Esqueci que Te Amei, Alfa

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Capítulo 3

POV da Ellie

“Eu estou certa?” Felicity fez bico, falando com Nolan num tom provocador, e me lançou um olhar de canto. “Ela só vai te dar dor de cabeça.”

“QUEM DIABOS É VOCÊ, AFINAL?” eu perguntei.

As palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse pensar, antes que eu conseguisse filtrar, suavizar ou sorrir como, ao que parece, eu costumava fazer.

O ar na sala ficou imóvel. As sobrancelhas de Nolan se ergueram, mas o rosto de Felicity foi o primeiro a rachar, os lábios se abrindo num sorriso de desdém.

“O que foi que você disse?” ela perguntou, com uma risadinha debochada se enrolando nas palavras.

Eu dei um passo lento à frente, inclinando a cabeça, observando-a como se ela fosse um quadro pendurado na minha casa sem permissão. “Eu estou falando sério. Quem é você?”

O silêncio que veio depois era pesado de choque — o choque deles.

Talvez fosse porque eu não recuei quando ela me olhou com desprezo, não me encolhi nem procurei Nolan com os olhos, pedindo ajuda. Talvez fosse só porque, pela primeira vez, eu estava agindo como alguém com coluna.

Felicity se recompôs rápido, o sorriso voltando ao lugar como uma máscara. “Que fofo. Testando uma personalidade nova, é? O que é isso, Ellie 4.0? Um pouquinho de atitude pra reconquistar o seu precioso Alfa? Nossa, você faz qualquer coisa por um olhar dele.”

“Ah,” eu disse, leve, “entendi. Você está na minha casa, com o meu marido, me insultando, e a desesperada pela atenção dele sou eu. Agora fez sentido.”

Nolan piscou, franzindo a testa. A expressão de Felicity se retorceu.

“Com licença! Você tem uma cara de pau enorme pra alguém que antes chorava se o Nolan sequer franzisse a testa na sua direção,” ela disparou. “Lembra disso? Lembra de implorar pra ele ficar toda vez que ele só de relance olhava pra mim? Ou a gente não se lembra dessa versão sua? Essa troca de personalidade não vai durar! Você é patética! Lembra disso!”

Eu sorri — não porque fosse engraçado... tá, é um pouco engraçado. Uma mulher aleatória gritando comigo por eu ser quem eu era.

“Eu fazia tudo isso?” eu perguntei, erguendo uma sobrancelha. “Uau. Que vergonha. Era pra eu rir? Ou bater palma? Porque, até agora, tudo o que eu ouvi foi a história de uma garota fazendo de tudo pelo homem que ama, e esse homem sendo cego pra isso, não valorizando nada.”

“E aí você aparece aqui, tirando sarro dela,” eu encarei Felicity nos olhos, “como se isso tivesse qualquer coisa a ver com você. Se ela errou em alguma coisa, foi não ter ido embora antes. Vocês dois são nojentos.”

A boca de Felicity se abriu, mas não saiu nada. Ela parecia ter visto um fantasma em plena luz do dia.

“Você é mesmo maluca,” ela disse, recuperando a postura. “O que você está fazendo, Ellie? Se reinventando? Fazendo o papel da esposa nova, corajosa e incompreendida? Você está passando vergonha.”

“Ela está fingindo de novo,” Nolan murmurou por entre dentes, de braços cruzados. “Ela sempre fez isso quando quer alguma coisa.”

Eu virei a cabeça num estalo na direção dele. “Você acha que eu estou fingindo? Fingindo pra quê?”

“Você acha que eu estou impressionado?” A voz dele saiu baixa e irritada. “A gente já jogou esse jogo antes.”

“Jogou, é?” eu disse, chegando mais perto. “Agora é um jogo novo. E eu não sou quem eu era.”

Ele franziu a testa.

Felicity riu de novo, estridente e quebradiça. “E daí, agora você é forte? Vai bater de frente com ele? Ah, por favor. Você nem aguentava ficar no mesmo cômodo quando ele te ignorava, fazendo aquelas choradeiras de pena por ele.”

Eu olhei bem nos olhos dela. “Eu não quero ele.”

E eu queria dizer exatamente isso. Eu nem tinha certeza se já me queria, mas eu tinha certeza absoluta de que não queria mais ser ela. A garota que implorava. A garota que se dobrava toda por um homem que nunca fazia metade do caminho.

“Eu não estou aqui pra chorar nem pra tentar conquistar ninguém”, eu zombei. “Só tô tentando entender como é que eu acabei casada com alguém que acha que silêncio é traço de personalidade.”

Essa pegou em cheio. O maxilar de Nolan travou, mas, com um suspiro, ele virou um pouco o rosto, fechando os olhos quando um elo mental o alcançou. Ele não disse nada em voz alta, mas eu senti o humor dele mudar — frio, profissional. Modo Alfa.

“Eu preciso atender”, ele disse, virando-se e saindo sem olhar pra trás.

Felicity esperou a porta fechar com um clique antes de se aproximar, a voz mais baixa agora, mais contida, mas não menos venenosa. Ela me lembrava uma víbora — bonita, sim —, mas com aqueles olhos cravados em mim como se eu fosse um alvo.

“Eu ouvi uns rumores, sabia? Tentando ter um filho. Catando migalha de novo, como se você algum dia pudesse ser a Luna de verdade dele. E mesmo se conseguisse, você acha que iam deixar você criar essa criança?”, ela perguntou, sorrindo com todos os dentes. “Com o seu status? Você não é ninguém, Ellie. Só uma rogue que deu sorte. Eles nunca iam deixar você ficar com esse filhote.”

Eu não disse nada, mas minha mão foi instintivamente até a barriga, num gesto de proteção. Será que ela sabia? Não, impossível.

“Não seja burra. Quando eu for Luna, eles vão me dar o bebê. E eu vou fazer questão de que ele nunca esqueça o quanto a mãe dele era patética.”

Ela se inclinou pra perto. “Se você acha que eu vou ser boazinha, pode tirar o cavalinho da chuva.”

Eu não ataquei. Não gritei. Só encarei Felicity como se estivesse vendo ela com clareza pela primeira vez.

Quando Nolan voltou, eu ainda estava ali, de pé, braços cruzados e boca fechada.

Eu me virei pra ele quando entrou, a voz calma. “É verdade?”

Ele ergueu uma sobrancelha. “Verdade o quê?”

“Que eu não poderia criar meu próprio filho nessa alcateia?”

Ele soltou o ar, quase com descaso. “Esse era o acordo. Você sabia o que era isso. A gente se casou pra produzir o filho de um vínculo destinado; eles são mais fortes, mas você não é Luna. Achei que isso estivesse claro.”

“E depois disso? O quê — eu só tinha que sumir?”

“Você faria o que sempre faz”, ele disse, seco. “Sairia correndo chorando e depois apareceria de novo atrás de atenção.”

Eu encarei ele.

Esse homem… era o pior.

Minha voz tremeu com algo bem mais perto da fúria do que da tristeza. “Você é um babaca.”

Ele piscou. “Como é?”

“Você casou comigo, me usou, me ignorou, e agora tá fingindo que eu que tô sendo dramática? Você nem me conhece.”

“Eu conheço você melhor do que você imagina.” A voz dele soou cansada, como se eu ainda estivesse encenando.

“Não”, eu retruquei. “Você conheceu uma menina que achava que ficar em silêncio ia manter ela segura. Que achava que, se fosse obediente o bastante, talvez, só talvez, você fosse amar ela de volta.”

A expressão entediada dele não mudou; os olhos semicerrados com o mesmo desinteresse distante de sempre, como se emoção fosse coisa inferior. Como se eu fosse inferior.

“Mas eu não sou mais ela.”

Eu quase conseguia sentir ele esperando. Esperando a cena que ele achava que sabia de cor. Os lábios tremendo. Os olhos arregalados, cheios d’água. O sussurro: por favor, não vai.

Mas eu não dei isso a ele.

Em vez disso, endireitei os ombros, deixando o fogo se acomodar na minha coluna como uma armadura. Minha voz, clara e firme.

“Eu quero o divórcio.”

As mãos dele saíram devagar dos bolsos. Pela primeira vez, ele pareceu incerto. “O quê?”

“Você ouviu. Eu quero sair desse casamento.”

Eu sorri, levantando o queixo com orgulho.

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