Esqueci que Te Amei, Alfa

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Capítulo 4

POV da Ellie

Nolan ficou com a cara de quem eu tinha acabado de dar um tapa nele.

Mesmo assim, ele não disse nada. Só ficou ali, com aquela mesma postura dura, as sobrancelhas franzidas, como se o peso da palavra divórcio ainda não tivesse caído de verdade sobre ele. O silêncio dele se esticou, quebrado apenas pelo zumbido da tensão engrossando entre nós.

— Você está sendo ridícula — ele resmungou por fim, a mandíbula tremendo. — Você claramente está chateada. Se isso é algum chilique pra chamar atenção...

— Quem é que está dando chilique? — ergui uma sobrancelha. — Você acha que isso é sobre você?

A cabeça dele se puxou para trás, e ele piscou como se eu tivesse falado em outra língua. Por um instante, quase ri. Ele realmente não entendia. O homem estava tão acostumado a me ver como uma sombra silenciosa e obediente de esposa, que não conseguia compreender a ideia de eu ir embora de verdade.

— De algum jeito você acha que eu estou tentando te impressionar — continuei, a voz mais cortante agora. — Como se tudo o que eu faço fosse um teatro elaborado pra te conquistar. Isso é doentio. Eu cansei. Eu não vou ser seu enfeitezinho calado. Eu não vou deixar a sua amante tirar sarro de mim e você ficar aí, sem dizer nada.

— Amante? Que amante? — Felicity disparou, irritada.

A boca dele se abriu, um protesto se formando, mas eu não deixei que terminasse.

— Ellie...

— Não — retruquei, cortando qualquer desculpa que ele estivesse prestes a enfiar goela abaixo em mim. — Você fez um acordo? Ótimo. Mas eu nunca concordei em ser humilhada dentro da minha própria casa. Eu nunca concordei em ser tratada como uma incubadora descartável. Eu nunca concordei em abrir mão do meu filho. E, com certeza, eu não concordei com você. Então vamos direto ao ponto: a gente vai se divorciar ou não?

Ele franziu a testa, claramente desconcertado com o quanto eu estava firme. Com o quanto aquilo era real.

— Você está falando sério.

Eu sustentei o olhar dele, sem piscar.

— Sério pra valer.

Os lábios dele se estreitaram, a frustração atravessando os olhos.

— Tudo bem. Se você quer jogar sua vida fora, não vou te impedir.

Ele se virou bruscamente, chamando por cima do ombro:

— Beta! Prepare a cerimônia de rejeição. Agora.

A mão de Felicity foi para a cintura, e ela soltou um riso baixo, de desdém.

— Até que enfim.

O Beta espiou pela porta, a confusão marcada fundo no vinco da testa.

— Alfa — ele disse com cuidado —, ah, não que eu esteja te questionando, mas talvez você devesse... reconsiderar?

O peito de Nolan se encheu com uma respiração profunda, como um vulcão segurando a explosão.

O Beta continuou, a voz mais aguda:

— É que... a cerimônia de rejeição não é algo pra se fazer de qualquer jeito. Com todo respeito, isso parece uma discussão no calor da emoção...

— Faça o que eu mandei — Nolan rosnou, por fim, cortando-o.

O Beta hesitou, olhando para mim como se esperasse que eu chorasse, implorasse, desse algum tipo de desculpa. Mas eu só encarei de volta.

E ainda revirei os olhos.

Então o olhar de Nolan caiu sobre mim, e aquele sorriso frio puxou de novo o canto da boca dele.

— Pense bem, Ellie. Depois de hoje, você vai se arrepender disso.

Arrepender?

Eu soltei uma risada. Por que ele estava tão certo de que eu ia querer ficar aqui? Eu só me arrependo de ter voltado pra perguntar sobre a criança. O homem que deixou outra mulher rir de mim do outro lado da mesa e esperou que eu não dissesse nada, que engolisse aquilo como se fosse remédio.

Como isso poderia ser possível?

— Arrepender? — eu disse. — Eu me arrependo é de ter ficado tanto tempo.

Eu saí do quarto sem esperar permissão.

A empregada piscou quando eu pedi ajuda para encontrar o meu próprio quarto. Pelo jeito, ainda não tinham avisado a ela que a esposa do Alfa nem sabia onde dormia.

Eu a segui pelos corredores longos de queixo erguido, sem parar uma vez sequer. Não me importava que meu coração estivesse disparado, nem que as paredes daquele lugar ainda ecoassem lembranças que eu não tinha. Aquilo não era a minha casa. Nunca tinha sido.

Quando cheguei ao quarto, eu já sabia que não queria levar nada comigo. Eu não queria os vestidos que eu usava para agradar a ele, o perfume de que ele já tinha zombado, nem as joias das quais eu nem me lembrava de ter escolhido. Nada daquilo parecia meu. Mesmo assim, abri as gavetas e comecei a dobrar as coisas, só para dar às minhas mãos algo para fazer.

A criada ficou ali, sem jeito, os olhos indo para a minha barriga e depois para a porta, como se esperasse Nolan arrombar a entrada e me arrastar de volta.

Que ele ouse.

POV em terceira pessoa

Nolan ficou imóvel, os pés fincados no chão como se raízes tivessem brotado deles, encarando o lugar por onde Ellie tinha desaparecido.

Felicity, como sempre, não esperou convite; a mão dela deslizou pelo braço dele.

— Nolan — disse ela, suave, com uma voz de mel e veludo. — Eu sei que isso deve ser... estressante. Não se preocupe com a Ellie. Você sabe como ela é. Impulsiva. Emotiva. Ela vai voltar rastejando quando perceber que você fala sério.

Ele não respondeu. A mente dele ainda reverberava com a voz de Ellie.

“Eu quero o divórcio.”

Felicity se inclinou um pouco mais.

— Talvez isso seja o melhor. Quando a cerimônia terminar, tudo vai ficar mais simples. A gente finalmente pode conversar sobre o futuro.

O maxilar dele se retesou.

— O nosso futuro — continuou ela, os dedos passeando pelo braço dele. — Casamento. Um vínculo de acasalamento de verdade. Uma Luna adequada ao seu lado. E filhos, Nolan. Você precisa de um herdeiro de verdade. Alguém forte. Alguém como você. Como nós.

A voz dela caiu para um sussurro arfado.

— Eu sempre sonhei com um menininho com os seus olhos e o meu—

Ele se levantou.

Ela travou no meio da frase, piscando diante da mudança súbita.

— Eu preciso andar — Nolan disse, seco.

E saiu do quarto.

Nolan sentia o olhar dela cravado nas costas, mas já não a ouvia — não por cima do som de Ellie batendo cada porta que ela sempre manteve educadamente fechada.

Divórcio.

Ela falava sério. Não era blefe, nem súplica, nem uma tentativa de provar alguma coisa.

Ela tinha acabado.

E a pior parte? Ela não parecia de coração partido. Ela parecia livre.

O Beta alcançou Nolan no corredor, esfregando a nuca, sem graça.

— Senhor, tem certeza disso...? É uma pena — resmungou. — O filho de um vínculo de companheiros destinados teria sido o mais forte da geração...

— Não toque mais nesse assunto — ele rebateu, mais ríspido do que pretendia.

O Beta se calou, andando ao lado dele com passos cuidadosos. Nolan sentiu as perguntas pressionando por trás dos dentes do outro, mas ele não as disse. Esperto.

Ainda assim, Nolan percebia a dúvida irradiando dele.

O Alfa não era sempre indiferente com a esposa? Por que está tão bravo agora?

Porque não era assim que deveria ser.

Porque ela não deveria me deixar.

Nolan fechou os punhos.

— Ela nem pode ter filhos — murmurou. — É melhor assim. Aquele casamento nunca foi feito para durar. Eu já estava de saco cheio daquela renegada de baixa categoria faz tempo.

O Beta não respondeu enquanto a mentira pairava entre os dois. Antes que o silêncio se esticasse por mais tempo, um lobo jovem derrapou ao virar a esquina, ofegante e de olhos arregalados.

— Alfa! — disse ele, sem fôlego. — Um Curandeiro está pedindo para falar com o senhor. É urgente... sobre a sua esposa!

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