Fora do Gelo

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Capítulo 3 HARPER

A sala de aula parecia estar zumbindo mais alto do que o normal, mas eu não conseguia me concentrar. Meu caderno estava aberto sobre a carteira, coberto de problemas de matemática rabiscados pela metade que eu nem estava realmente tentando resolver. Em vez disso, meus olhos continuavam se desviando para a janela, observando o céu mudar do azul-claro para aquele cinza suave que surge pouco antes de o sol começar a se pôr.

Então eu o vi.

Tyler Mercer. Caminhando em direção à porta como se fosse dono do lugar. O cabelo loiro bagunçado dele, o jeito como a jaqueta da escola se ajustava aos seus ombros largos — era como se ele fosse invencível. E, ainda assim, ali estava ele, apenas um aluno comum saindo da aula mais cedo como se tivesse algum compromisso urgente.

Pisquei. Espera, ele não deveria estar fora do gelo? A lesão deveria deixá-lo no banco pela temporada inteira. Então por que ele estava com os patins na mão, pronto para se juntar ao time como se nada tivesse mudado?

Meu coração acelerou enquanto eu arrumava a bolsa às pressas para ir atrás dele. Hoje era o dia. O primeiro dia em que eu deveria ajudar nas sessões de fisioterapia dele. Mamãe tinha saído da cidade esta manhã por causa de uma emergência de trabalho, me deixando responsável. Eu estava nervosa, sem dúvida. Eu não era uma profissional. Não tinha nenhum treinamento sofisticado. Mas mamãe acreditava que eu conseguiria dar conta, e eu precisava do dinheiro. Além disso, talvez, só talvez, eu pudesse fazer a diferença.

O sinal tocou, e a sala se esvaziou numa enxurrada de alunos no momento em que me levantei da carteira. Segui Tyler à distância, tomando cuidado para não parecer óbvia. Mas, mesmo tentando me manter calma, meu estômago se retorcia em nós. Ele era rápido, se enfiando entre grupos de alunos e virando pelos corredores. Desapareceu no vestiário masculino antes que eu conseguisse alcançá-lo e saiu poucos segundos depois com a bolsa de hóquei pendurada no ombro. Acelerei o passo, já sabendo para onde ele estava indo. Desviando de mochilas e grupos tagarelas, desesperada para não perdê-lo, passei a trotar, meio correndo, meio andando depressa.

Foi aí que os sussurros começaram.

“Eu disse que ela tá perseguindo ele”, alguém murmurou. “Tá seguindo ele desde que as aulas acabaram.”

O calor subiu para o meu rosto, mas eu não parei, só diminuí quando Tyler parou na entrada do ginásio, onde seus companheiros de time estavam reunidos, conversando. Fiz uma pausa para respirar quando Tyler virou a cabeça e o time dele ficou em silêncio. A expressão dele endureceu, a mandíbula travada.

Engoli em seco, mantendo a cabeça erguida enquanto caminhava até ele. Eu mal tinha chegado a um braço de distância quando a voz dele, pesada e fria, ecoou pelo silêncio.

“O que é isso, seu passatempo? Para de ficar me seguindo, quer?”

Minhas bochechas queimaram. Abri a boca para me defender, mas um dos companheiros de time dele me interrompeu.

“Ei, Ridey, se você tá procurando um gato pra tirar foto, eu posso dar um jeito na minha agenda. O capitão não é o único bonitão por aqui, não.”

Os colegas dele riram, cada um flexionando os bíceps e fazendo caretas para mim. Eu os ignorei, mantendo o olhar em Tyler, que ainda me encarava.

“Desculpa se pareceu que eu estava perseguindo você. Eu tenho que acompanhar você até em casa.”

Uns “ooohs” e “aaahs” explodiram ao nosso redor, vindos dos companheiros dele. Eu fiquei ainda mais vermelha.

“Ei, capitão, deixa um pouco pra gente também, vai?”

“É, eu pego ela primeiro.” O ruivo alto e de fala grossa que tinha dito isso piscou para mim.

“Por que você não vai lá pra minha casa, então? Prometo que vou tornar inesquecível.”

O garoto ao lado do Tyler — o mesmo que tinha me interrompido primeiro — soltou uma risada pelo nariz. “Vindo de alguém que nunca viu um buraco na vida.”

Outra rodada de gargalhadas ecoou pelo time. Tyler revirou os olhos, claramente enojado com os comentários.

“Chega, seus babacas.” Ele voltou a atenção para mim. “Explica.”

O tom na voz dele me disse que ele já estava no limite comigo. Limpei a garganta, procurando as palavras, antes de tentar falar de novo.

“Sua sessão de terapia. Eu sou sua nova terapeuta.” Os olhos dele passearam da minha cabeça até os meus pés e voltaram. “É só temporário. Minha mãe — sua terapeuta de verdade — teve que viajar por causa de um trabalho urgente, então eu estou cobrindo ela”, acrescentei rápido, as palavras saindo atropeladas.

A carranca de Tyler se aprofundou, mas ele não disse nada. Um gemido baixo escapou de um dos companheiros de time, puxando minha atenção.

“Ei, terapeutas, acho que eu torci meu pau. Por que vocês não vão lá pra casa e fazem um test drive?”

Eu rezei mentalmente para o chão se abrir e me engolir quando as risadas explodiram de novo.

“Se afasta, Billy. Cria vergonha na cara, tá?”

Billy levantou as mãos num gesto apaziguador.

“Calma, Cap, é só uma brincadeira inocente.”

“Já perdeu a graça. Cresce. E, além disso, vocês não deviam estar treinando? Juro que o técnico tá ficando mole”, ele rosnou.

“Ô, ô, ô, não precisa mandar na gente assim. Você tá no banco por enquanto, Cap. A gente só pensou em ficar um pouco contigo antes de entrar.”

Tyler lançou um olhar mortal para ele. “No banco é o caralho. Eu apareci, não apareci? Isso já é mais do que dá pra dizer de metade desses palhaços em alguns dias.”

“Ei, não foram minhas palavras — foram do técnico.”

“Que porra, Pete. O técnico me deixou no banco e você não achou que eu devia saber? Belo melhor amigo você.”

“Eu achei que você tinha sacado. Você sabe... por causa da tipoia e tudo.”

“Vai se foder.”

O time ficou em silêncio, e o corredor pareceu se apertar de tanta tensão.

“Eu não esperava que você viesse pra escola, cara. Com essa lesão, eu tirava o trimestre todo. Não achei que você ainda ia aparecer pra treinar.”

“Isso diz muito sobre você.” Ele passou pelo amigo. “Eu vou trocar uma ideia com o técnico. A sessão começa amanhã.”

Demorei um segundo para perceber que as últimas palavras eram para mim. Estendi a mão para o braço dele, mas recuei na mesma hora quando o olhar dele desceu para onde minha mão tinha estado.

“Ahm, desculpa. Mas, de acordo com as instruções da minha mãe, você não está autorizado a treinar por... um tempo. Eu aconselho que a gente comece as sessões hoje. Quanto mais cedo, melhor.”

Ele me avaliou por um instante. Eu me obriguei a não me encolher sob aquele olhar intimidador. Parecia que todo mundo prendeu a respiração, esperando para ver a reação dele. Depois do que pareceu uma eternidade, ele se virou, se afastando da entrada, e seguiu na direção oposta.

“Se eu chegar no carro antes de você, você vai a pé.” Ele nem esperou para ver se eu o seguia; só saiu marchando pelo corredor. Meu estômago afundou.

Isso ia ser muito mais difícil do que eu pensei.

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