Capítulo 2 Kinky
Ponto de vista de Uriel
“Em carne e osso.” Ele lançou um olhar para meus livros, espalhados pelo chão, pegando apenas um. “Não sabia que você tinha um fetiche tão sombrio.”
Meus olhos se arregalaram de horror enquanto eu arrancava meu romance da mão dele.
“O que você sabe sobre—”
“Haunting Adeline? Muita coisa.” Ele avançou na minha direção, me fazendo dar um passo cauteloso para trás. “O bastante pra saber que você é uma dessas leitoras que fantasiam em ser comida com uma faca.”
“Jesus, Ryder.” Coloquei a mão no peito dele, meu corpo quente por estar sob aquele olhar avaliador. “Pede desculpa por ter esbarrado em mim e vai embora.”
“Por quê? Você esbarrou em mim.” Ele enfatizou.
“Mas você não é quem está com a cabeça girando agora. Acho que preciso ver um médico.” Encostei o dorso da mão na testa, choramingando de forma dramática.
O corpo dele era duro como pedra. Não era exagero.
“Tá, tanto faz.” Ele esfregou o ombro no meu ao passar por mim. “Até mais, Safadinha.”
Até mais?
Porra, eu queria que você voltasse rastejando pro buraco de onde saiu.
E o que ele quis dizer com safadinha?
Espera—
“Ryder?” chamei quase na hora, observando-o com cautela quando aqueles olhos verde-escuros e gelados pousaram em mim, fazendo arrepios descerem pela minha coluna.
Ele continuava tão bonito quanto sempre. Estava com o cabelo trançado em cornrows bem certinhas, um piercing pequeno na orelha esquerda e uma nova marca de nascença embaixo da pálpebra direita.
Merda.
E estava ainda mais alto e musculoso.
“Tira uma foto, safadinha. Dura mais, prometo.”
Eu pisquei várias vezes, engasgando numa falsa repulsa. Eu até podia tentar me sentir enojada… mas não quando ele estava gostoso pra caralho.
“Ah, você queria.” Encarei-o. “Você lembra de mim, né?”
Uma parte da minha mente torcia pra não, enquanto a outra torcia pra eu ter sido importante o bastante pra ser lembrada.
“Por quê? Você é alguém importante?” ele rebateu, me fuzilando com o olhar.
Revirando os olhos, virei o rosto. “Deixa pra lá.” murmurei.
Ele continuava o mesmo babaca arrogante e egocêntrico.
Depois de juntar meus livros do chão e enfiar tudo na mochila, comecei a andar na direção da biblioteca quando uma mão forte se fechou no meu braço, me parando.
Ele me girou, os olhos cravados nos meus. “Você não vai matar aula, vai?”
“E desde quando isso é da sua conta?” encarei-o com nojo. Dessa vez, de verdade. Ele estava me irritando sem nem fazer esforço.
Ou é porque ele não te reconheceu?
Pff! Como é que—
“Eu não posso ser o único aluno atrasado. Eu acabei de voltar.” ele disse, me puxando junto com ele.
“Me solta, Ryder.”
Ele tinha acabado de voltar e já estava me infernizando. Inacreditável.
“Não dá.” O aperto dele não era forte o suficiente pra deixar roxo, mas era firme o bastante pra me arrastar até a sala.
“Não abre essa— merda, ele abriu a porta.” eu xinguei baixinho. “Sério?”
Um sorrisinho presunçoso apareceu nos lábios dele quando disse: “Damas primeiro.”
“Você é insuportável.” sibilei, entrando na sala, que parou por causa da nossa interrupção.
Eu tinha planejado matar essa aula e depois pegar as anotações com alguém.
Maldito, Ryder.
“Uriel? Por que você— ah. Você está com ele.” minha professora de inglês, Laurie, disse. Ela tinha um sorriso divertido no rosto, os olhos alternando entre Ryder e eu.
“Não, eu—”
“Foi tudo culpa dela. Ela me prendeu num canto do corredor.”
A turma fez “uuuuuh”.
“Eu não fiz isso.” falei, fulminando-o com o olhar.
“Então por que você está toda suada, safadinha?” ele falou alto. “E por que a gente está atrasado?”
Babaca.
“Eu… a culpa é toda sua.”
“Certo, vocês dois, sentem-se. Podem continuar essa discussão no tempo de vocês.” Dona Laurie disse, balançando a cabeça enquanto olhava pra nós, incrédula — como se não conseguisse processar a gente junto.
Justo.
A gente era o oposto um do outro.
Bufando de irritação, corri pra me sentar no fundo, ignorando os olhares dos meninos e os fuzilamentos das meninas.
“Você voltou, Ryder.” uma garota disse, alto o bastante pra gente ouvir. “Onde você estava? Você veio pra ficar?”
“Silêncio!” Dona Laurie cortou. “Sente-se em algum lugar, Ryder.”
Quando os olhos dele pararam na cadeira vazia ao meu lado, eu deixei minha mochila cair em cima dela, com os olhos grudados no quadro branco.
“Típico.” ouvi ele murmurar. Aí ouvi a cadeira atrás de mim arranhar o piso.
Deus, não.
“Você está bem aí?” Dona Laurie perguntou.
“A vista é boa.” ele respondeu.
Alguns minutos de aula e eu comecei a sentir bolinhas de papel sendo jogadas na nuca. Algumas caíam na minha frente também.
Quando eu abria, estavam vazias.
“Qual é o seu problema?” sibilei baixo, me inclinando na direção da cadeira dele.
“Você nunca pediu desculpas por ter esbarrado em mim.” Ele deu de ombros.
“Depois daquela palhaçada que você fez…” olhei para a professora, esperando ela virar de volta para o quadro, antes de continuar, “acho que estamos quites.”
“Palhaçada? Não foi você que me encurralou num canto, me fazendo perder tempo?”
“Como é que é?” zombei. “Desde quando você se importa em chegar cedo na aula?”
“Do que você está me acusando, Kinky?” Ele cruzou os braços.
“Esquece, Ryder.” Virei para a frente, rabiscando qualquer coisa no verso das minhas anotações.
É só essa aula, Uriel. Eu disse a mim mesma.
Por sorte, ele parou de me incomodar. Assim que a aula acabou, saí correndo como se estivesse sendo perseguida por um fantasma.
Bom, eu estava sendo perseguida pelo fantasma do meu passado.
“Ryder Connell voltou!” Esse era o assunto do dia. Seguido de: “Ele está ainda mais gato.” Aquilo estava ficando cansativo — muito rápido.
Revirando os olhos enquanto passava por três garotas, fui até a biblioteca.
“Oi, Eddy.” Cumprimentei o recepcionista. “Como vão as coisas?”
“Tudo tranquilo, Uriel. Você está bonita.” Eddie sorriu para mim. Ele era um universitário que trabalhava meio período na biblioteca da nossa escola.
“Obrigada. Vim me candidatar para assistente de biblioteca.” Sorri nervosa, empurrando minha carta de candidatura para ele.
“Ah, legal. Vai ter que passar pela bibliotecária, depois pelo diretor, e então voltar para você.” Ele deu de ombros, pegando o papel. “Tenho certeza de que você vai conseguir.”
“Espero que sim.” Suspirei e sorri de novo. “Tchau, Eddy.”
Ele acenou para mim, me observando sair. No instante em que pus os pés para fora, quase gritei quando um rosto surgiu bem na minha frente, e meu coração disparou no peito.
“Você demorou bastante.” Ryder me encarou de cima.
Franzindo levemente a testa, fechei os olhos, com a mão no peito.
“Acho que te assustei.”
Lançando um olhar fulminante para ele, examinei-o de cima a baixo. “O que você quer agora, Ryder?”
“Preciso de ajuda para encontrar a sala de música. Ouvi dizer que mudaram de lugar.” Ele deu de ombros, mantendo uma boa distância entre nós.
“A Achievers High tem mais de cem alunos e eu fui a única pessoa que você escolheu para perguntar?”
Juro, ele não tinha mudado.
Ele estava atrás do meu sangue.
“Só me mostra.” Ele rosnou, frustrado.
“Não faz isso.” Apontei para ele. “Você não tem o direito de ficar frustrado. Quem está me frustrando aqui é você, Ryder.”
Os lábios dele se curvaram num sorriso de canto. “Tanto faz.”
Quando viu que eu não estava saindo do lugar, só pensando em como enterrar o corpo dele nas prateleiras da biblioteca, perguntou:
“Você vem?”
E porra, eu tinha aula de música.
“Turma 1 ou 2?” perguntei.
“2.”
Graças a Deus.
Eu era da Turma 1.
“E você?” ele perguntou de volta.
“Bem longe de você. Como deve ser.” Um sorriso se abriu nos meus lábios enquanto eu passava por ele feliz.
“Do jeito que você está tentando fugir de mim, eu diria que você tem uma queda por mim.”
Um bufar alto escapou dos meus lábios. “Queria você, né, Ryder? Se você fosse o último homem do mundo, eu morreria solteira com o maior prazer.”
E eu falava sério.
“É isso que todas dizem, Kinky. Pelo visto, você é só mais uma mentirosa.”
Dessa vez, eu franzi a testa.
“Sabe de uma coisa? Arranja um guia se você esqueceu a sua escola, garoto novo.” Acelerando o passo, corri para a minha aula.
Quando olhei para trás, ele não estava em lugar nenhum.
Ainda bem.
“Amiga, como você está? O Ryder voltou.” Kathie me puxou para sentar com ela assim que entrei na sala.
“E já ficou em primeiro lugar no ranking dos que mais tiram minha paciência.” Gemi, sentando.
“Nem me fale.” Ela riu. “Por que você acha que ele voltou?”
“Não me importa. Vamos... vamos não falar dele.” Eu disse a ela, pegando meu violino.
“É inevitável. Todo mundo está falando dele.” Ela pegou o dela também, prestando atenção no professor quando ele começou a ensinar.
Consegui passar por todas as minhas aulas sem nenhum tipo de perturbação até chegar a hora de comer.
Kathie e eu nos encontramos com Lance e Chloe e fomos andando até o refeitório, indo direto para o nosso lugar de sempre. O lugar dos nerds.
“Vadia, seu homem voltou.” Chloe brincou.
Não isso de novo.
Eu estava cansada de ouvir falar do Ryder.
“Quem?” fingi que não sabia.
“Exatamente, quem?” Lance franziu a testa, cruzando os braços.
“Vocês dois sabemmmm.” Kathie provocou.
“Ryder?” zombei, mas congelei no lugar quando alguém respondeu:
“Sim?”
Os olhos das minhas amigas se arregalaram, olhando para trás de mim. O refeitório inteiro ficou tão silencioso que dava para ouvir um alfinete cair.
Quando me virei, os olhos de todo mundo estavam na nossa mesa. Por causa de um garoto.
Um único garoto.
“O que você está fazendo aqui?” Eu o encarei, me afastando quando ele largou a bandeja de comida sobre a mesa.
“Você me aconselhou a pedir um guia.” Ele falou casualmente, sentando-se. “Oi”, disse aos meus amigos.
Ele nunca tinha cumprimentado meus amigos antes.
“Oi?” Todos responderam, sem jeito. Menos Lance — ele não estava nem um pouco feliz.
Eu te entendo, cara.
Ryder desviou o olhar para mim, a covinha evidente na bochecha direita enquanto sorria. “Então eu consegui um.”
“Tá?”
“É VOCÊ, Uriel Kennedy.”
Meu rosto empalideceu enquanto eu encarava o sorriso diabólico dele.
Esse... esse desgraçado.
