Capítulo 2
Sophia não conseguiu evitar um arrepio, parada, sem conseguir se mexer.
O olhar de Gerald passou por ela com frieza. “Você devia agradecer que a Claire foi resgatada, senão...”
A aura ao redor dele ficou ainda mais gelada.
Sophia não conseguiu evitar dar meio passo para trás, mas se sentia tão injustiçada — nada daquilo tinha a ver com ela.
Ela respirou fundo. “Na verdade, não fui eu...”
“Cala a boca!” Gerald a interrompeu, seco. Ele se virou de novo, encarando Sophia com olhos venenosos. “Nunca mais diga essas coisas na minha frente!”
Sophia mordeu o lábio e se calou.
O olhar de Gerald ficou ainda mais enojado. Ele desviou do rosto dela e fixou na barriga inchada.
Ele semicerrrou os olhos, a voz fria: “Estamos casados há quase quatro anos. Já passou da hora.”
Sophia paralisou. A voz de Gerald continuou glacial, cada palavra curta e dura. “Quatro anos de casamento — acabou o prazo.”
O olhar dele se aguçou. “Caiu como uma luva. Assim que você tiver o bebê, a gente se divorcia.”
Sophia ficou imóvel.
Ela sabia que esse dia ia chegar. Três anos antes, um advogado tinha colocado o acordo pré-nupcial diante dela — quatro anos de casamento e, depois, a dissolução automática, a menos que os dois concordassem em manter. Estava tudo muito claro.
Mas ouvir Gerald dizer isso em voz alta ainda a atingiu como um golpe.
Ela ergueu a cabeça, controlando a expressão, mesmo com a voz ameaçando tremer. “Tudo bem. Mas não precisa esperar o bebê nascer. A gente pode dar entrada amanhã.”
Os olhos de Gerald escureceram.
“Não.” O tom dele cortou a sugestão sem esforço. “A gente combinou uma data. Vamos cumprir.”
Antes que ela respondesse, o celular dele tocou.
Gerald olhou para a tela. A frieza ao redor dele se desfez na mesma hora, como se alguém tivesse apertado um botão.
O estômago de Sophia despencou.
Ele atendeu. “Claire.” A voz dele suavizou, mais quente do que ela já tinha ouvido.
Um choro baixo veio do outro lado da linha, prendendo toda a atenção dele.
“Tá tudo bem agora. Já passou”, ele murmurou, virando um pouco de lado, afastando-se dela. “Eu sei que você tá com medo... Não se preocupa. Eu já tô indo.”
Os dedos de Sophia se fecharam contra as palmas enquanto ela o via pegar o paletó que tinha acabado de pendurar e seguir em direção à porta.
A porta se abriu antes que ele chegasse. Mason entrou primeiro, apoiado na bengala, seguido pelos pais de Gerald.
Preston Churchill estava com uma expressão dura, enquanto os olhos de Gemma Stewart foram direto para o estado desalinhado de Sophia.
“O que aconteceu?” Gemma correu até ela, alarmada na voz, quando o olhar pousou na barriga redonda. “Sophia, por que você tá assim?”
Mason se virou para Gerald, franzindo a testa. “Tá tarde. Aonde você vai? O que é mais importante do que estar em casa? Vocês dois brigaram de novo?”
Depois, para Sophia, o tom dele ficou mais brando. “Você está numa fase delicada. Se cuida. Pensa primeiro no bebê e não faça escândalo, certo?”
Sophia baixou os cílios, escondendo tudo o que sentia, mantendo a expressão tão calma e obediente como sempre. “Não se preocupe. Eu estou bem.”
Michael veio correndo da sala de jogos no andar de baixo.
A arrogância de antes tinha sumido, substituída por uma alegria obediente. “Vovô! Pai, mãe! Vocês vieram!”
Ele se jogou ao lado de Mason e olhou para Sophia. “A cunhada não tá com uma cara muito boa. Será que ela tá ficando deitada demais? Gravidez é difícil, eu sei, mas passar o dia inteiro na cama também não faz bem. Preguiça demais afeta o bebê.”
As mãos de Sophia se fecharam com força, mas antes que ela pudesse falar—
Gemma se meteu. “O Michael tá certo. Sophia, eu não tô te criticando, mas olha só pra você...”
O olhar dela passou por Sophia, mal disfarçando o desprezo. “Você precisa descansar, claro, mas um exercício leve é importante. Senão, a recuperação fica mais difícil, e voltar à boa forma vai ser ainda mais complicado. Uma mulher tem que se cuidar para poder…”
Ela lançou um olhar rápido para Gerald. “…dar ao marido um motivo para ficar em casa.”
Uma risada fria, invisível, atravessou a mente de Sophia.
Preguiçosa?
Desde que se casou e entrou para a família Churchill, ela cuidava das próprias coisas, das necessidades diárias de Gerald, das vontades intermináveis de Michael e de quase toda tarefa pequena quando os sogros apareciam. Ela carregava tudo sozinha, sem dizer uma palavra.
“Tá bom”, disse Mason, acenando com a mão. “Sophia cresceu mimada. É natural que não saiba dessas coisas. Já que todo mundo concorda que ela tem que se mexer mais…”
Ele olhou para Gemma. “Dê alguma coisa leve pra ela fazer.”
Gemma assentiu. Os olhos dela deslizaram até o jardim escuro lá fora. “Eu me lembro do jardineiro dizendo que a terra no jardim dos fundos precisa ser revolvida. Não é serviço pesado. Sophia, vai lá afofar a terra. Toma um ar.”
O tom era casual, desdenhoso — uma ordem feita para uma empregada. O desprezo no olhar dela nem era disfarçado.
Sophia sentiu as pontas dos dedos gelarem.
Ela tinha acabado de voltar debaixo de um temporal. Estava exausta, de corpo e alma. Tudo o que queria era se deitar.
Como ela não se mexeu na hora, Gerald franziu a testa. “Minha mãe mandou você ir. Tá esperando o quê?”
Algo dentro dela se quebrou, silencioso.
Ela devia ter sabido. Ela sempre tinha sido a pessoa menos importante naquela casa.
Palavras não significavam nada. Discutir nunca mudava nada.
Sophia baixou o olhar e foi em direção à porta dos fundos.
Só depois que ela sumiu no jardim é que Mason voltou a se virar para Gerald.
O calor saiu da expressão dele, substituído por um cálculo astuto. “Gerald, eu sei que você despreza a garota da família Neville. Eu sei que seu coração não está com ela.”
Gerald permaneceu em silêncio.
“Mas falar em divórcio agora não é apropriado.” A voz de Mason esfriou. “A família Neville pode ter decaído, mas muita gente ainda se lembra do favor que me fizeram. Você acabou de garantir o controle do fundo fiduciário, mas ainda não está totalmente firme. Se você se divorciar da filha deles agora, o que as pessoas vão pensar da família Churchill? Ser chamado de ingrato vai prejudicar a empresa.”
Cada palavra pesava reputação e vantagem. Nada além disso.
A expressão de Gerald se fechou ainda mais.
Depois de um longo momento, ele forçou: “Tá bom.”
Mason assentiu, satisfeito. Depois de tratar de alguns assuntos de negócios e notar que já estava tarde, ele saiu com Preston e Gemma.
Michael já tinha escapulido para o andar de baixo, para os jogos.
O silêncio tomou conta da sala de estar.
Sophia não sabia quanto tempo tinha ficado no jardim. Só quando os dedos estavam dormentes de frio ela se endireitou devagar e voltou para dentro. Quando entrou, Gerald era o único que restava.
Ele estava perto da janela, de costas para ela, com o celular no ouvido.
A voz dele voltou a ser gentil. “…Claire, não fica colocando coisa na cabeça.”
Sophia continuou andando, sem querer ouvir mais nada.
Um instante depois, alguma coisa dita do outro lado fez o tom de Gerald endurecer. “O quê? Foi ela mesmo?… Tá. Eu entendi.”
Ele desligou de supetão.
Então se virou de uma vez, o olhar cravando em Sophia como uma lâmina.
Ela parou no meio do passo.
“Sophia, eu realmente te subestimei”, ele disse, a fúria fervendo por baixo. “Eu nunca imaginei que você fosse tão calculista.”
Os olhos de Sophia se arregalaram. Ela não fazia ideia do que ele estava falando.
