Mentiroso, mentiroso, bilionários

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Dibs

A atmosfera estava diferente naquele dia em particular, não foi difícil pra Nathaniel perceber. Ele era o calmo, o calculista, afinal de contas. Fazia tudo com precisão e dava um jeito de fazer o ambiente girar no ritmo dele, na medida do possível.

Então, sim. Tinha alguma coisa diferente.

— Já acabou isso aqui? — perguntou Amir, impaciente, passando a mão pela cabeça.

— A gente não vai falar sobre o fato de que não tem mais empregada nessa casa? — retrucou Gabriel, o rosto moldado num sorriso de deboche dirigido a Amir.

— O que aconteceu com a que a gente tinha?

— Bom… — Gabriel se recostou direitinho enquanto respondia a Nathaniel —, por que você não pergunta pro senhor Tarado aqui?

Ao ouvir a palavra com “t”, o interesse de Nathaniel foi definitivamente despertado, a ponto de ele se virar no banco para ficar de frente pro culpado em questão.

— O que você fez, Amir?

— Eu não fiz nada nojento, juro. — Ele jurou, a mão roçando os lábios depois de bater no peito. — Só demiti ela, só isso.

— E você demitiu ela porque…?

— Ah…

— Tô ouvindo.

— Mano, não fica me deixando todo pressionado de repente assim, não.

Gabriel se intrometeu, com um tom irritado:

— Então só conta logo por que você demitiu a funcionária! Cara, minha biblioteca não é espanada faz três dias e a faxina só vem semana que vem.

Amir lançou um olhar de lado pra Gabriel, que respondeu com mais um sorriso de deboche.

— Ninguém liga pra sua biblioteca idiota, tá? Nate, como eu tava tentando dizer antes de algum babaca interromper, eu demiti ela porque peguei ela fazendo outra coisa quando era pra ela tá trabalhando.

— Ele acabou de…?

Nathaniel fez um gesto pra Gabriel calar a boca, e ele calou — já estava acostumado, afinal. Ninguém nunca ligava pro que ele tinha pra dizer. Então ele fez o que sabia fazer de melhor: recostou e começou a viajar.

— Que “outra coisa” era essa? — Nathaniel perguntou.

— Então, é… Eu peguei ela se masturbando quando era pra ela tá limpando meu quarto.

As sobrancelhas dele se arquearam sem querer, e ele não conseguiu segurar uma risada. Nathaniel desceu do banquinho, foi até o centro da sala, as Havaianas estalando forte no piso frio, e foi sentar em um dos sofás que ornavam o cômodo quase vazio.

— Então, você descobriu que seu quarto não tinha sido limpo. Aí você foi atrás da empregada e, quando achou ela, ela tava se masturbando.

— Quem falou que eu fui atrás de alguém? Eu peguei ela na câmera de segurança. Eu tenho cara de quem vai se dar ao trabalho só porque quer o quarto limpo?

— Gabe, você tá ouvindo esse cara?

— Cara, eu parei de ouvir ele desde que ele roubou minha companhia de baile da formatura — respondeu Gabriel, depois de alguns segundos, de olhos fechados. Tinha mergulhado num mundo de imaginação que o estava agradando.

— Você precisa superar isso, mano. Enfim… — Amir se levantou e encarou os irmãos —, eu nem teria demitido ela se ela não tivesse demorado tanto pra se satisfazer.

— Você ficou vendo ela enquanto ela fazia isso?

Ele ergueu as mãos no ar, num gesto displicente, deu de ombros:

— Eu meio que tava esperando que ela parasse em algum momento.

— Você ficou vendo ela se masturbar — repetiu Nathaniel, sem acreditar.

— Também não é como se fosse uma coisa inédita.

— Você tem noção do quão irritante você tá soando agora?

— Pera, vem cá — Amir fez sinal para o homem que o encarava como se ele fosse um estranho e disse: — Por que você age como se nunca sentisse atração por mulher nenhuma?

Até Gabriel franziu a testa com a digressão bizarra. Os olhos dele se abriram na hora; Gabriel lançou um olhar fulminante pra Amir e perguntou:

— O que isso tem a ver com o assunto que vocês tavam discutindo?

— Eu não falei com você, Gabe. Então só senta aí e fica bonitinho. Nate — Amir abriu um sorriso forçado, ignorando o dedo do meio que Gabriel tinha acabado de mostrar pra ele —, responde. Me diz por quê.

— Eu sinceramente não entendo a sua pergunta.

Balançando levemente a cabeça, Amir colocou as mãos na cintura:

— Eu quase nunca te vejo com mulher. Você é…?

— Não, não sou.

— Eu só tô preocupado com o irmão, só isso. Tipo, olha pra você, as mulheres caem em cima de você mais do que em cima de mim, e o fato de você nem olhar pra elas me ofende demais.

— A gente não é igual, Amir. Deixa eu aqui com a minha esquisitice. — Nathaniel pontuou a frase com o seu olhar característico de “nem tenta insistir nisso”, que também servia como “por que diabos meu cabelo tá tão ruim assim?”.

— Achei que a gente tava tentando falar sobre contratar uma nova ajuda — Gabriel tinha voltado da viagem até as profundezas da própria imaginação.

Nathaniel assentiu.

— Sim. Amir, você devia falar com o Rosco.

— Ah, isso eu já fiz. A nova ajuda deve chegar hoje ou amanhã...

— Certo.

E pelos próximos minutos, o silêncio permaneceu no cômodo, permitindo que cada um pensasse com clareza.

Enquanto Nathaniel se perguntava se Amir algum dia ia parar de ficar de romance com um monte de garotas todo santo dia, tudo o que passava pela cabeça de Amir era a festa que ia rolar no seu lounge secreto em um dos clubes deles. Gabriel, por outro lado, só queria dormir, mas não conseguia evitar a esperança de que a nova ajuda cuidasse da biblioteca dele.

— De quem foi a ideia de ter uma casa enorme mesmo?

— Sua! — Nathaniel e Gabriel berraram diante da pergunta ridícula de Amir.

— Ei! Calma lá. Por que vocês não me impediram de ter essa ideia? Olha a nossa situação agora. A gente tá morando com pó faz dias.

— Esse cara só pode estar de sacanagem comigo — Gabriel disse para Nathaniel, que deu de ombros. Gabriel se virou para Amir. — Mano, você obrigou a gente a concordar com você sobre em qual casa morar.

— Bom... — Parece que o gato tinha comido a língua de Amir; ele passou de boca aberta a tímido em segundos. — A gente sempre pode se mudar pra menor.

— Agora você tá só sendo bobo, você sabe que esse lugar serve a gente de muitas maneiras. A gente não pode ir embora.

Amir, pela primeira vez naquele dia, concordou com Gabriel.

— Acho que vamos ficar presos aqui por um tempo — Nathaniel concluiu, e todos murmuraram concordando.

— Hã-ham — Chloe, que tinha assistido a todo aquele acordo, pigarreou, chamando a atenção dos homens para ela. Ela tinha se dado a liberdade de se vestir da pior forma possível: estava de camiseta e calça de moletom. Quis calçar seus Crocs favoritos, mas decidiu parecer um tiquinho mais apresentável com o All Star que ela menos gostava. Nem maquiagem ela tinha passado.

Mas, do jeito que os olhos deles se acenderam, qualquer um pensaria que ela tinha se arrumado toda, tipo Cinderela indo pro baile.

— Ora, mas olá — Amir foi andando na direção dela, rebolando devagar. — Em que posso te ajudar?

Chloe queria muito que a cara de desprezo que ela imaginava na cabeça estivesse realmente no rosto naquele momento. Amir Cook precisava saber que ela odiava ele. Mas era cedo demais pra isso.

Sorrindo de leve, Chloe fez uma mesura e respondeu:

— Olá, senhor, meu nome é Chloe Ashley Steve. Fui enviada pelo Rosco pra ser a nova empregada da casa. — Ela torcia pra que o sorriso estivesse impecável.

— Bom, você está no lugar certo. Mas antes de continuar, a gente tem duas regras pra você. — As sobrancelhas de Chloe se arquearam. — Ah, sim. Número um: não chama a gente de “senhor”. A gente não é tão velho assim. Número dois: você nunca pode dizer não para...

— Para...?

— ...para qualquer coisa que a gente pedir pra você fazer. A gente não gosta disso. — Amir parou de ficar dando voltinhas em volta dela e estreitou os olhos. — Eu não gosto disso.

— E se eu não conseguir fazer o que me pedirem?

— Hmm, aí acho que vamos ter que dar um jeito diferente nas coisas.

Chloe levou alguns segundos fingindo que estava pensando.

— Então eu tô contratada?

Um sorriso grande, claramente vitorioso, se espalhou no rosto de Amir.

— Sim. Sim, tá sim.

— Ótimo. Então acho que eu começo amanhã. — Chloe direcionou a frase para os outros dois, que não se mexeram, muito menos disseram qualquer coisa em resposta.

— Você pode começar semana que vem, se quiser — Amir sugeriu, todo animado.

Ela mostrou outro sorriso falso para Amir:

— Até amanhã, senhor. — E saiu da sala, fazendo questão de roçar a mão na quina da porta envernizada.

— Galera — Amir se virou teatralmente para os dois homens. — Eu vou pegar aquela bunda, com certeza. Caramba! Que mulher gata! E ela vai morar com a gente? Mano, eu vou pegar aquela bunda, total.

— Não, não vai — veio a resposta rouca de Nathaniel, cortando a empolgação de Amir.

— Ah, qual é, cara. Você ainda tá confuso com a sua sexualidade.

Nathaniel se remexeu no assento.

— Se algum dia eu estive confuso, agora com certeza não tô mais. — Até o rosto de Gabriel se iluminou em surpresa com a resposta. Mas Nathaniel ignorou tudo aquilo. Quando a imagem daquela mulher confiante passou pela mente dele, ele sorriu de lado e disse:

— Eu cheguei primeiro.

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