriu um sorriso orgulhoso. — Eu vejo a estrela desta escola. Ela é a única aluna daqui que compete com os meninos no mesmo nível. Ela joga todos os esportes como se a vida dependesse disso e mantém notas máximas desde o dia em que entrou.
Minhas bochechas esquentaram, mas eu não consegui evitar erguer o queixo com as palavras dela. Olhei em volta no vestiário e cruzei o olhar com a Celina. O rosto dela estava vermelho de raiva; o sorrisinho tinha sumido, substituído por uma carranca de inveja pura.
A Sra. O continuou, a voz carregada de orgulho:
— O resto de vocês é uma vergonha. Olhem para vocês — se amontoando em cabine individual pra se trocar — enquanto a Xhani fica de pé, confiante, bem no meio. Quero ver essa mesma coragem na quadra hoje, porque eu já estou cansada desse esforço pela metade.
Então a Sra. O se virou para mim, deu um tapinha no meu ombro e disse:
— Você me dá orgulho.
Eu nem consigo começar a descrever como foi incrível ser elogiada pela Sra. O. Quase ninguém ganhava a aprovação dela, então aquilo significava tudo pra mim. Nós duas saímos juntas do vestiário, deixando as outras meninas — com inveja e fervendo de raiva — para trás. Era triste, na verdade. Em seis anos aqui, ninguém conseguiu me superar nos esportes nem tirar notas mais altas do que as minhas, tanto nas provas escritas quanto nas práticas.
Assim que a gente chegou no corredor, o David apareceu por trás de fininho e deu um tapinha rápido na minha bunda. Eu me virei na hora, rosnando, mas ele só me respondeu com o sorriso travesso de sempre. Aí ele passou um braço pelos meus ombros e me guiou até o meio da turma, claramente sem se importar com a minha irritação.
Era só mais um dia na minha vida — só que, naquele dia, eu me senti um pouco mais imparável.
