Capítulo 2
POV da Ellie
Eu estava com uma dor de cabeça terrível.
Será que eu estou mesmo com amnésia?
Por que eu não consigo me lembrar de nada?
A voz do esquisitão na minha cabeça parou. A voz dele veio carregada de confusão e desprezo.
— O que é isso? — ele perguntou. — Seu truque novo?
— O quê? — eu fiquei um pouco irritada por causa do tom dele. — E por que você está na minha cabeça?
— Ellie, eu não tenho tempo pros seus joguinhos nem pros seus ataques de birra. Para de fingir. A Alcateia Moonstone vai chegar em breve, e eu preciso de você em casa. Agora.
Então — silêncio. O vínculo mental foi cortado tão de repente que eu senti como se tivesse levado um tapa.
Mas que... porra?!
Que grosseria!
Eu pisquei, olhando para o teto; as luzes brancas e estéreis do hospital ardiam nos meus olhos. Eu procurava qualquer coisa — qualquer lembrança, uma explicação —, mas não tinha nada.
Quem era aquele?
Não — quem era eu?... Ellie? Eu sou a Ellie?
Um palavrão baixo quebrou o silêncio. Eu virei a cabeça e encontrei a ruiva ainda em pé ao meu lado, braços cruzados e os lábios repuxados de indignação.
— Inacreditável! — ela sibilou. — Você quase morreu, e essa desculpa de marido nem aparece pra ver se você ainda está respirando.
Marido?
Eu tentei me sentar, mas meu corpo gritou em protesto. Ela correu até mim e me ajudou a ficar ereta, com um toque bem mais gentil do que o tom.
— Devagar — ela resmungou. — A batida foi feia. Você só está acordada faz algumas horas.
— Espera. — Minha voz falhou. — Eu sou casada?
Ela congelou. O olhar dela grudou no meu, procurando alguma coisa.
— Ellie... não brinca comigo agora.
— Eu não tô brincando — eu murmurei. — Com quem eu sou casada?
O rosto dela se contraiu, em choque.
— O quê? Você não acabou de se conectar pelo vínculo mental do Alfa Nolan? Nossa... você realmente não lembra, né?
...Então aquela pessoa de agora era o Alfa Nolan? Meu marido?
— Bom, eu sou a Rae. A gente é amiga faz muito, muito tempo. E quanto ao Nolan... você dedicou tudo a ele.
A Rae mal conseguia acreditar naquilo tudo, mas mesmo assim continuou me explicando.
— Você sempre se esforçava tanto pra ser boa o bastante, e mesmo assim ele sempre foi cruel... Você—você só ficava ali, amando ele. Eu... nunca fui fã.
Eu encarei ela.
— Por que eu amaria alguém assim?
E eu falava sério. Alguma coisa dentro de mim se encolheu só com a ideia. Parecia estranho. Humilhante.
A Rae piscou, surpresa.
— Nossa. Isso... é novo. A Ellie de antes, quando falava do Nolan, defendia ele só por ele respirar. E agora você tá falando isso dele... isso é novo.
Eu dei uma risadinha de deboche.
— Isso sim é pensamento de gente normal!
A “eu” que a Rae descreveu era completamente sem noção — abrir mão de tudo por um homem? Que idiotice! Por que não viver por você mesma?
Foi então que a porta se abriu de supetão e o Curandeiro entrou de novo. Ele me avaliou com um tédio treinado, os lábios tremendo com algo bem perto do desprezo.
A Rae franziu a testa.
— Ela não lembra de nada. Nem do Nolan. Você precisa fazer outra avaliação.
O Curandeiro revirou os olhos, mas veio até mim mesmo assim. Só que, quando as mãos dele encostaram em mim, a expressão mudou.
Ele ficou rígido, os olhos tremulando.
— Você tem uma loba — ele disse, baixo. — Isso... é impossível.
Minha garganta apertou.
— O quê?
Ele não me respondeu. Só começou a se mover mais rápido, os dedos investigando minhas têmporas, meu estômago. E então ele parou, imóvel.
— ...Ela está grávida.
A Rae se ergueu num pulo.
— O quê?!
— Só de algumas semanas. Quase não dá pra detectar. Mas está aí. — O Curandeiro deu um passo para trás, pálido. — E ela se curou quase completamente, até desde agora há pouco, quando eu examinei. Rápido demais. Se ela não tivesse loba, se fosse uma renegada... isso não deveria ser possível.
Ele saiu às pressas, resmungando algo sobre precisar falar com o Alfa imediatamente.
Grávida. Eu deixei a palavra ficar na minha boca, tão irreal. O mundo tinha inclinado, completamente sem chão. Eu olhei para a Rae, esperando que ela tivesse respostas, mas tudo o que eu vi foi ela desmoronando.
“Você não sabia”, eu disse baixinho.
“Eu não achei que isso fosse possível”, ela respondeu, passando as mãos pelo rosto. “Faz meses que ele mal encosta em você. E você nem é… oficialmente a Luna.”
“Então eu era casada com alguém que nem me queria?”
A voz de Rae suavizou. “Você queria ele. Você achava que, se se esforçasse o bastante, ele ia te enxergar. Que ia te amar.”
Eu queria muito perguntar à Rae: “E ele amou?” Mas, pela reação dela, eu já sabia a resposta.
Um peso gelado se instalou no meu estômago.
Merda.
“...Você podia fugir!”, Rae disse em voz alta, surpreendendo nós duas. “Levar o bebê. Recomeçar em algum lugar onde ninguém te conheça. Sinceramente, se você queria uma saída, agora é a hora.”
Eu pisquei, imediatamente sufocada. Eu tinha acabado de acordar, sem memória de quem eu era, sem saber se a mulher ao meu lado era mesmo minha melhor amiga. E agora eu tinha que tomar uma decisão que mudaria minha vida—
Será que eu podia sair na rua e sofrer outro acidente pra recuperar a memória?
Rae esfregou os olhos. “Me perdoa, eu falei no impulso. Quer dizer, se você fizesse isso, eu apoiaria. Mas… agora que estou pensando, isso é justo com a criança? Crescer como a gente cresceu? Como uma rogue?”
Eu fiquei em silêncio.
“E… você nem sabe quem você é. Como vai criar outra pessoa?”, Rae falou baixo; hesitou. “Você… pensa em fazer um aborto?”
“Aborto?!”
“Eu digo, pensa. Você está carregando um filho de um homem que pra você parecia um estranho, e que não te amava”, ela murmurou, “e você é uma rogue. Você quer mesmo ter esse filho?”
“Eu sei, mas…” Eu hesitei. “Isso é tão cruel. E se… o pai quisesse? Isso devia ser uma decisão dos dois.”
“Eu vou pra casa”, eu disse por fim. “Ver como meu marido reage. Aí eu decido.”
Depois de receber autorização pra sair do hospital, eu senti uma estranha sensação de liberdade, mas também de incerteza.
A casa não era como eu imaginava. Não que eu lembrasse de alguma coisa, mas eu esperava que… parecesse mais segura.
Ele estava esperando. Quem eu presumi ser meu marido, Nolan, estava no meio da sala de estar, imóvel, como uma estátua esculpida em gelo.
O paletó do terno estava aberto, a gravata frouxa no pescoço. Ele era bonito… mas era como se fosse um estranho pra mim.
“Então o teatrinho continua”, Nolan disse friamente, de braços cruzados. “O que foi dessa vez? Um arranhão no braço?”
Eu congelei.
Ei! Sua esposa sofreu um acidente de carro!
Ele deu um passo mais perto. “Eu vi o relatório: quando te acharam, você estava quase ‘morta’. Tenho certeza absoluta de que você está bem, porque, pra mim, você parece ótima. Para de bancar a vítima, Ellie. Você já fez isso antes. Eu não vou cair nessa de novo.”
“O quê—?” Minha voz falhou.
“Chorando pra chamar atenção. Desmaiando na cozinha só porque eu me atrasei. O que vem agora? Um coma?”
Eu tinha fingido estar doente ou machucada antes? Só pra chamar atenção?
Uma mulher, loira e cheia de curvas, apareceu atrás dele, andando com um rebolado preguiçoso, toda de seda e arrogância. Ela estava perto demais dele, considerando que ele supostamente era meu marido. “Sinceramente, Nolan, você devia ter deixado ela sumida. Rogues são sempre uma bagunça.”
Eu encarei os dois. Fechei as mãos em punhos.
...Essa era a minha vida?
POV em terceira pessoa
Enquanto isso, bem no coração da Alcateia Moonstone…
O orbe de cristal tremeluzia ao ganhar vida, e seu brilho azul-pálido projetava sombras pela câmara de pedra.
O Alfa Alaric ficou paralisado, a mão pairando a poucos centímetros da superfície do orbe. Ao lado dele, seu filho, Cassian, puxou o ar num suspiro curto.
“É ela”, Cassian murmurou, a voz apertada de incredulidade. “Depois de todos esses anos…”
Alaric assentiu devagar, sem tirar os olhos da luz que mudava. A princesa desaparecida, sua filha, havia reaparecido.
E não em qualquer lugar. Ele conhecia aquela alcateia...
O território do Alfa Nolan.
A mesma alcateia onde a princesa deles estava — bem ali!
