Capítulo 4 HARPER
O caminho até a casa dele foi dolorosamente silencioso. Tyler mantinha uma das mãos no volante, os olhos fixos à frente, como se eu nem estivesse sentada ao lado dele.
O silêncio era tão denso que me peguei contando os postes de luz só para ter em que me concentrar. Ele não se deu ao trabalho de colocar música, não perguntou se eu estava confortável, não disse uma única palavra até pararmos diante dos portões da casa dele.
A mansão dos Mercer era enorme. Portões largos se abriram quando nos aproximamos, e a entrada fazia uma curva passando por sebes bem aparadas e luminárias que acendiam automaticamente. O carro parou ronronando em frente a degraus de pedra que pareciam pertencer a um grande hotel. Eu me atrapalhei com a bolsa, mas Tyler já tinha saído, subindo os degraus a passos largos como se não aguentasse esperar para entrar.
— Você é lenta — resmungou, sem olhar para trás.
Engoli a resposta e o segui escada acima.
Lá dentro, o ar tinha um leve cheiro de baunilha e polidor, aquele tipo de aroma que nenhuma vela conseguiria imitar.
A sala de estar se estendia ampla, com teto alto e janelas de vidro impecáveis. Retratos de família alinhavam a parede — Tyler com um taco de hóquei na mão, segurando troféus, em idades diferentes, sempre no centro.
Ele jogou as chaves sobre um balcão de mármore e chutou os sapatos para fora dos pés.
— Não toque em nada — disse, seco, como se eu tivesse vindo roubar a prataria.
Coloquei minha bolsa no chão com cuidado, ao meu lado, resistindo à fisgada das palavras dele. Mamãe tinha me dito para ter paciência.
“Ele está numa fase difícil agora”, ela dissera hoje de manhã antes de sair. “Não leve para o lado pessoal se ele descontar em você. Só foque em ajudar.”
Mas ali, em pé no palácio que ele chamava de casa, com ele me dando um gelo como se eu fosse uma visita indesejada, a paciência já parecia impossível.
Ele afundou no sofá, recostou-se e esfregou a têmpora, como se só estar acordado exigisse esforço demais. Seu rosto continuava indecifrável, tirando a tensão no maxilar.
— Você era pra ficar cronometrando o meu tempo ou alguma coisa? — perguntou, de repente.
— Eu devo ver o que você consegue fazer sem forçar demais — respondi, num tom neutro.
Antes que eu dissesse qualquer outra coisa, uma voz suave veio do corredor.
— Tyler? Você chegou cedo.
Virei e vi uma mulher surgir. Ela parecia o tipo de mãe que aparece em revista — cabelo perfeito, suéter arrumado, um sorriso gentil que chegava aos olhos. Rose Mercer.
O olhar dela passou por mim e amoleceu.
— E você deve ser Harper. Obrigada por estar aqui, querida. Sua mãe falou muito bem de você.
Consegui esboçar um sorrisinho.
— Não é nada, senhora Mercer. Fico feliz em ajudar.
Os lábios de Rose se curvaram com calor antes de ela olhar para o filho.
— Não dificulte as coisas para ela.
— Tá, tá — ele resmungou, encarando o teto.
Rose suspirou, mas não o repreendeu pelo tom.
— Vou estar na cozinha se precisarem de mim.
Com um último sorriso gentil na minha direção, ela desapareceu, deixando a gente de novo naquele silêncio pesado.
Tyler enfim se sentou direito, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Então qual é o plano, terapeuta? — A palavra pingava sarcasmo. — Vai me fazer alongar? Falar dos meus sentimentos? Talvez segurar a minha mão e dizer que vai ficar tudo bem?
Eu cerrei o maxilar, mas me obriguei a manter a voz firme.
— Vamos começar pelo simples. Exercícios de mobilidade. Preciso ver o quanto você consegue se mover sem sobrecarregar.
Ele franziu a testa.
— Parece um trabalho de babá. Imagino que você seja qualificada.
Ignorei a provocação e enfiei a mão na bolsa em busca das anotações que a mamãe tinha deixado para mim. Minhas mãos tremiam um pouco enquanto eu as desdobrava, mas mantive os olhos baixos. Ele não precisava me ver vacilar.
“Fique de pé”, eu disse baixinho.
Por um momento, achei que ele fosse se recusar. Então ele se levantou do sofá, ficando acima de mim como uma torre. Mesmo machucado, parecia capaz de esmagar qualquer um que ousasse desafiá-lo. Ficou parado com os braços cruzados — ou melhor, o braço bom apoiado sobre o lesionado —, me desafiando a dizer o que ele deveria fazer em seguida.
“Levante o braço devagar”, eu disse.
Ele me lançou um olhar. “Qual deles?”
“O machucado.”
“Ideia brilhante”, murmurou, mas mesmo assim obedeceu, conseguindo erguê-lo só até a metade. O rosto se contraiu com o esforço, embora ele tentasse esconder isso atrás de um sorriso de lábios cerrados. “Feliz agora?”
“Agora abaixe de novo.”
Ele obedeceu, com cuidado, soltando uma respiração baixa. “Dói mais à noite.”
“Não é incomum”, eu disse. “Mas você vai precisar de consistência. Um pouco todos os dias.”
O olhar dele se aguçou. “Você acha que eu não sei disso?”
“Eu acho que as pessoas nem sempre fazem o que sabem”, respondi, com firmeza.
Ele me estudou por um instante, mas eu não desviei o olhar.
“Isso não serve para nada.” Ele soltou um suspiro. “Eu deveria estar no gelo, não perdendo tempo com uma terapeuta desqualificada e menor de idade na minha sala de estar.”
“Você não foi liberado para voltar ao gelo”, eu disse entre os dentes. “Os exercícios deveriam ajudar você a se recuperar mais rápido.”
“Ou me manter fraco por mais tempo.” Ele tornou a se afundar no sofá, balançando a cabeça. “Você não entenderia.”
Nesse momento, Rose apareceu à porta. “Vocês dois querem alguma coisa para beber?”
“Estou bem”, respondi rápido.
“Água”, disse Tyler, sem nem olhar para ela.
Rose assentiu e desapareceu de novo.
O silêncio voltou, mais pesado agora. Tyler se recostou outra vez, desta vez fechando os olhos, como se eu já o tivesse esgotado só por estar ali em pé.
“Olha”, ele disse por fim, em voz baixa, “eu não preciso de você. Não preciso da sua mãe. Não preciso de ninguém. Então não comece a achar que é algum tipo de salvadora aqui.”
As palavras cortaram mais fundo do que eu esperava. Engoli em seco, apertando com mais força as anotações da mamãe. Quis dizer a ele que estava errado, que eu não estava ali para salvá-lo, que só estava fazendo o meu trabalho.
Mas o aviso da mamãe ecoou na minha cabeça — tenha paciência com ele.
Então não disse nada.
Os lábios dele se curvaram, não exatamente num sorriso, mas o suficiente para sugerir que ele achava que tinha vencido.
“Foi o que pensei.”
A sessão se arrastou com mais do mesmo — eu dando instruções, ele zombando delas, obedecendo só pela metade. Quando Rose voltou com água e uma bandeja de lanches, eu me sentia como se tivesse corrido uma maratona. Tyler, por outro lado, parecia entediado, como se tivesse provado o ponto dele.
Quando finalmente guardei minhas anotações, ele se levantou do sofá sem dizer uma palavra e já foi subindo as escadas, sem me lançar nem mais um olhar.
“Na próxima, me encontre no estacionamento.” Ele parou no meio da escada. “Eu aconselho você a pesquisar no Google o que é preciso para ser terapeuta de um atleta antes da nossa próxima sessão, se não quiser ser substituída.”
Forcei um sorriso que não chegou aos olhos e fui em direção à porta no instante em que ele sumiu de vista.
No momento em que saí, puxei o celular e disquei o único número que eu sabia de cor desde os três anos de idade. Quando a voz familiar e cantarolada preencheu meu ouvido, a muralha que eu vinha sustentando desmoronou.
“Querida, está tudo bem?”
“Eu não consigo fazer isso, mãe.” Minha voz falhou quando as lágrimas escorreram, quentes e rápidas. “Quando você vai voltar?”
