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Capítulo 2 HARPER

Eu sempre achei que as pessoas mudavam devagar, como folhas passando do verde para o marrom. Mas, quando Tyler Mercer voltou para a escola, foi da noite para o dia.

Num dia ele era o garoto de ouro que sorria para desconhecidos; no outro, era... isso.

Já fazia três semanas desde o jogo. Tempo suficiente para os hematomas sumirem e para ele voltar inteiro — pelo menos fisicamente. Mas, enquanto atravessava o corredor com o braço ainda na tipoia, ele não era mais o mesmo garoto que me impediu de cair da arquibancada.

Ele não olhava para ninguém. Nem para os alunos gritando o nome dele, nem para os professores sorrindo com pena, nem mesmo para os amigos, que mantinham uma boa distância, como se ele fosse uma nuvem de tempestade prestes a desabar.

Alguém tentou dar um tapinha nas costas dele e recebeu, em troca, um olhar fulminante.

“Meu Deus”, minha melhor amiga, Megan, murmurou ao meu lado, diante dos nossos armários. “Até parece que foi ele que perdeu o jogo.”

“Para ele, meio que foi”, eu disse antes que pudesse me impedir. O time podia ter levado a vitória, mas perder Tyler durante boa parte da temporada ainda parecia uma derrota.

Ela me lançou um olhar. “O que você quer dizer com isso?”

“Nada.” Enfiei meus livros no armário, embora meus olhos o seguissem pelo corredor. Ele andava como se fosse feito de vidro — rígido, na defensiva — e, ainda assim, de algum jeito continuava parecendo dono do lugar.

Não era só a lesão. Era tudo. O cabelo loiro bagunçado estava sem arrumar, o uniforme um pouco amarrotado. Ele não parava para falar com ninguém, nem com a turma de sempre.

Aquele não era Tyler Mercer. Era alguém fingindo ser à prova de balas, e sem fazer um trabalho muito bom nisso.


Quando cheguei em casa naquela tarde, quase consegui tirá-lo da cabeça.

Quase.

Mamãe estava na ilha da cozinha, com o laptop aberto e uma caneca de chá intocada ao lado. Ela estava com a sua “cara séria de trabalho”, o que geralmente significava uma de duas coisas: ou estava terminando um contrato, ou começando um novo.

“Oi, mãe”, falei, largando a mochila perto da porta.

Ela fez um murmúrio distraído.

“Você sabe quando os ingressos para o Festival Lumina começam a ser vendidos?”

Isso chamou a atenção dela. Suas sobrancelhas se ergueram, e ela fechou um pouco o laptop. “Por quê?”

“Porque eu quero um. Eles anunciaram a programação hoje. Todo mundo vai. E, antes que você pergunte, não é só um show. É uma experiência.”

“Uma experiência que custa quanto?”

Eu murmurei o valor.

“Harper.”

“Não é tão ruim assim.”

“É um roubo”, ela disse, seca, voltando para o laptop.

Suspirei, me jogando na cadeira à frente dela. “Então... não?”

“A menos que você pretenda começar a bancar suas próprias experiências.”

Hesitei. “De quanto estamos falando para bancar experiências?”

Ela me lançou um olhar de lado, mas peguei o menor sinal de um sorrisinho puxando seus lábios. “Por quê?”

— Porque — eu disse com cuidado — você vive reclamando que precisa de alguém pra cuidar da sua agenda, anotar as coisas, enfim. E eu faço isso de graça desde que aprendi a andar.

— Você quer que eu te pague pra ser minha assistente?

— Não — respondi depressa. — Eu quero trabalhar pra isso. Tipo… do jeito certo. Sabe. Merecer.

Ela soltou uma gargalhada de verdade, daquelas que me fizeram me remexer desconfortável, porque eu sabia que ela estava prestes a sugerir alguma coisa que eu não ia gostar.

— Quer merecer? Ótimo. Você pode ajudar um dos meus clientes.

Eu pisquei.

— O quê?

Ela fechou o laptop de vez, apoiando o queixo na mão como se estivesse gostando demais daquilo.

— Os Mercer.

Meu estômago despencou.

— Os Mercer, tipo…?

— Sim. Aquele Mercer. A fisioterapia do filho deles. Eu venho trabalhando com ele desde a lesão, mas acabei de pegar um contrato de emergência fora do estado e estava procurando alguém pra me substituir.

Eu encarei ela.

— Você quer que eu faça as sessões de fisioterapia dele?

— É mais trabalho de rotina — alongamentos, exercícios simples, acompanhar a evolução. Nada que você não tenha feito comigo umas cem vezes.

— Mãe, isso é… ele é…

— Um aluno do ensino médio como você — ela me cortou. — E antes de você entrar em pânico, eu falo com a família. Eles confiam em mim.

— Eles confiam em você — repeti. — Não em mim.

— Eles vão concordar.

— Você não sabe disso.

Ela inclinou a cabeça.

— Quer apostar? Se eles não aceitarem, você não precisa ir. Se aceitarem…

Eu gemi.

— Isso é chantagem.

— Isso é ser mãe — ela disse, toda doce.

Não tinha a menor chance de os Mercer — aquela família Mercer — aceitarem que uma garota aleatória do ensino médio fizesse as sessões de fisioterapia do filho deles.

— Tá bom — eu disse, mais porque tinha certeza de que era uma aposta segura. — Se eles disserem que sim, eu faço.

— Ótimo — ela falou, pegando o celular.

— Ei, espera… você vai ligar pra eles agora?!

Ela me ignorou, digitando com a velocidade de uma mulher que sempre conseguia o que queria.

— Você vai precisar começar na semana que vem.

Eu encarei ela.

— Quer dizer, se eles concordarem.

O celular dela apitou. Ela leu a mensagem e ergueu os olhos pra mim com um sorriso de gato que acabou de devorar o canário.

— Eles concordaram.

Eu pisquei.

— Eles… o quê?

— Você começa na segunda-feira.

Eu me joguei para trás na cadeira, soltando um gemido.

— Inacreditável. De todos os jeitos de ganhar dinheiro…

— Um dia você vai me agradecer — disse a mãe, se levantando pra encher a xícara de chá. — Isso pode ser bom pra você. Ele precisa de alguém que ajude ele a voltar a ser como antes.

Eu deixei escapar uma risada debochada.

— Aham, porque se existe alguém que pode “consertar” Tyler Mercer, sou eu. Super crível.

Mas a mãe não estava brincando. E, enquanto o celular dela vibrava com novos detalhes sobre meu primeiro “trabalho” oficial, eu não conseguia parar de pensar no garoto das arquibancadas. Aquele que costumava sorrir, que era legal com todo mundo. Agora, todo aquele calor tinha sumido, substituído por um olhar frio e indecifrável.

Que diabos eu tinha acabado de aceitar?

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