Capítulo 5 HARPER
Na manhã de terça-feira, a ardência da sessão de ontem ainda estava viva. Eu tinha chorado até ficar rouca depois da ligação da mamãe, esquecendo na mesma hora todas as palavras de incentivo dela, e depois passei metade da noite encarando o teto, repetindo as palavras de Tyler na minha cabeça. “Eu não preciso de você...” “...terapeuta sem qualificação, de menor...” “...não comece a achar que você é algum tipo de salvadora aqui.”
Pois bem, recado entendido. Alto e claro.
Foi um esforço me obrigar a sair da cama e me arrumar para a escola. Eu disse a mim mesma que hoje seria diferente, que as aulas e a Megan seriam uma distração bem-vinda. Algo que não me lembrasse do Tyler Mercer me encarando como se eu tivesse arruinado a vida dele. Mas, quando atravessei os corredores, com a mochila puxando meu ombro, os sussurros começaram quase imediatamente.
“É ela que é a terapeuta?”
“É. Eu vi ela indo com ele ontem.”
“Ah, não. Ele não deixa ninguém chegar perto dele, muito menos entrar no carro dele.”
Mantive o queixo erguido, forçando meus passos a continuarem firmes, mas o calor subiu pela minha nuca. O corpo estudantil inteiro bem que podia estar apontando um holofote para mim.
“Harper!”
Uma voz conhecida cortou o murmúrio. Cassie surgiu ao meu lado, enlaçando o braço no meu como se nos conhecêssemos há uma vida, quando a gente mal era mais do que conhecidas. Cassie era barulhenta de um jeito que não irritava, a extrovertida da minha turma — a confiança escorrendo dela até com os tênis gastos que ela se recusava a trocar, embora pudesse comprar um par novo.
— Você oficialmente chegou lá — ela disse, sorrindo.
— Todo mundo está falando de você.
— Que sorte a minha — murmurei.
Cassie deu um sorrisinho. — Ah, qual é. Não é todo dia que alguém chega perto do Tyler Mercer, ainda mais agora que ele virou o Sr. Mal-humorado depois do incidente no hóquei. O cara é praticamente uma lenda por aqui.
— Perto não é a palavra que eu usaria — eu disse, abrindo meu armário.
Cassie se encostou no armário ao lado do meu, me observando trocar os livros. — Então, desembucha. Como ele é fora da pista? Sombrio? Instável? Secretamente engraçado? Ou só irritantemente perfeito?
— Você chamou ele de Sr. Mal-humorado. O que você acha?
Ela abanou a mão diante de si. — Isso é só um teatrinho pra não despertar nossa pena. Tenho certeza de que ele é bem mais doce em casa, né?
Fechei meu armário com um pouco mais de força do que o necessário. — Tente frio. Grosso. Impossível.
As sobrancelhas dela se ergueram. — Uau. Tão ruim assim?
— Você não faz ideia da metade.
Antes que ela perguntasse mais, uma onda de vozes puxou nossa atenção para a cafeteria. O time de hóquei tinha chegado.
Era como ver a realeza entrando. Garotos altos, de ombros largos, com jaquetas universitárias, todos se movendo em um grupo frouxo. No centro estava Tyler, com o passo firme, a expressão indecifrável. Ele não olhava para ninguém — nem para as garotas que se inclinavam para cochichar quando ele passava, nem para os professores fingindo não perceber o barulho, nem para mim. Principalmente não para mim.
Mas eu vi a leve rigidez no ombro dele, aquele que ele disse que piorava à noite.
Cassie acompanhou meu olhar. — E lá está o rei em pessoa. Tem certeza de que você não está a fim dele? Porque metade da escola está.
— Absoluta — respondi, seca, embora meu peito me traísse com um aperto firme.
Pegamos o almoço e, para minha surpresa, ela se sentou comigo mais para o fundo, de onde eu tinha uma visão perfeita da mesa do Tyler. Os colegas de time ocupavam os lugares ao redor dele — Peter, o segundo centro boca-aberta e melhor amigo do Tyler; Jax, o goleiro de risada afiada; Billy, o defensor do lado esquerdo; Mark, o irmão mais velho da Megan e ponta direita do Tyler; e mais alguns que eu ainda não conhecia. Eles estavam barulhentos, jogando batatas fritas uns nos outros e fazendo piada demais.
Tyler não acompanhava como antes, como fazia quando ainda era ele mesmo. Ficava recostado, quieto, só ouvindo pela metade, como se estivesse ali por obrigação, não por escolha.
Cassie me cutucou com o garfo. “Ele tá olhando pra cá.”
Meu estômago despencou. Quando ergui os olhos, ele estava me encarando, com um olhar cortante e sem piscar, como se estivesse me medindo numa balança invisível. O canto da boca dele deu uma contraída — não era um sorriso —, antes de ele desviar o olhar de novo, de volta para os colegas.
Espetei a salada com o garfo. “Ele é insuportável.”
“Uhum”, Cassie disse, com um sorrisinho de canto. “Continua repetindo isso pra você.”
O resto do horário de almoço se arrastou. Eu tentei prestar atenção nas histórias da Cassie sobre a aula de química e a quedinha nada sutil dela pelo Jax, mas minha atenção vivia escapando para o Tyler. Cada movimento que ele fazia parecia calculado — esticando o braço, flexionando a mão —, como se quisesse que eu notasse o quanto ele era capaz por conta própria.
Quando o sinal tocou, eu me apressei para juntar minhas coisas. Cassie e eu nos separamos no corredor — ela foi para artes, eu para história. Achei que estava livre… até virar uma esquina e quase bater numa parede de músculos.
Tyler.
Ele não se mexeu, não abriu passagem. Só ficou ali, bloqueando meu caminho, me olhando de cima com aqueles olhos firmes, como se não soubesse o que fazer a seguir.
“Cuidado”, ele disse, numa calma estudada. “Não ia querer que você tropeçasse em você mesma.”
Apertei os livros contra o peito. “Não tô com paciência.”
“Não achei que estivesse.” A voz dele baixou, só para eu ouvir. “Mas você devia saber — agora tem gente te olhando. Se você ficar andando comigo, o pessoal vai começar a falar.”
“Eu não ando com você”, rebati. “Eu trabalho com você.”
O olhar dele percorreu meu rosto, indecifrável. “Continua repetindo isso pra você.”
Antes que eu pudesse responder, uma voz chamou atrás dele.
“Mercer!”
Billy veio trotando, jogando um disco de hóquei para o alto. “O técnico quer a gente na quadra. Você vem assistir?”
Algo parecido com dor passou pelos olhos do Tyler, antes de o olhar dele voltar para mim e ficar ali por um segundo tempo demais; então ele deu passagem. “Vou. Já tô indo.”
Passei por ele sem dizer mais nada, mas meu pulso não acalmava. O aviso dele ecoava na minha cabeça, misturado aos olhares que eu já tinha sentido a manhã inteira.
Quando finalmente escorreguei para o meu lugar na aula de história, percebi que minhas mãos ainda tremiam.
E foi aí que alguém me passou um bilhete. Peguei com hesitação e li a letra cursiva:
Fique longe do Tyler Mercer, se você sabe o que é melhor pra você.
Minha respiração travou. Levantei os olhos para a garota que tinha me passado o bilhete, e ela apontou para trás. Eu me virei e vi Racquel e o grupinho dela — as garotas mais populares da escola — me fulminando com o olhar.
Ela mexeu os dedos na minha direção com um sorriso debochado, depois o rosto endureceu e ela fez o gesto de “tô de olho em você”.
“Ótimo. Uma inimiga nova. Adeus, ingressos pro Lumina.”
