Capítulo Um, A bagunça da minha vida
POV da Gemma
— Vai pro seu quarto agora, sua vira-lata idiota! — Richard rugiu, enquanto os punhos dele batiam em mim de novo e de novo — no meu rosto, nos meus braços, nas minhas costelas. Em todo lugar onde ele conseguia acertar, ele acertava.
Quando ele terminou, eu era um monte de hematomas, tremendo inteira.
— Por favor, para! Me deixa em paz! Desculpa... por tudo... até por ter nascido — eu chorei, puxando o ar. — Eu não consigo respirar...
Implorar só piorava as coisas.
Richard agarrou um punhado do meu cabelo e me arrastou até a porta do porão. Assim que ele abriu, me empurrou escada abaixo.
Eu me choquei contra o chão de concreto, e a dor explodiu nas minhas costas e no meu crânio quando minha cabeça bateu no chão.
Um grito rasgou minha garganta.
Cada centímetro do meu corpo doía. Meu peito queimava, minha visão embaçava, e respirar parecia impossível. Encolhida, eu fechei os olhos com força e tentei controlar a respiração.
Por que eu sofro assim?
Talvez morrer finalmente me trouxesse paz.
— Por que diabos eu te mantenho viva se você nem consegue limpar direito? — Richard gritou lá de cima da escada. — Você não serve pra nada! Por isso ninguém te quer!
Eu fiquei em silêncio. Responder só ia me render outra surra.
Inferno.
Foi tudo o que a minha vida sempre foi.
Meu nome é Gemma Star. Tenho quinze anos e moro na Matilha Lua de Sangue.
Eu não tenho pais. Nem irmãos. Nem amigos.
Só o meu tio Richard e a companheira dele, Khloe — uma bruxa e uma das pessoas mais cruéis que existem.
Meu “quarto” é um porão imundo, sem nada além de um colchão manchado e um balde que serve de banheiro. Às vezes eu me pergunto que tipo de monstros tratariam alguém desse jeito.
Richard sempre diz que minha família me queria morta — que planejaram me assassinar para que o conselho dos lobisomens nunca descobrisse.
Talvez eu devesse ter sido deixada para morrer.
Pelo menos assim eu teria conhecido a paz.
Gemendo, eu me arrastei pelo chão até o colchão. Eu não tinha permissão para ter uma cama. Eu nem podia subir durante a noite — por isso o balde ficava no canto, ao meu lado.
Eu só tinha permissão para tomar banho três vezes por semana, por quinze minutos. Se eu ficasse um segundo a mais, Khloe me punia.
E as punições dela eram piores do que as do Richard.
Tenho certeza de que às vezes ela usa magia negra nele, mas, sinceramente, não acho que nada pudesse deixar Richard mais malvado do que ele já é.
Deitei com cuidado e estremeci quando uma fisgada de dor atravessou minhas costelas e minha coluna machucadas. Marcas roxas e escuras cobriam meu corpo, tornando impossível encontrar uma posição confortável.
No fim, o cansaço me puxou para a escuridão.
Pareceu que tinham se passado só alguns minutos quando a voz de Richard me arrancou do sono.
— Acorda, sua vadia! Eu quero café da manhã antes de sair!
A dor atravessou meu corpo quando tentei me sentar. Eu me apoiei na parede ao meu lado e esperei a tontura passar antes de me forçar a ficar de pé.
Peguei minhas roupas do chão.
Eu só tinha dois jeans desbotados e duas blusas de manga comprida. Khloe odiava quando eu usava aquilo. Se ela me pegasse com qualquer coisa além do uniforme de empregada que ela comprou pra mim, ela ameaçava queimar minhas roupas.
Como se me humilhar não fosse o bastante.
Eu prendi meu cabelo embolado num coque e escovei os dentes com quase nada de pasta e sem água.
Depois subi as escadas devagar, e cada degrau mandava uma onda de dor pelas minhas pernas e pelas minhas costas.
Quando cheguei à cozinha, Richard e Khloe já estavam comendo.
Richard abriu um sorriso de canto pra mim. — Já que você demorou tanto pra levantar, vai ser punida quando eu voltar pra casa.
O medo se retorceu no meu estômago.
— Eu vou desmaiar — eu sussurrei. — Por favor... eu posso comer ou beber alguma coisa?
As lágrimas embaçaram minha visão.
Khloe bateu a mão na mesa e se levantou. — Eu cansei de te ouvir.
Antes que eu pudesse reagir, ela agarrou meu braço e me jogou pra fora pela porta da frente.
Eu caí com força, ralando o queixo, as mãos e os joelhos. Meu jeans rasgou ainda mais no concreto.
Segurando um grito, eu me pus de pé e comecei a andar devagar em direção à escola.
Cada passo doía.
Mas ficar em casa doeria pior.
Quando cheguei ao portão da escola, o sinal já tinha tocado.
Perfeito.
Os corredores estavam assustadoramente silenciosos quando entrei pelas portas duplas de vidro. Rápido, passei no meu armário para trocar os livros antes de ir para a sala.
Então eu me lembrei de que a primeira aula era com a Srta. Shaw.
Ótimo.
— Você está atrasada de novo, Gemma — a Srta. Shaw disparou no instante em que eu entrei. — Quer explicar o motivo?
Mantive a cabeça baixa e fui em direção à carteira vazia no fundo da sala.
Eu não tinha amigos.
Ninguém ali gostava de mim.
E, sinceramente, eu não sabia por quê.
“Gemma, Gemma, Gemma”, arrastou uma voz debochada.
Um dos irmãos Alfa cuspiu bem na minha cara.
A humilhação queimou por dentro.
Eu me levantei rápido, mas o Alfa mais velho me empurrou de volta para a cadeira.
“A gente ainda não terminou com você”, ele disse, frio.
“Eu só preciso ir ao banheiro”, sussurrei. “Por favor… eu não fiz nada pra vocês.”
O Alfa Jayden riu, enquanto o Alfa Logan agarrou meu cabelo e puxou minha cabeça para trás.
“Você distraiu a gente aparecendo atrasada”, Logan rosnou, com desprezo.
Então o Alfa Asher, de repente, ficou imóvel.
Os olhos dele se fixaram nas cicatrizes ao longo do meu pescoço.
Alguma coisa mudou na expressão dele.
“Esquece”, ele murmurou para os irmãos. “Ela não vale a pena. Vamos embora.”
Os outros trocaram olhares confusos antes de irem atrás dele.
O sinal tocou instantes depois.
“Gemma, você vai ficar depois da aula, de castigo”, disse a senhorita Shaw, ríspida. “E vamos ligar para os seus responsáveis.”
Meu estômago afundou.
Peguei minhas coisas e saí depressa da sala, mas alguém esticou o pé.
Eu caí de cara no chão.
Um estalo horrível ecoou dentro da minha cabeça.
A dor explodiu no meu nariz, e o sangue começou a escorrer pelo meu rosto.
Normalmente, eu nunca chorava na frente deles.
Dessa vez, eu não consegui parar.
“Eca, fica longe da gente!”, Mia gritou. “Você tá espirrando sangue em tudo, sua vagabunda nojenta!”
Ao passar por mim, ela me chutou com força nas costas.
Eu mordi um grito.
Os cortes do Richard ainda estavam abertos por baixo da minha camiseta.
De algum jeito, eu consegui ficar de pé antes de cambalear até o banheiro feminino.
No segundo em que percebi que estava vazio, eu desabei de vez.
Chorei até o peito doer.
Depois de limpar o sangue do meu rosto, notei minha mochila encostada na parede.
Franzindo a testa, peguei-a e vi um bilhete dobrado preso por baixo da alça.
Gemma, achei que você ia querer isso de volta. —Asher
Encarei o bilhete, confusa.
Por que o Asher me ajudaria?
Ele me odiava.
Todos eles odiavam.
Eu ainda lembrava da última vez em que os irmãos Alfa me bateram a ponto de me mandarem pro hospital.
Richard e Khloe tinham ficado furiosos com a conta do hospital.
Percebendo que eu já estava ferrada quando chegasse em casa, decidi não ficar até o fim do dia.
Eu corri.
Ignorando a dor rasgando meu corpo, disparei para fora da escola o mais rápido que consegui.
Quando cheguei ao portão da frente, diminui um pouco—
E trombei em cheio com alguém.
“Meu Deus, me desculpa!”, ofeguei.
A garota riu baixinho. “Tá tudo bem. Pra que tanta pressa?”
Eu pisquei para ela.
Ela era linda, sorrindo com simpatia apesar de eu quase ter derrubado ela.
“Você tá bem?”, ela perguntou, com delicadeza. “Como você se chama? Você não devia estar na aula?”
Havia algo nela que parecia… seguro.
“Meu nome é Gemma”, eu disse baixinho. “E por hoje já deu. Eu só tô indo pra casa.”
Uma mentira.
Mas ela não precisava saber disso.
“Eu sou a Emily”, ela disse, animada. “Sou nova aqui. Minha tia morreu, então minha família se mudou de volta. Hoje foi só a papelada da matrícula.”
Ela sorriu.
“Quer ir caminhando comigo?”
Antes que eu pudesse me impedir, eu assenti.
“Tá.”
A gente mal tinha começado a andar quando uma agonia súbita explodiu nos meus braços.
Eu gritei e desabei de joelhos.
Parecia que minha pele estava pegando fogo.
“Por favor, faz parar!”, soluçei, arranhando as mangas.
Emily se agachou ao meu lado, em pânico. “Gemma—o que tá acontecendo?”
Com as mãos tremendo, eu puxei as mangas para cima.
Palavras estavam se queimando na minha pele.
VOLTE PRA CASA AGORA
Emily encarou, horrorizada. “Quem tá fazendo isso com você?”
“A companheira do meu tio”, sussurrei. “Ela é uma bruxa. Ela tá me punindo porque eu saí da escola.”
Foi a última coisa de que eu me lembro antes de a escuridão me engolir por completo.
Quando abri os olhos de novo, percebi que alguém estava me carregando.
Eu congelei.
Alfa Asher.
O pânico subiu como uma onda e eu me soltei na hora, quase desabando quando meus pés tocaram o chão.
“Gemma, para”, Asher disse com cuidado. “A gente não vai te machucar.”
Como se eu fosse acreditar.
Eu me virei para a Emily. “Eu preciso ir. A gente se vê por aí.”
E então eu corri.
Porque, se a mensagem da Khloe tinha aparecido na minha pele…
Significava que eles estavam me esperando.
E, de algum jeito, eu sabia que eu não estava mais sozinha.
Alguém estava me seguindo.
