Mentiroso, mentiroso, bilionários

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Ameaças

No dia anterior, Chloe não tinha tirado tempo para estudar a casa enorme, já que estava mais preocupada em instalar escutas no quarto ao qual tinha conseguido acesso. Então, quando a mala parou atrás dela, ela se deteve para observar a grandiosidade do prédio.

Sem saber se chamava aquilo de mansão, reparou que as características de um sobrado comum e de um simples térreo se misturavam, dando à construção uma aparência única.

Respirando fundo, ela foi em direção à entrada, lembrando do conselho do Agente Conner.

Seja legal, ele tinha dito.

Ele com certeza sabia o quanto ela estava enojada por ter que viver sob o mesmo teto que um estuprador. Mas, se ele queria que ela fosse legal, ela seria. Qualquer coisa pela missão.

“Quão difícil isso pode ser, afinal?”, ela pensou, enquanto seus passos produziam um ritmo audível ao pisar nas lajotas marrons e estéticas.

“Ah, aí está ela”, Amir a recebeu, de braços abertos, de onde estava. Sem querer retribuir a animação, Chloe apertou ainda mais os lábios enquanto avançava para o espaço aberto.

“Boa tarde, Amir.”

“Olá pra você também, gatinha. Você chegou bem na hora. Quero te apresentar o seu parceiro.”

“Parceiro?” Ninguém tinha falado nada sobre ela ter ajuda. Não que ela fosse reclamar. Ela já estava se perguntando como, em nome de Deus, ia dar conta daquela casa enorme sozinha.

“Sim. O Nathaniel sugeriu contratar outra empregada. Sabe, pra não ficar carga de trabalho demais.”

“Mas isso não vai afetar o meu salário?”

“Não, querida.” Ele alcançou o braço dela e o encaixou no seu. “Não vai. Vem, vamos conhecer o seu parceiro.”

Forçando um pequeno sorriso em vez de uma careta, Chloe deixou que ele a guiasse para seja lá onde ele estava levando.

À medida que andavam, foi ficando evidente para Chloe que a casa não era nada simples. Havia um monte de ligações entre os cômodos e, se ela não tomasse cuidado, podia acabar na cozinha quando na verdade queria ir para a lavanderia.

Mas ela com certeza se acostumaria logo. Existe um motivo para ela ser uma aprendiz rápida.

Até ali, não havia nenhum quarto à vista, então ela supôs que o andar de baixo era onde ficava a “fábrica doméstica” e, claro, uma sala de estar e o que eles estranhamente chamavam de sala de conversa (continuava sendo uma sala de estar).

“Pra que tanta sala?”, ela pensou quando entraram em mais uma sala de estar.

A mulher alta e esguia, que estava sentada de costas para a dupla, se levantou, um enorme sorriso empolgado estampado no rosto.

“Chloe. Esta é a Lucille.”

Chloe ficou aliviada por se ver livre do braço dele. Rapidamente, estendeu a mão para a mulher, que continuava com o sorriso colado no rosto. No entanto, a mulher ignorou o aperto de mão e rebolou discretamente até mais perto de Amir, que ainda sorria como um adolescente bobo.

“Senhor, a gente vai ganhar uniforme?”

Chloe franziu o nariz, desgostosa com o tom sugestivo na voz de Lucille.

“Me chama de Amir, por favor. E sim, vocês vão usar uniforme. Aliás, eles já estão prontos, esperando nos respectivos quartos de vocês.”

“Quartos?”, murmurou Chloe.

“Sim. Cada uma de vocês ganha um quarto só seu. Os irmãos NAG gostam de garantir que as mulheres da vida deles fiquem bem confortáveis.”

Lucille soltou uma gargalhada alta. Uma gargalhada alta e irritante. “Falou tudo, Amir. Eu estou tão feliz de trabalhar aqui, pra vocês todos.”

“Pra vocês todos”, Chloe a imitou mentalmente, observando enquanto Lucille conseguia parecer insinuante sem parecer abertamente insinuante.

“Certo, meninas, vocês têm duas horas pra se ambientarem à casa. Depois disso, têm que começar a trabalhar sem discussão. Antes de irem pros quartos se ajeitar, a dona Lugi, a cozinheira, vai explicar as funções de vocês.”

“Tá bom.” As duas responderam em coro.

“Ótimo. Divirtam-se, vocês duas. Eu tenho que sair.”

Chloe xingou em silêncio por ter perdido a oportunidade de prender o mini‑microfone padrão da agência em Amir, o alvo principal que ela tinha que vigiar.

Lançando um sorriso para ele enquanto ele saía da sala, Chloe pensou: “Vou te pegar, Amir. Logo, logo eu vou te pegar.”

Chloe avaliou que talvez fosse bem fácil fazer isso. Ela não tinha deixado passar a sede que ele demonstrou quando ela veio no dia anterior. Com certeza, ele não seria um alvo difícil de quebrar.

Isso significava menos trabalho para ela e mais concentração nos outros dois, que eram mais misteriosos.

Um muxoxo ao seu lado arrancou Chloe de seus pensamentos.

Por causa do calor nos olhos de Lucille, Chloe percebeu uma barreira cheia de veneno, mas aquilo não ia ser um problema tão grande assim.

Ela era especialista em colocar gente idiota no devido lugar.

~~~

Chloe finalmente chegou ao quarto, que, para sua surpresa, era bem do jeito que ela gostava — principalmente levando em conta que não são muitas as coisas que chamam a atenção de Chloe Pepper.

Ela gostou da vibe fresca que o azul-claro das paredes passava. E simplesmente amou o fato de o quarto ter uma varanda, de onde podia ver, em toda a sua beleza, a cidade bagunçada à sua frente.

Tinha também o detalhe de que ela poderia simplesmente sair da cama e decidir observar qualquer pessoa que resolvesse dar um mergulho na piscina atrás da casa. Com sorte, esse tipo de situação lhe daria acesso a informações de primeira.

Voltando para dentro do quarto, os chinelos afundando no carpete, Chloe observou tudo de novo. Depois de um tempo, tirou os sapatos e deixou as pernas sentirem a maciez do piso sob elas. Seus olhos então saltaram para o uniforme sobre a cama muito bem arrumada, e ela suspirou.

Essa nova missão era a mais desafiadora até então. Porque ela ia ter que lidar com o estresse de limpar quartos, ajudar no jantar e, ao mesmo tempo, espionar os irmãos NAG para descobrir seus crimes.

Segundos depois, ela deu de ombros, afastando o nervosismo que tentava se aproximar de mansinho. Em seguida tirou a roupa e começou a vestir o uniforme.

O tecido preto e branco estava na metade do caminho pela cabeça quando ela ouviu uma voz masculina entrando e dizendo:

— Tem certeza de que ela… Ah. Desculpa.

Curiosa para saber a quem tinha acabado de expor metade do corpo, Chloe puxou a roupa para baixo, ajustando-a no corpo.

— Nathaniel.

— Eu… — Ele pigarreou, parecendo recuperar a compostura. — Me desculpa. Eu devia ter batido.

Tinha algo nele que divertia Chloe. Não eram os traços (embora o cabelo bem arrumado dele fosse realmente ótimo). Também não era o tom de voz.

— Você está bem?

— Ahm… — Havia um certo ar de autoridade em volta dele. Chloe achou aquilo empolgante por algum motivo. E naquele momento, do jeito que o encarava, provavelmente estava parecendo uma maluca. Então tossiu e disse:

— Tudo bem. Eu costumo ser bem quieta.

Chloe também não queria que ele tivesse a ideia idiota de que ela estava sentindo alguma coisa por ele ou algo assim. Precisava, com certeza, trabalhar esse negócio de ficar encarando.

— Que bom ver que você está se ajeitando. Não hesite em me procurar se tiver algum problema.

— Ahm… tá. — Ela forçou um sorriso, começando a sentir uma coceira na pele.

Nathaniel insistiu:

— Já desfez as malas?

— Já, sim. Eu preciso ir…

— Ei, novata, você tem…? — A voz áspera de Lucille mudou de rumo na mesma hora em que viu que havia outra pessoa no quarto. — Oi, Nathaniel.

— Lucille. — Do jeito que Nathaniel se dirigiu a ela, Chloe teve que suspeitar que os dois já se conheciam. — Se cuida, Chloe.

Lucille manteve um sorriso largo enquanto Nathaniel saía do quarto. Assim que ele sumiu de vista, o sorriso se transformou numa careta completa.

“Hora do drama”, Chloe pensou.

Lucille perguntou:

— Ele é bonito, né?

Chloe deu de ombros:

— Hm.

— Dá pra ver que você quer ele. Tá escrito na sua cara. — A risadinha dela era puro veneno. — Chloe, se você sabe o que é bom pra você, fica longe dele. Eu vi ele primeiro.

— Tá bom, Lucille. — Chloe não conseguiu achar graça naquelas palavras infantis.

— Ótimo. Então, você tem gloss? Não acho o meu.

— Também não sei onde está o meu. — Chloe lhe lançou um sorriso.

— Tanto faz. Só fica longe do Nathaniel. Se não ficar, eu vou transformar a sua estadia aqui num verdadeiro inferno.

Chloe mal reagiu enquanto observava Lucille girar nos saltos e sair. Mas, ao contrário da calma que demonstrava por fora, os pensamentos na cabeça de Chloe não eram nada agradáveis.

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