Capítulo 1: Funeral
No funeral de sua avó, Michael Johnson deveria estar ao lado de sua esposa. Em vez disso, Olivia Smith observava seu marido dar atenção ao seu primeiro amor, Sophia Brown, transformando a ocasião solene no que parecia um anúncio de casamento. Ele ignorava completamente Olivia e a filha de três anos do casal, Bianca.
A capela estava repleta de figuras ilustres da política e do mundo dos negócios, e a presença deles atraiu uma multidão de jornalistas. Os flashes das câmeras disparavam incessantemente, registrando a cena para o público. Os sussurros começaram quase imediatamente.
— Aquela é a Sra. Johnson? Ela forma um belo casal com ele.
— Não é ela. A Sra. Johnson é aquela, parada perto do retrato.
— O quê? Então quem é a mulher que está com o Sr. Johnson?
— É Sophia Brown, o primeiro amor dele. Ela acabou de voltar do exterior, agora é uma CEO de sucesso.
— Ouvi dizer que a Sra. Johnson forçou o casamento se aproveitando do carinho da velha Sra. Johnson. Foi ela quem separou o Michael e a Sophia.
— Uma destruidora de lares... Não me admira que ele nem olhe na cara dela.
As palavras sussurradas e venenosas atravessaram a dor de Olivia. Ela ergueu o olhar, deparando-se com um mar de olhos desdenhosos antes de fixá-lo em Michael. Ele estava de pé diante do retrato da avó, alto e imponente em um terno preto, com seu rosto bonito transformado em uma máscara de fria tristeza. Mas, quando ele olhava para Sophia, o gelo em seus olhos parecia derreter, sendo substituído por um lampejo de ternura. Em seguida, ele acompanhou Sophia e o filho dela para prestarem suas homenagens, sem lançar um único olhar para Olivia ou para a própria filha.
A amargura inundou o coração de Olivia. O casamento deles havia sido obra da avó, Emily. Anos atrás, um acidente de carro havia deixado Michael sem o movimento das pernas e com o espírito destroçado. Como terapeuta, Olivia havia sido contratada para ajudá-lo. Ela cuidou dele até que se recuperasse, tirando-o das profundezas da depressão.
Na noite em que ele finalmente voltou a andar, a família deu uma festa de comemoração. Bêbado e eufórico, ele a abraçou, sussurrando seu nome. Tomada pela alegria, ela se entregou completamente a ele.
Mais tarde, ela engravidou e, por insistência de Emily, eles se casaram. Agora, a filha deles tinha três anos, e essa era a primeira vez que Olivia ouvia falar de um "primeiro amor".
Uma dúvida gélida se insinuou em sua mente. Naquela noite, ele estava chamando o nome dela, ou o de Sophia?
Seus pensamentos foram interrompidos quando Michael finalmente caminhou até ela, com uma expressão sombria.
— A imprensa está por toda parte — alertou ele, com a voz baixa e cortante. — Cuide da Bianca. Não vou tolerar nenhum problema no funeral da minha avó.
A ternura que ele havia demonstrado a Sophia desaparecera, substituída pela familiar e gélida indiferença. O coração de Olivia congelou. Ela tinha mil perguntas, mas aquele não era o momento nem o lugar. Em respeito a Emily, ela precisava manter a paz. Sem dizer uma palavra, ela pegou a mão de Bianca e a levou para a sala reservada à família.
Michael franziu a testa diante do silêncio dela, mas voltou-se para Sophia, que estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ele lhe ofereceu seu lenço, um gesto de ternura inapropriada que atraiu a atenção de todos.
Ninguém notou quando um garotinho se esgueirou e seguiu em direção à sala reservada.
Olivia confortava Bianca, que estava quietinha, quando a porta se escancarou. O filho de Sophia, Aiden, entrou cheio de si. Ele encarou Bianca com um sorrisinho cruel no rosto.
— Essa é a filha do papai Michael? — ele provocou. — Ouvi dizer que ela tem problema na cabeça. É verdade?
Olivia paralisou. As palavras eram de uma maldade chocante para uma criança. E ele havia chamado Michael de "papai"?
— Quem te ensinou a falar isso? — ela exigiu, protegendo Bianca instintivamente. O autismo de Bianca era um assunto particular. Como ele poderia saber?
Aiden continuou, ganhando confiança:
— Por que ela não fala? Ela é muda? Ou só burra? Não é à toa que o papai Michael não gosta dela.
Uma fúria maternal explodiu dentro de Olivia.
— Seu menino mal-educado! Saia daqui! — Ela agarrou o braço dele para puxá-lo para fora da sala, desesperada para proteger Bianca de suas palavras venenosas.
— Eu não vou sair! — Aiden gritou, debatendo-se. — O papai Michael só vai gostar de mim!
Ele começou a berrar, e o alvoroço chamou atenção imediatamente. Membros da imprensa correram em direção à sala reservada, de câmeras em punho. De repente, Michael apareceu e bateu a porta na cara deles. Ele fuzilou Olivia com o olhar, a voz carregada de fúria.
— O que você está fazendo? Solte o Aiden agora mesmo!
— Ele ofendeu a Bianca! — exclamou Olivia, com a voz embargada de raiva. — Eu só estava tentando tirá-lo daqui!
— Não seja ridícula — retrucou Michael, com um olhar frio e incrédulo. — O Aiden acabou de conhecê-la. Por que ele a ofenderia?
A recusa dele em sequer ouvi-la foi como um tapa na cara. Olivia soltou o garoto. Ele nunca acreditaria nela. Essa constatação fez seu coração mergulhar em um abismo de gelo. Ela se virou e puxou Bianca para os braços.
O restante da família Johnson chegou, com os rostos transparecendo puro desprezo.
— Olivia, você tinha mesmo que fazer um escândalo logo hoje? — acusou Amelia, a mãe de Michael.
— Você só está com ciúmes da Sophia — desdenhou Chase, o irmão dele. — Arrumando confusão no velório da vovó. Se não quer estar aqui, então vá embora!
Nenhuma pessoa sequer a defendeu.
— A homenagem da família vai começar — disse Michael, em um tom categórico. — Não arrume mais confusão.
Uma risada amarga escapou dos lábios de Olivia.
— Por acaso eu sou família para algum de vocês? Você protege a criança que ofende a nossa filha, mas sequer me escuta. Você se importa com a Bianca, pelo menos um pouco?
Os olhos dela, cheios de mágoa e de uma nova determinação, encontraram os dele.
— Michael, você vai se arrepender disso.
Sem dizer mais nada, ela pegou Bianca no colo e saiu do velório, deixando para trás o rosto sombrio e furioso de Michael.
Lá fora, o vento frio pareceu um golpe físico, mas não era nada comparado à dor em seu coração. Os quatro anos de casamento, construídos sobre o que ela agora sabia ser uma mentira, estavam despedaçados.
A mentira havia acabado. Era hora de acordar.
