Capítulo 1: A introdução está em vigor
POV da Xhani
Era um dia claro e lindo, e eu estava voltando da aula de culinária, com o coração quase flutuando de empolgação. Eu mal podia esperar para mostrar às minhas amigas o que eu tinha preparado e ouvir o que elas iam achar. Enquanto eu caminhava pela área verde do campus, vi uma garota sentada no chão, os ombros tremendo em soluços silenciosos. Atrás dela, de pé, estava um garoto que eu nunca tinha visto antes.
Tinha alguma coisa nele que chamou minha atenção, e eu acabei ficando ali, parada, encarando. Eu estava viajando nos pensamentos até que minha melhor amiga, Ziya, me puxou de volta para a realidade.
— Xhani, aqui! — ela chamou.
Ziya era minha melhor amiga desde que a gente começou na escola. Ela era baixinha, cheinha, e tinha um cabelo amarelo chamativo. Os olhos cor de mel, salpicados de dourado, eram grandes e expressivos. Com um metro e sessenta e cinco, ela tinha uns cinco centímetros a menos do que eu — com um metro e setenta — e eu nunca perdia a chance de zoar com isso.
— Tô indo! — eu gritei, acenando para ela.
Ziya olhou para o lugar que tinha prendido tanto a minha atenção.
— O que você tá olhando? — perguntou, estreitando os olhos, curiosa.
— Você conhece aquele cara? Eu nunca vi ele por aqui — eu soltei, sem pensar.
Ziya balançou a cabeça.
— Não. Por quê?
— Sem motivo — eu respondi, tentando disfarçar. Mas, na real, eu tinha ficado curiosa. Ele era misterioso, e, de repente, eu senti uma vontade forte de descobrir quem ele era. Bonito, forte, pele marrom-escura com um tom meio opaco… e aqueles olhos — redondos e brilhantes — realçados por cílios absurdamente longos. Os lábios eram rosados e perfeitamente desenhados, e eu percebi, meio chocada comigo mesma, que eu estava pensando em qual seria o gosto deles.
A gente tinha só dezessete anos e estava no último ano do ensino médio. Com a formatura chegando, parecia essencial pelo menos descobrir o nome dele antes de dar adeus a esse lugar para sempre.
Eu estudava numa das maiores escolas de Malibu, que diziam ter quase quatro mil alunos naquele ano. Era tão enorme que os estudantes eram divididos em sete casas: Vermelha, Laranja, Verde, Amarela, Roxa, Azul e Rosa. Dispostas em círculo ao redor de um pátio central, as casas cercavam uma grande área de grama sintética, onde os alunos podiam se jogar no chão ou sentar nos bancos durante o almoço.
Cada casa tinha alunos do 7º ao 3º ano do ensino médio. Depois do 3º ano, a gente podia escolher ir para a faculdade. Eu estava no 3º ano, e a Ziya também. A gente era conhecida por aprontar — eu e a Ziya nunca ficávamos sem uma pegadinha ou uma piada na manga. Eu, por acaso, era bem popular, então conhecia gente de todas as casas. Claro que algumas pessoas não gostavam de mim, geralmente aquelas que achavam que eu tinha “roubado os namorados” delas, o que era uma completa besteira.
Quando o sinal tocou, a gente teve que correr de volta para a sala. Mas eu lembrei rapidinho que precisava passar no banheiro feminino antes. A Ziya resolveu ir junto, já que a gente tinha a próxima aula no mesmo horário.
Dentro do banheiro, eu lavei as mãos e depois parei na frente do espelho, piscando para o meu próprio reflexo. Com um metro e setenta, eu tinha o cabelo longo, liso, castanho-escuro, que batia no quadril, um rosto pequeno e olhos grandes, amendoados. Meus olhos eram castanho-claros, com um brilho discreto, e minhas bochechas sempre tinham um rosado. Eu amava meu corpo — pernas fortes, bunda empinada, cintura fininha. A saia do uniforme ficava perfeita em mim, embora às vezes subisse por causa das minhas curvas. Muita gente achava que eu empinava o quadril de propósito, mas era só o jeito que a saia assentava.
Eu tinha prometido a mim mesma que meu último ano no ensino médio seria sobre viver coisas novas e descobrir quem eu era. A faculdade e o resto do mundo estavam ali, logo depois da formatura, mas eu queria curtir o agora e fazer esse último ano valer: feliz, sorrindo, de mãos dadas com minhas amigas. Claro que eu também planejava me esforçar e tirar notas que deixassem meus pais orgulhosos — do mesmo jeito que eles me deixavam orgulhosa com as conquistas deles.
Mesmo assim, eu não conseguia tirar da cabeça a imagem daquele garoto misterioso. Quem quer que ele fosse, eu só sabia de uma coisa: eu precisava descobrir. Afinal, o tempo estava passando, e a formatura já estava logo ali.
