Capítulo 3
Na manhã seguinte, Richard, de forma incomum, voltou para casa carregando uma gaiola de bichinho.
Ele foi até Leo, assumindo um ar paternal meio automático: “Leo, me desculpa por não ter conseguido ver sua apresentação ontem. Isso aqui é um presente pra comemorar.”
Leo olhou para mim, os olhos brilhando de surpresa. Eu assenti de leve, encorajando.
Leo correu imediatamente até o sofá e pegou a almofada massageadora que ele tanto prezava. Ele a ofereceu a Richard com as duas mãos, gaguejando: “E-eu... eu também tenho um presente pro senhor! Eu ganhei isso num concurso. Seu pescoço vive doendo, então eu quis te dar!”
Mas Richard, ainda com a gaiola na mão, parecia impaciente e só lançou um olhar rápido para a almofada barata: “Tá bom, coloca na mesa, obrigado.”
Leo baixou as mãos, abatido, mas ao ver a gaiola voltou a encará-la com expectativa.
Era uma gaiola com hamsters correndo por entre as lascas de madeira.
O rosto de Leo ficou pálido na hora. Ele cambaleou dois passos para trás, tremendo, e se escondeu atrás de mim. Eu me coloquei rapidamente na frente dele, e o último resquício de calor no meu peito congelou.
Richard franziu a testa. “O que foi? Por que esse menino é tão medroso?”
Eu encarei ele com frieza. “Você esqueceu que, quando o Leo tinha cinco anos, o hamster que você comprou sem pensar na pet shop do bairro veio com um vírus e morreu em poucos dias? O Leo chorou tanto segurando o hamster morto que desidratou e acabou no pronto-socorro. Você esqueceu isso tudo?”
Os músculos do rosto de Richard endureceram; ele abriu a boca, mas não disse nada.
Sim. Ele nem ligava para as lágrimas do próprio filho, então como lembraria de uma “coisa tão boba”?
Naquela tarde, Richard me chamou para uma sala de reunião vazia na empresa.
“Os canos do apartamento da Chloe estouraram de vez. Ela precisa de um lugar pra ficar por uns quinze dias”, ele disse, como se fosse óbvio. “Quero que ela fique na nossa casa temporariamente. Você leva o Leo pra um hotel por enquanto.”
Eu achei que tinha ouvido errado. “Como eu decidi esconder meu estado civil na empresa, eu devia ter mantido isso em segredo até o fim. Ela não tem pra onde ir agora e, se descobrir que eu tenho esposa e filho em casa, isso vai manchar minha reputação.”
“Então a sua solução é expulsar de casa sua esposa de seis anos e seu filho que acabou de ganhar um prêmio?” Eu achei quase absurdamente ridículo.
Ele perdeu a paciência: “Isso é só uma coisinha. Desde quando você ficou tão histérica e sem noção?”
“Tudo bem.” Eu assenti, calma. “Eu arrumo minhas coisas e saio hoje à noite.”
Richard hesitou por um instante, e a testa dele foi relaxando aos poucos: “Quando você voltar, eu te levo pra tirar férias no Havaí.”
Naquela noite, Leo e eu mal tínhamos arrastado nossas malas até a entrada do prédio quando demos de cara com Chloe, de braço dado com Richard.
Chloe pareceu surpresa: “Claire? Você mora nesse prédio também?”
“Ela é minha vizinha.” Richard me cortou friamente antes que eu pudesse responder.
Eu nem me dei ao trabalho de explicar e estava prestes a puxar Leo até um táxi quando algo que Chloe segurava me feriu os olhos.
Era a almofada de pescoço do Leo.
“Ah, esse presentinho que eu peguei emprestado desse menininho é tão fofo.” Chloe sacudiu a almofada massageadora na mão, brincalhona. “Richard, essa almofada que você me deu no carro é ótima, meu pescoço nem tá doendo.”
O ar ficou mudo na mesma hora.
A mãozinha de Leo tremeu forte dentro da minha. Ele encarou fixo o prêmio pelo qual tinha decorado falas com tanto esforço, o que ele queria dar ao pai, e lágrimas grandes caíram no asfalto.
O rosto de Richard ficou lívido. Ele finalmente se deu conta do que tinha entregue à Chloe, sem pensar.
“Leo...” Ele deu um passo à frente, em pânico.
“Não encosta nele.” Eu afastei a mão dele com frieza, me agachei, peguei Leo no colo e cobri os olhos dele. “Fica com o seu.”
Eu não olhei mais pra ele e entrei num táxi com a bagagem. No instante em que o vidro subiu, eu vi Richard parado, travado no lugar, com os olhos cheios de um pavor e um arrependimento enormes.
Mas isso já não importava.
Naquela noite, voltei à empresa e deixei o acordo de divórcio assinado no lugar mais visível da mesa dele. Ao lado estava a agenda de luxo, toda preenchida, cheia de registros de jantares e compromissos de trabalho — mas, de forma gritante, “aniversário do Leo” não estava em lugar nenhum.
“Claire? Trabalhando até tão tarde?” perguntou a faxineira do turno da noite, surpresa.
“Não.” Eu sorri. “Eu pedi demissão e vim só pegar minhas coisas.”
Olhando para o escritório em que eu tinha passado seis anos, eu soube que tudo ali finalmente já não tinha mais nada a ver comigo.
Na sala de embarque do aeroporto, Leo, segurando a mochilinha, perguntou: “Mamãe, a gente vai mesmo embora de Nova York?”
“Vai, sim.” Eu olhei bem para ele. “Você vai se arrepender, Leo?”
Ele balançou a cabeça com firmeza: “Não. Meu lar é onde a mamãe estiver.”
Eu engoli o choro e, antes de embarcar, bloqueei todos os contatos do Richard, desaparecendo completamente do mundo dele.
