Meu Bully de Outrora

Download <Meu Bully de Outrora> grátis!

BAIXAR

Capítulo 1 De volta às aulas

Ponto de vista de Uriel

— Por que ninguém me acordou pra ir pra escola?! — reclamei, despencando as escadas. Meu coração batia rápido.

Eu não ia começar meu primeiro dia como aluna do último ano do ensino médio chegando atrasada.

— E quem é a sua empregada nesta casa? — minha mãe foi a primeira a rebater. Ela sempre guardava comentários venenosos prontos pra mim.

Franzindo levemente a testa, servi primeiro um copo d’água. — Mas você acordou a Emma.

Olhei para o meu pai, buscando ajuda. Ele só deu de ombros, desviando o olhar.

Claro.

— Porque ela precisa ser pontual. — Minha mãe me lançou um olhar atravessado — daqueles que eram pra me calar.

— E eu? — perguntei, largando o copo vazio no balcão com cuidado, os olhos cravados nela.

— Você me faz uma pergunta tão idiota? Quem você acha que é? — ela sibilou, desligando o gás.

Sua filha?

— Desculpa, mãe.

— Desculpa pra você mesma. — Ela colocou a omelete num prato.

— Isso é pra mim? Eu não comi nada ontem à noite. — Fiquei na esperança de que ela dissesse que sim.

— E quanto você acrescenta a esta casa? — ela disparou, me fazendo estremecer.

— Faith. — Meu pai falou, com um tom duro.

— O quê? Alguém tem que dizer a verdade pra ela. A gente só consegue alimentar três bocas, não quatro. — Ela sibilou, virando o rosto. — Come isso aí se quiser. Eu já perdi o apetite.

Meu estômago roncou quando olhei pra comida, mas eu não ia deixar que ela me insultasse daquele jeito.

— Eu tenho que ir, pai. — Fui até meu pai, com a perna debilitada, e me inclinei pra dar um beijo na bochecha dele.

Desde que ele se machucou na perna, no trabalho, as coisas tinham ficado meio terríveis. Principalmente pra mim. Pelo menos quando ele estava trabalhando de verdade e trazendo dinheiro pra casa, eu era cuidada como devia.

Mas deixemos essa história pra outra hora.

Boas vibrações eram tudo o que eu queria ter hoje.

— Aqui. — Ele apertou um papelzinho na minha mão. — Por favor, guarda tudo.

Eu engasguei, olhando o dinheiro na minha palma. — Pai…

— Por favor. Você está ficando magra. Isso está me incomodando. — Havia uma tristeza no olhar dele.

Aquilo me enfraquecia.

— Mas…

— Que bom que você ainda… — Minha mãe nos mediu com desconfiança. — Do que vocês dois estão falando?

Enfiei o dinheiro no bolso antes de me virar pra ela.

Não é da sua conta, foi o que eu quis dizer.

Mas me contentei com: — Bênçãos da manhã.

— Você abençoou a Emma também?

É. Era sempre Emma, Emma, Emma.

Às vezes eu me perguntava se ela era mesmo minha mãe, porque não parecia.

— Tá, tchau.

— Não, espera aí! — Ela veio depressa até mim, enfiando uma carteira na minha mão. — Procura a Emma e entrega pra ela. Diz que meu cartão de crédito está aí dentro e que ela sabe a senha. Diz pra ela comprar aqueles vestidos que ela queria.

— Tá, tanto faz. — Arranquei a carteira da mão dela, lutando contra a vontade de gritar “e eu?” na cara dela.

“É melhor você dar isso pra ela, Uriel!”

Quando saí de casa, fiquei pensando se usava o dinheiro que meu pai me deu para transporte ou para comida.

Eu não queria ficar toda suada no meu primeiro dia.

“Ei, vadia!”

Ignorei o chamado, porque desconfiei que fossem aqueles metidos ricos que moravam rua abaixo, e continuei andando em frente.

“Uri!” A voz ficou clara e familiar. Então um carro passou por mim, bloqueando meu caminho.

“Que porra?” Eu ri, olhando de Kathie para Lance e Chloe, que estava ao volante.

Analisando o carro, balancei a cabeça, sem acreditar. “Nem ferrando!”

“Ferrando, sim, vadia!” Chloe assentiu. “Meu pai deixou eu ficar com ele. Mas só três vezes por semana.”

“Nosso possante novo!” Lance comemorou. Ele era o único garoto do nosso grupo e meio que nosso irmão mais velho.

“Entra logo. A gente não pode se atrasar demais.” Kathie abriu a porta, o rosto tão corado de felicidade.

“Aqui. Comida.” Lance jogou um pacote na minha coxa quando entrei. “Tô supondo que a Mamãe Emma não te deu nada pra comer.”

Viu? Até meus amigos sabiam.

“Quer dizer, é por isso que a gente chama ela de Mamãe Emma. Ela existe só pra Emma.” Kathie riu, virando-se para mim do banco do passageiro.

“Aquela vaca.” Chloe sibilou. “Enfim, lê as regras do nosso último ano no ensino médio pra eles, Kat.”

“Ah, sim.” Kathie se virou de novo, agora com uma expressão séria. “A gente vai viver. Tipo, sair por aí, festejar, beber, fazer viagens com a turma, fumar se precisar—”

“Corta essa”, murmurei depressa, com a boca cheia de comida.

“Garota, se precisar. A gente vai transar.” Quando disse essa parte, ela olhou diretamente para mim.

“Isso é discriminatório.” Fiz beicinho, arrancando uma risada de Chloe e Kathie.

“Deixa ela em paz. Faz isso no seu tempo, tá?” Lance pousou a mão na minha coxa.

“Tá vendo? O Lance entende.” Sorri para ele, mandando um beijo. Na mesma hora, a bochecha dele ficou vermelha.

“O Lance é um molenga quando se trata de você. Todo mundo sabe.” Chloe disparou.

“E por último, terminar com notas arrasadoras e deixar uma marca nesta escola para os nossos veteranos.” Kathie respirou fundo.

“Me diz como é que a gente vai fazer isso se vai estar festejando e tudo mais.” Bufei, limpando a boca com o guardanapo que encontrei no pacote.

“A gente dá um jeito.” Kathie murmurou, abrindo a porta.

Tínhamos chegado à escola.

“Este ano a gente não pode ser conhecido como o ‘grupo dos nerds’. Sério.” Chloe disse, com seriedade na voz. Meus olhos brilharam de admiração quando reparei no vestido caro e sob medida dela.

“Amiga, você arrasou com esse vestido.” Kathie falou antes de mim.

“Sério, Chloe.” Sorri abertamente, meus olhos se recusando a sair do vestido.

“Para.” Ela abanou a mão no ar, um pouco tímida. Ela não gostava muito de ser o centro das atenções.

Ainda assim, elas queriam causar impacto na escola e deixar sua marca.

Gente engraçada.

— Você também, Uri. Cropped e calça larga? Faz totalmente o meu estilo! Você também está lindo, Lancezinho — comemorou Kathie.

— Tá bom, já chega. — Lance foi o primeiro a andar em direção ao prédio da escola.

— Ele não tem graça nenhuma. — Kathie revirou os olhos, enlaçando os braços no meu e no de Chloe.

— E sua saia e blusa de tênis estão legais — eu disse a Kathie.

— Achei que você não fosse me elogiar.

— Pode acreditar, ela vestiu um vestido falso pra esconder isso da mãe dela hoje de manhã — Lance disparou lá da frente, os olhos ainda fixos à frente.

— Cala a boca! — dei uma risadinha, jogando a cabeça para trás. Chloe soltou um riso abafado enquanto Kathie revirava os olhos para nós.

— Bem-vindos à Achievers High, onde ser inteligente é um crime — disse Lance, empurrando a porta do corredor para abrir.

1...2...3...

Todos os olhos se voltaram para nós. Estávamos atrasados e, pelo menos desta vez, de um jeito estiloso.

— Os nerds? Atrasados? Ah, qual é! — alguém gritou de um canto, arrancando risadinhas da multidão de alunos.

— Não se acovardem, gente! — murmurou Kathie.

— Você me conhece. — Soltando nossas mãos, eu me firmei, com o olhar duro enquanto encarava ninguém em particular.

Eu não era tímida como meus amigos. Eu era corajosa e, na maior parte do tempo, vivia irritada naquela escola.

Nada me interessava.

De qualquer forma, era o típico ensino médio, com o time de basquete no topo da hierarquia, as líderes de torcida logo abaixo, depois alguns aspirantes a populares e, por último, os nerds.

Infelizmente, passei por um bullying terrível nos últimos dois anos nas mãos do capitão do time de basquete.

Um nome que eu nunca deveria mencionar.

Mas ele estava morto para mim desde que saiu da Achievers High no ano passado. Eu também tive minha paz.

Foi realmente uma experiência terrível. Daquelas em que eu não gostava nem de pensar.

Foi TORTURA.

— Tá tudo bem? Você está encarando a foto do Ryder ali faz um tempo. — Kathie pousou a mão no meu ombro.

— Estou? — dei uma risada nervosa. Eu nem sabia que estava olhando. Não, eu estava fuzilando com os olhos. — Ele está ausente há um ano. Por que ainda têm isso aí?

— Porque ele era a estrela. Invencível — respondeu Chloe, num tom de quem diz “é óbvio”.

— Tem um novo capitão. Chase Holler — apontei, meus olhos correndo até onde ele estava, com garotas amontoadas ao redor dele.

O mesmo grupinho de garotas que também vivia em volta de Ryder. Sem-vergonhas.

— Comparado ao Ryder, nahhh. — Chloe deu de ombros. — Ah, olha o Peter! — arrulhou Chloe, com os olhos sonhadores em plena exibição enquanto encarava o cara loiro do time de basquete.

Um dos melhores amigos de Ryder.

— E o Mason! — Kathie soltou um gritinho baixo, de olho no garoto de cabelo escuro ao lado de Peter.

Esse era outro dos melhores amigos de Ryder. Farinha do mesmo saco.

Eles quase nunca apareciam assim no ano passado, desde que Ryder foi embora. O que mudou?

“Jesus Cristo. Vocês duas são assustadoras.” Lance revirou os olhos. “Vocês deviam arrumar novos amigos ou simplesmente andar comigo, Uriel.”

“Pra ela morrer de tédio lendo um daqueles livros didáticos chatos da escola.” Chloe zombou. “Merda! Eles estão olhando pra cá. Rápido, finge que tá tirando alguma coisa do meu cabelo.”

“Hã?” Kathie franziu a sobrancelha, confusa, mas fez mesmo assim.

Eu dei uma risadinha, balançando a cabeça.

“Vocês duas estão ferradas.”

De repente, ouviu-se um assobio malicioso vindo do fim do corredor. “Ei, Kat, quer montar nesse pau com essa saia curta?”

“Vai se foder, Dennis”, Kat retrucou na mesma hora, com as bochechas vermelhas de vergonha e timidez.

Essa era provavelmente a primeira vez que ela gritava tão alto.

“Me encontra no laboratório vazio, gata. A gente pode falar sobre o clima enquanto fode.” Dennis rebateu, rindo alto junto com os outros colegas do time.

Ai, Jesus.

“Eu vou matar aquele garoto. Que irritante.” Kathie sibilou, lançando um olhar mortal na direção dele.

“Pelo menos você não tem um perseguidor que nem o Matthew. Olha ele esperando no meu armário.” Chloe gemeu alto. Seguimos seu olhar e vimos Matthew parado em frente ao armário dela, recitando alguma coisa.

“Vamos antes que toquem o sinal pra aula. Tchau, amiga.” Kathie puxou Chloe com ela. As duas tinham aula juntas.

“Então agora só tem você... Ah.” Virei para procurar Lance, mas ele tinha sumido. Não, ele estava falando com uma garota da turma dele. Aposto que era sobre trabalho da escola.

Ele era o verdadeiro nerd. Eu nem sei como conseguiu virar nosso amigo.

Suspirando, caminhei até meu armário, separando meu livro. O sinal tocou poucos segundos depois, e então veio a luta. As pessoas correram para suas salas, esbarrando umas nas outras.

Eu não ia fazer isso. Então esperei a multidão diminuir antes de sair andando. Primeiro, eu precisava passar na biblioteca para entregar minha carta de inscrição para ser assistente de biblioteca.

Do jeito que minha mãe estava indo, eu precisava começar de algum lugar. Porque, no fim das contas, só podia contar comigo mesma.

Revirando a bolsa à procura da carta, fui andando apressada. Então, de repente, bati em uma parede dura — muito dura.

Aquilo com certeza ia me deixar com uma concussão.

Que porra?

Minha bolsa caiu da minha mão, e meus livros se espalharam pelo chão de azulejo. Quando meus olhos pararam de girar, pousaram num sapato brilhante, caro e lustroso.

Espera... não era uma parede?

“Você tá bem? O que acontece com as pessoas hoje que não olham por onde andam? Puta que pariu, que irritante.” A voz dele era dura, grave e de algum modo... familiar.

Meu corpo congelou.

Não. Não. Não.

Meus olhos subiram lentamente até encontrar os dele, e um arrepio gelado percorreu minha espinha.

Ryder Connell.”

Merda.

Meu maldito valentão tinha voltado.

O último ano do ensino médio ia ser longo.

Próximo Capítulo