Capítulo 3
POV do Lucas
Sentei na beira da cama da Lily me sentindo uma fraude, com os olhos fixos no corpo inconsciente dela.
Meu coração estava pesado com o peso do que eu tinha feito. Estendi a mão com cuidado, prendendo uma mecha solta do cabelo dela atrás da orelha.
— Me desculpa tanto, Lily — sussurrei, tentando segurar as emoções. — Você merece muito mais do que isso… do que eu.
Como é que tinha chegado a esse ponto?
Enquanto eu a observava, as lembranças de nós dois invadiram minha mente. No primeiro dia em que conheci a Lily, ela estava se escondendo de um grupo de garotas que, obviamente, estavam implicando com ela. Naquele dia, ela parecia tão frágil quando correu até mim e me pediu para escondê-la.
Ela era tão diferente dos outros da matilha. Enquanto os outros zombavam de mim por eu ser adotado, a Lily enxergou além disso e virou minha amiga.
Foi a primeira vez que alguém precisou de mim ou pediu minha ajuda. Naquele único momento, eu me senti tão poderoso quanto a Deusa da Lua. Nosso primeiro encontro foi numa lanchonete simples do bairro, depois de semanas juntando dinheiro… Eu queria levá-la a algum lugar especial, mas ela sabia que a gente não tinha grana pros restaurantes caros da cidade, então mentiu pra mim, dizendo que estava com vontade de comer comida caseira, feita ali mesmo.
Mas até hoje aquele foi o melhor dia da minha vida. Depois disso, passávamos horas e horas estudando, com a Lily explicando pacientemente assuntos difíceis até finalmente fazerem sentido pra mim. O jeito como ela enfrentou um grupo de valentões que estava mexendo com um menino mais novo que a gente viu numa das noites em que saímos pra caminhar… a risada dela, clara e ecoando pelo corredor da escola… ou como os olhos dela brilhavam de felicidade quando falava do livro favorito.
Num mundo cheio de engano e mentira, a Lily era a única coisa verdadeira.
— Você sempre foi tão de verdade — murmurei. — Tão inteligente e corajosa. Eu sempre admirei isso em você… e ainda admiro. Teve vezes em que eu me preocupei, achando que você era boa demais pra mim — acrescentei, com a voz falhando. — E no fim… você é mesmo.
Soltei um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo.
— É que… eu queria que as coisas pudessem ser diferentes. Eu nunca te contei isso, mas eu sei o que é sofrer bullying. Eu sei como é nunca pertencer a lugar nenhum. Essa matilha foi o primeiro lugar que pareceu um lar.
Eu fui adotado pelo Gamma dessa matilha quando tinha dez anos. Quando eu era criança, eu tive que aguentar provocações, apanhar e viver com medo o tempo todo. Eu era sempre o alvo mais fácil, porque eu era pequeno, e não ajudava o fato de eu não crescer tão rápido quanto as outras crianças.
Então virei alvo de perseguição dos renegados e de lobos mais velhos, que transformaram minha vida num inferno.
O mundo era cruel… e eu aprendi que precisava agarrar as oportunidades, principalmente as mais óbvias.
Eu amo a Lily, mas ela era como eu. Ela não era ninguém na matilha — sem lobo, sem poder. Mas a Vanessa, a irmã dela… a Vanessa era tudo o que eu queria ter. Forte, linda, com um lobo igualmente poderoso. Ser o par dela garantiria minha posição. Me colocaria num patamar que eu nunca sonhei alcançar. Chega de bullying, chega de olhares tortos, chega de cochichos sobre o “vira-lata adotado”.
— Eu não posso passar por isso de novo — eu disse mais pra mim do que pra Lily, que continuava inconsciente. — Eu não vou ser fraco de novo… eu não posso me dar ao luxo de ser fraco de novo. E a Vanessa… ela pode me dar a força de que eu preciso. Se eu formar par com ela, isso quer dizer que eu vou me tornar o próximo Alfa e ninguém vai ousar mexer comigo… nem com você… nunca mais… nem com ninguém. Eu vou garantir isso. Então eu espero que você consiga entender por que eu tive que fazer aquilo…
Minha voz foi sumindo, e lágrimas brotaram no canto dos meus olhos. Eu te amo, Lily… tanto que dói ver você deitada aí, sem sorrir, sem responder com aquela empolgação — e saber que a culpa era minha apertou ainda mais o meu coração.
Por mais que eu tentasse me encaixar aqui, eu sempre era mencionado como o filho adotado. Era como um estigma, e o único jeito de me livrar disso era ficar ao lado da Vanessa. Ela não era lá uma grande mulher… mas tinha o poder de que eu precisava.
Segurei as mãos dela, depositando beijinhos rápidos no dorso… Eu queria poder contar tudo o que eu tinha em mente… todos os meus planos, mas eu não podia correr esse risco. Eu sabia que esse dia estava chegando… o dia em que eu finalmente teria de deixá-la, mas por que parecia tão doloroso?
De repente, ela gemeu, e eu me levantei num pulo, assustado. Fiquei olhando enquanto ela se remexia, murmurando palavras que soavam estranhas para mim, mas sem acordar. Eu já estava começando a me preocupar… se ela tinha desmaiado, como a Vanessa disse, ela já deveria ter acordado a essa altura.
Eu me levantei, observando ela se mexer de novo sem abrir os olhos. Decidi ir chamar a Vanessa; ela era uma das paramédicas da alcateia, então tinha conhecimento suficiente para manter alguém vivo.
Eu fui até o quarto dela, mas não a vi. Descendo a escada de dois em dois degraus, cheguei ao térreo e estava prestes a chamar o nome dela quando vozes chegaram até mim. Parei e agucei os ouvidos, reconhecendo a voz da Vanessa. Seguindo a direção de onde vinha a voz, cheguei a uma porta no canto do corredor. A porta estava entreaberta, então foi fácil ouvir as pessoas conversando.
— Você não precisa se preocupar com ela se transformando, pai — a voz da Vanessa veio firme, transbordando ódio. — A dose deve ser suficiente pra suprimir até o lobo mais forte. Além disso, aquela vadiazinha não mostrou um único sinal de transformação.
— É! Eu concordo — respondeu o Alfa Stone. — Ainda bem que a gente vem envenenando ela há anos e ela não percebeu. Sempre tão desligada… aquela ali — o Alfa deu uma risadinha. — Não dá pra arriscar o lobo dela despertar agora, não quando estamos tão perto. Você acha que ela desmaiou por causa da rejeição? Você disse que ela segurou o peito e parecia com dor? Talvez ela tenha sentido alguma coisa mexendo dentro dela. Você conhece a linhagem dela… — o Alfa hesitou por um segundo… — Eu tenho medo de que a nossa poção não seja forte o suficiente pra isso. E, além do mais, ela está fazendo 18… É um número importante.
Meu sangue gelou. Envenenando? Suprimindo o lobo da Lily? Minha mente girou enquanto eu tentava entender o que estava ouvindo.
— Assim que eu acasalar com o Lucas e ele me marcar, isso não vai mais importar — continuou Vanessa, a voz carregada de confiança. — Com a força dele e a minha linhagem, a gente vai ser imparável, e ela não vai ser nada além de uma lembrança esquecida.
— E você tem certeza de que o garoto vai fazer o que a gente quer? — perguntou o Alfa Stone.
— Ele está na palma da minha mão, pai. Ele me ama tanto que nem hesitou quando eu disse que a gente só podia ficar junto se ele rejeitasse a Lily, e foi o que ele fez ontem. Não se preocupa, pai… você pode confiar no Lucas.
— Ótimo! — o Alfa Stone pareceu satisfeito. — Depois do seu casamento com o garoto, a gente passa pra fase 2 do plano.
Eu cambaleei para trás, com o coração disparado, e subi as escadas na ponta dos pés, tomando cuidado para não fazer barulho. Eu sempre soube que a Vanessa era cruel, mas isso? Isso estava além de qualquer coisa que eu pudesse imaginar.
Por que eles estavam tão determinados a machucar a Lily? O que era a fase 2 do plano deles? Eu não conseguia acreditar que eu tinha colocado a Lily numa posição tão vulnerável. Agora, fosse lá o que eles fossem fazer com ela, eu seria cúmplice.
— Eu preciso salvá-la! — murmurei, com urgência, para mim mesmo, subindo a escada mais rápido.
Eu não podia desfazer a dor que eu tinha causado, mas eu podia tentar consertar. Eu precisava avisar a Lily. Contar a verdade sobre o que a família dela vinha fazendo com ela e o que eles planejavam fazer.
Com as pernas trêmulas, segui até chegar ao quarto da Lily. Quando empurrei a porta para abrir, uma sensação quente percorreu meu corpo enquanto eu olhava para ela… ela estava acordada!
