Desculpas e olhos lindos.
"Eu não acho que consigo trabalhar nessas condições, senhor. Já é loucura suficiente eu estar morando com um estuprador. Mas ele ainda dar em cima de mim, isso é demais."
"Pepper, eu sei como isso pode ser revoltante. Mas você precisa se acalmar e pensar com a cabeça fria. Você não quer pôr em risco o que a gente tem em andamento aqui."
Chloe balançou a cabeça, sem acreditar. Ele ficava repetindo que entendia, que sabia como aquilo podia ser revoltante. Mas não era ele que tava ralando pra caramba por causa daquela missão!
"Eu nem entendo por que eu tenho que morar com eles", ela continuou, os olhos atentos ao redor enquanto apertava o celular contra a orelha. "O que foi que aconteceu com a ideia de mandar um agente ninja, treinado, pra grampear a casa? Isso facilitaria tudo. Eu não teria que ralar dia e noite, esperando eles falarem alguma coisa sobre estupro ou garotas novas."
"Agente Pepper, você precisa se acalmar. Sim, a gente podia ter grampeado a casa, mas isso não ia adiantar nada. Por isso precisamos que você construa uma relação com eles. Um tipo de relação que coloque você dentro do círculo deles."
"Você basicamente quer que os meus hormônios assumam o controle."
"Como é que é?" perguntou o agente Conner do outro lado da linha.
"Se for rolar algum tipo de relação, vai ser, com certeza, romântica ou coisa parecida. Então, no fim das contas, esses benditos hormônios que o senhor não queria que atrapalhassem vão acabar entrando em cena."
"Qualquer coisa pra pegar eles, Chloe. Você tem que fazer qualquer coisa neste momento." Ela ouviu ele pigarrear. "Ontem mesmo, como nas situações relatadas antes, chegou um novo carregamento de garotas. Eles estão expandindo isso, Agente. A gente precisa agir rápido. Você precisa fazer tudo o que puder pra pegar eles em flagrante."
Soltando um suspiro profundo, Chloe finalmente encontrou a calma que o agente Conner estava mandando ela ter. "Quando eu entrei nessa agência, eu prometi fazer o meu melhor. Então, senhor, eu vou fazer." Ela ouviu uma batida na porta. "Preciso ir, senhor. Até mais."
"Boa sorte, Agente." Deixando o celular descartável em cima da pia, Chloe saiu do banheiro e foi em direção à porta.
Quando a batida veio de novo, Chloe abriu a porta. Ao ver quem era, ela se conteve pra não revirar os olhos.
"Você não vai me deixar entrar?"
Dando um passo pra trás e abrindo a porta um pouco mais, Chloe disse, com amargura proposital: "Por favor, entra, Lucille."
"Então, eu ouvi falar da sua situaçãozinha com o Amir." Lucille olhou por cima do ombro e deu um sorrisinho rápido.
Chloe cruzou os braços enquanto observava a mulher magra se aproximar da cama. "O que exatamente você quer?"
"Ah, qual é, não precisa falar com tanta amargura. Eu vim aqui te dar um conselho."
"Eu não tenho tempo pra piadinha, Lucille."
"Por favor, me chama de Lu. Escuta, o que o Amir fez ontem foi bem grosseiro. Óbvio. Mas eu acho que você devia ter cedido mesmo assim. Digo, olha bem pra aquela peça rara. Ele te quer. É bom você se tocar e agarrar a oportunidade."
"Você já terminou?"
"Mesmo ele não sendo o Nathaniel, o Amir não é tão ruim assim. Eu ouvi dizer que ele cuida muito bem das mulheres dele."
"Se você sabe disso, por que não tenta a sorte com o Amir? Ele ia… Não, ele ia adorar ter você na cama dele."
"Você sabe que é o Nathaniel que não sai da minha cabeça. Você sabe disso, sabe?"
Chloe revirou os olhos diante do sorriso idiota no rosto de Lucille. A mulher conseguia ser irritante sem nem fazer esforço. Sem querer se irritar à toa e estragar as coisas, Chloe caminhou até ela, que estava sentada toda cheia de pose na beirada da cama, e a segurou pelo cotovelo.
"Tá, hora de cair fora."
"Você tá brincando, né?"
Ela lançou um olhar direto pra Lucille. "Da última vez que eu conferi, a gente não era amiga de conversa. E nunca vai ser."
"Cruzes." Lucille jogou o cabelo loiro descolorido pra trás. "Você é tão amarga. Não é surpresa nenhuma que o Amir só queira te comer."
Chloe sentiu. A raiva. Ela tinha fincado raízes com o episódio do Amir e, naquele momento, a construção já estava em andamento. Quando fechou os olhos por alguns segundos pra tentar se controlar, Chloe conseguiu se imaginar esmagando o rosto de Lucille contra a parede mais próxima.
"Um dia, Chloe, um dia."
"Por favor, sai agora."
— O que está acontecendo aqui? — Nathaniel analisou a cena com os olhos semicerrados. — Lucille, você não devia estar limpando?
Parecendo de repente sóbria, ela se levantou.
— Eu só estava perguntando uma coisa pra Chloe.
— Bom, volte pro seu trabalho agora. — A autoridade dele causou um arrepio em Chloe.
Lucille saiu do quarto às pressas.
— Oi — ele disse, num tom suave.
— Oi. — A mente de Chloe voltou para a conversa que tinha tido com Gabriel — aquela conversa inesperada.
— Você tá bem?
Mordendo o canto da boca, Chloe assentiu. Com passos lentos, Nathaniel foi entrando no quarto dela.
— Senta. — Ela nem hesitou. Ele se sentou ao lado dela e começou:
— Você deve estar bem irritada com o Amir.
Você não faz ideia, ela respondeu em pensamento.
— Eu peço desculpas sinceramente em nome dele. Ele devia estar aqui agora pedindo desculpa, mas ainda não voltou de onde quer que tenha ido ontem. Então, considere que sou eu pedindo desculpa como se fosse o próprio Amir. Ele tá perdoado?
O rosto duro dele não vacilou nem por um segundo enquanto falava, reparou Chloe. E, tão perto, ela conseguiu notar novos detalhes. Como as íris azul‑claras, cheias de histórias não contadas por trás. Eram o tipo de olhos que a gente não esquece, porque guardam muitas emoções. E a pele dele, bem escura, provavelmente por causa do sol, não tinha nenhuma mancha. Quer dizer, se uma cicatriz pequena perto do nariz não conta como mancha, claro.
— Tá, ele está — disse ela. Seu olhar caiu para o chão. — Mais ou menos.
— Mais ou menos?
— Bom, já que o pedido de desculpas não veio diretamente dele, o certo é aceitar só pela metade.
— Você tem um ponto. — Os lábios dele se curvaram num sorriso rápido. — Vou fazer questão de que ele peça desculpa quando voltar.
— Ótimo.
— Não esquece de pedir se você precisar de qualquer coisa.
— Você sabe que eu sou empregada, não sua namorada, né? — Ela perguntou com um tom de diversão que não tinha sido planejado, e logo torceu para que ele não entendesse errado; não queria que ele achasse que ela estava a fim dele.
— Eu gosto de tratar bem as mulheres à minha volta — ele respondeu.
— Hum. — Chloe se virou de frente pra ele. — Pelo que eu andei ouvindo, você não tem muitas mulheres à sua volta. Então acho que eu tô com sorte.
Ou… eu podia deixar esses hormônios tomarem conta, Chloe deu meia‑volta nos próprios pensamentos. Talvez fingir interesse nesse cara acabasse funcionando a favor dela.
Claro que ela não podia se jogar de vez. Seria péssimo se acabasse se apaixonando.
— Eu definitivamente não tenho muitas mulheres por perto — ele disse. — E costumo manter por perto, por muito tempo, as que eu acabo gostando.
Chloe sempre teve certa facilidade pra flertar com homens.
— Bom saber. — E o sorriso dela também podia ser fatal (quando ela queria).
Soltando uma risada baixa, Nathaniel levou a mão ao pescoço e, passando os dedos pela pele, disse:
— O Gabriel e eu estávamos conversando. A gente decidiu realmente incluir vocês na família.
— Como assim? — Mesmo rindo, ele conseguia manter a expressão séria. Chloe percebeu que isso dava um toque de ironia à personalidade dele.
— Como nós três vamos trabalhar em casa nos próximos dois meses, a gente gostaria que vocês… fossem mais nossas amigas do que empregadas. Vocês podem tomar café da manhã ou jantar com a gente na mesa. Podemos aproveitar a piscina todos juntos. Essas coisas.
— E a gente também ganha sessões de leitura?
— Hã… hum… talvez? Acho que isso é mais a cara do Gabriel. Então, o que você acha? Parece bom pra você? Não se preocupa, o Amir não vai tentar fazer nenhuma besteira. Eu vou garantir isso.
A decisão deles tornava a missão de Chloe um pouco mais fácil; ela só precisava dar o sorriso mais sincero possível.
— Parece ótimo.
— Certo. — Ele bateu as mãos nos joelhos e se levantou. — Acho que a dona Lugi tá precisando de você lá embaixo. Então…
Parecia que ele queria acompanhá‑la.
— Hum, claro.
Chloe sorriu ao perceber que as coisas estavam tomando o rumo de que ela gostava. Tudo o que precisava fazer era jogar direito.
Quando olhou de volta para Nathaniel, que lhe lançou um sorriso discreto, Chloe não pôde deixar de reconhecer que aquilo ia ser um jogo e tanto.
Um jogo muito interessante.
