Capítulo 1 HARPER
Eu quase me apaixonei uma vez.
Não pelo Tyler Mercer. Não de verdade. Mas pelo jeito como ele fazia todo mundo ao redor dele sentir que importava.
Era assim que parecia, pelo menos, vendo-o das arquibancadas.
Era o primeiro jogo de hóquei numa sexta-feira à noite da temporada, aquele para o qual todo mundo na Westfield Academy aparecia, se ligasse para hóquei ou não. O ar tinha cheiro de metal gelado e pipoca, aquele tipo de odor que ficava grudado na sua jaqueta por dias depois. A ala dos alunos zumbia com uma energia inquieta, corpos espremidos contra o vidro, rostos pintados de azul e branco pelo nosso time. As líderes de torcida se amontoavam perto do banco dos penalizados, puxando cantos que metade da torcida de fato conhecia.
Aquele era o mundo do Tyler.
O meu ficava em algum lugar lá no alto, longe o bastante para que ninguém percebesse eu agarrada a um caderno em que eu rabiscava entre um grito e outro. Eu tinha dito a mim mesma que estava ali por “pesquisa”, por um texto sobre espírito escolar, mas isso só era metade da verdade.
Daqui de cima, eu ainda conseguia vê-lo.
Com o capacete encaixado debaixo do braço, Tyler Mercer era só sorrisos fáceis e um ar confiante enquanto deslizava até os colegas durante o aquecimento. Mesmo fora do gelo, a presença dele era magnética — não arrogante, não ensaiada, apenas segura de si. Tyler não era só o queridinho de Westfield. Ele era o garoto. Capitão do time. Aquele cujo nome as pessoas cantavam como se isso pudesse empurrar o disco para dentro do gol. Aquele que os olheiros já tinham circulado em seus cadernos, mesmo ele ainda não tendo feito dezoito anos.
E, naquela noite, ele parecia intocável.
Quando o alarme sinalizou o fim do aquecimento, ajuntei minhas coisas e comecei a abrir caminho escada abaixo em direção ao saguão, pensando que um chocolate quente talvez impedisse meus dedos de congelarem bem antes de o jogo começar.
“Olha por onde anda!”
A voz ríspida me arrancou dos pensamentos quando eu quase trombei numa parede de ombros largos num casaco do time do colégio que subia as escadas. Murmurei um pedido de desculpas, apertando o caderno com mais força.
Aí, de imediato, tropecei na beirada da arquibancada.
Mãos fortes me pegaram antes que eu caísse de cara.
“Você tá bem?”
Eu pisquei, atordoada, olhando para cima, e lá estava ele. Tyler Mercer, de perto, a mão quente firme no meu cotovelo. Os amigos dele — todos com casacos iguais, todos rindo de alguma coisa da qual eu não fazia parte — nem olharam para trás enquanto continuavam andando.
Mas ele olhou.
“Ah — tô. Tô bem.” Minha voz falhou de um jeito que definitivamente não era bem.
“Foi mal por isso”, ele disse, e falou sério. Ele me deu um sorriso pequeno, torto, que fez meu coração tropeçar de um jeito para o qual eu não estava pronta.
“Mas você devia prestar atenção por onde anda. Essas arquibancadas são cruéis.”
E, assim, ele se foi, correndo de volta para a turma dele antes que eu conseguisse pensar em qualquer coisa minimamente inteligente para dizer.
Eu quase me apaixonei bem ali.
Não por ele — eu não o conhecia. Mas pelo fato de que alguém como ele podia parar, nem que fosse por um segundo, por alguém como eu.
As luzes diminuíram um pouco quando os times foram chamados de volta para o faceoff de abertura. Uma voz ecoou pelos alto-falantes, anunciando os jogadores um por um, e os gritos da torcida aumentavam a cada nome. O de Tyler foi o mais alto, claro.
O jogo começou num borrão caótico — discos voando, jogadores se chocando contra as placas, a multidão rugindo a cada quase gol e a cada defesa. Eu nem gostava de hóquei, mas, quando Tyler estava com o disco, era impossível desviar o olhar. Ele era rápido e calculista. O tipo de jogador que fazia tudo parecer mágica em vez de esforço. Ele não apenas jogava; ele dominava o gelo.
“Mercer!”, alguém gritou atrás de mim, e eu não soube dizer se estavam torcendo por ele ou rezando.
No segundo período, Westfield estava na frente por um gol, e a energia na arena parecia elétrica. Tyler patinava de costas em direção ao gol, com o taco firme, os olhos presos no disco como se nada mais existisse. Ele chamou uma jogada que eu não entendi, passou, girou, e por algum milagre já estava com o disco de novo em questão de segundos. A torcida explodiu quando ele chutou para o gol.
Bloqueado.
O outro time não estava para brincadeira.
A coisa ficou mais agressiva. Jogadores se empurravam, tacos batiam uns nos outros, corpos eram arremessados contra as placas com uma força de embrulhar o estômago.
Então aconteceu.
Num segundo, Tyler deslizava pelo gelo como se nada pudesse tocá-lo. No seguinte, foi jogado com tanta força contra o vidro que o impacto reverberou pelas arquibancadas. Eu senti no peito.
Ele não se levantou.
O rugido da torcida caiu num silêncio assustador.
O apito do árbitro cortou o ar quando o jogo parou bruscamente.
Do meu lugar no meio das arquibancadas, agarrei meu caderno como se ele pudesse me manter firme enquanto os paramédicos invadiam o gelo e se agachavam ao redor dele. Mesmo dali, dava para perceber que alguma coisa estava errada. O capacete já tinha sido tirado, e a cabeça dele pendeu de um jeito que fez meu estômago se revirar. Ele tentou se mexer, depois congelou, desabando de volta no gelo.
Os jogadores formaram um círculo como uma muralha, bloqueando minha visão, mas eu não conseguia desviar os olhos dos espaços entre eles. Não conseguia apagar a imagem do garoto que tinha sorrido para mim como se aquilo não lhe custasse nada agora caído ali, como se tudo tivesse sido arrancado dele.
Os minutos se arrastaram como horas até que, finalmente, finalmente, o ajudaram a sair do gelo. Seu braço estava preso junto ao peito, e os patins arrastavam.
Vi minha mãe descendo apressada das arquibancadas, abrindo caminho entre a fileira de paramédicos e oficiais para encontrá-lo no túnel. A ruga entre suas sobrancelhas me disse mais do que qualquer placar poderia dizer.
Quando ela voltou para onde eu estava sentada, a torcida já tinha voltado a atenção para o jogo.
“É sério”, ela murmurou, inclinando-se para que só eu pudesse ouvir. “Ele rompeu o ombro — o manguito rotador. Vai ficar fora por pelo menos quatro meses… talvez mais.”
“Quatro meses?”, repeti, sentindo as palavras prenderem na garganta.
No tempo do hóquei, isso era praticamente uma eternidade.
Eu não me lembro de quem ganhou o jogo.
Tudo de que eu me lembro é que aquele foi o momento em que Tyler Mercer deixou de ser o garoto de ouro de Westfield para se tornar seu maior “e se”. E naquela noite eu aprendi como alguém intocável podia cair tão rápido.
