Ela Partiu como Dona de Casa. Voltou como uma Lenda.

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Capítulo 2 Ele não quer ir comigo

Charles estava prestes a dizer alguma coisa quando o celular dele tocou.

No instante em que ele pegou o aparelho, Seraphine viu o nome na tela.

Era uma ligação da Vivian.

Charles atendeu. O que quer que tenham dito do outro lado fez a expressão dele mudar na hora.

— Entendi.

Depois de desligar, ele olhou para Seraphine.

— A gente conversa sobre isso quando eu voltar.

E, com isso, saiu sem olhar para trás. Seraphine acompanhou com os olhos a silhueta alta e ereta dele, com o rosto tranquilo.

Charles tinha muitas qualidades — era alto, bonito e bem-sucedido na carreira.

Mas os defeitos dele eram tão evidentes quanto as qualidades.

Ele era arrogante, egoísta, só amava a Vivian e tinha o hábito de ignorar tudo o que Seraphine fazia por ele.

Antes, ela ainda tinha expectativas em relação a Charles, então conseguia aguentar as alfinetadas e o desprezo dele. Mas agora, ela não ia mais ceder.

Dessa vez, ela ia viver por si mesma.

Naquela mesma noite, Seraphine arrumou as malas e saiu de casa.

O vento da noite estava gelado e, em algum momento, tinha começado a chover lá fora.

Ela ergueu o rosto e piscou. As gotas de chuva caíram no rosto dela, e ela sentiu o frio entrando nos ossos.

Sete anos antes, quando chegou, ela tinha uma mala. Nunca imaginou que, sete anos depois, quando fosse embora, ainda teria só uma mala.

Ela baixou os cílios. O aplicativo de corrida no celular ainda mostrava que nenhum motorista aceitava a solicitação.

Quando finalmente chegou à casa da melhor amiga, estava encharcada da cabeça aos pés.

Nicole Griffin parou por um segundo, congelada, e então puxou Seraphine para dentro.

— Meu Deus, o que aconteceu com você?

Seraphine contou sobre o divórcio.

Nicole ficou em silêncio por um bom tempo, os olhos ficando vermelhos.

— O Charles é um canalha! Você teve o filho dele, cuidou dos pais dele, cuidou da casa… e é assim que ele te trata?

Depois, ela segurou a mão de Seraphine, preocupada.

— E o Sean? Quem fica com a guarda do Sean?

Seraphine baixou o olhar.

— Ele vai ficar com o Charles, naturalmente.

— Você consegue mesmo deixar ele ir? — Nicole perguntou, sem aceitar. — Você teve um parto tão difícil quando ele nasceu, e todos esses anos, enquanto o Charles vivia ocupado com a carreira, era você que cuidava dele. Por que o Charles deveria ficar com a guarda?

— Porque ele não quer vir comigo.

Seraphine sorriu, amarga.

— Agora, no coração dele, só existe a Vivian.

Nicole apertou os lábios, ainda discordando.

— Criança fica confusa por um tempo. Mas você é a mãe de verdade dele.

Dessa vez, Seraphine não respondeu. De repente, ela se lembrou de quando cuidava do Sean.

Sean tinha um problema cardíaco congênito, então, fosse na alimentação ou na rotina do dia a dia, ela mesma cuidava de tudo, com medo do menor erro.

Antes, Sean gostava de se aninhar nos braços dela, dizendo que ela era tão boa com ele.

Mas já fazia muito tempo que os dois não tinham uma conversa de verdade.

Nesse momento, o celular dela tocou.

Era o Sean. Ao ver o nome na tela, o coração de Seraphine deu um salto.

Será que ele tinha percebido que ela não estava em casa e ligou para saber como ela estava?

Seraphine atendeu.

— Sean, por que você ainda não está dormindo?

— Eu tô na casa da Vivian. — Quando Sean mencionou Vivian, a voz dele veio cheia de empolgação. — A Vivian tem um monte de comida gostosa na casa dela!

O coração de Seraphine afundou de vez.

— Mãe, eu ouvi o papai e a Vivian conversando agora há pouco.

Sean disse, sério:

— A Vivian tava chorando. Ela disse que você perdeu a cabeça porque tá com ciúme dela. Disse que você copiou o trabalho dela e que a peça que ganhou prêmio foi desenhada por ela.

Seraphine apertou o celular com força.

— E você? Você acha que eu acusaria alguém injustamente?

Houve alguns segundos de silêncio do outro lado.

— Mãe, a Vivian é muito talentosa. Você fica em casa todo dia, cozinhando pro papai e pra mim. Como você ia saber desenhar joia? — A voz inocente de Sean estava carregada de raiva. — Mãe, você pode, por favor, parar de implicar de propósito com a Vivian?

As palavras de Sean eram como uma faca cega, abrindo o coração de Seraphine.

Ele era mesmo filho do Charles — na hora de escolher, os dois escolhiam do mesmo jeito.

Ela queria dizer que também já tinha sido uma designer de joias talentosa.

Mas as palavras chegaram aos lábios e não saíram.

Que sentido tinha explicar tudo isso para uma criança de seis anos?

Ele já tinha o próprio julgamento: achava que a Vivian, que dava bloquinhos de montar, era boa, enquanto a mãe, que colocava limites e disciplinava de verdade, era ruim.

— Sean, se cuida a partir de agora. O médico disse que você não pode comer besteira, não pode dormir tarde e não pode...

— Eu sei!

Antes que Seraphine terminasse, Sean a interrompeu do outro lado da linha, impaciente.

— Mãe, você é sempre assim. Chata, enchendo o saco, falando sem parar. A Vivian nunca fala essas coisas!

E desligou.

O sinal de linha muda ficou apitando no ouvido dela por um bom tempo, até Seraphine baixar o celular devagar.

Talvez ela realmente pegasse no pé.

Mas, em breve, não haveria outra chance como aquela.

Nicole olhou para ela e perguntou com cuidado:

— O que o Sean disse?

Seraphine balançou a cabeça, com a garganta travada demais para conseguir falar.

Depois de não saber quanto tempo, a dor no peito finalmente aliviou um pouco.

— Nicole, eu quero voltar a trabalhar com design.

Os olhos de Nicole brilharam.

— Isso é ótimo! Você devia ter feito isso há muito tempo. Na época em que você ganhou aquele prêmio internacional, os jurados te chamaram de um gênio do design. Se você não tivesse casado...

Ela parou de repente, percebendo que tinha falado demais.

Mas Seraphine riu, num tom de deboche consigo mesma.

— Talvez. Mas eu escolhi esse caminho. Não dá pra culpar mais ninguém.

Depois que teve o Sean, ela abriu mão da carreira.

Olhando agora, sete anos de casamento não tinham trazido nada além de um desgaste sem fim.

Nesse instante, Seraphine recebeu uma mensagem do banco avisando que o cartão tinha sido bloqueado.

Ela encarou o texto por alguns segundos e, de repente, riu.

— O que foi? — Nicole perguntou.

— O Charles. — Seraphine respirou fundo. — Ele bloqueou meu cartão.

Nicole arregalou os olhos.

— O que ele quer dizer com isso?

— É simples. — Seraphine guardou o celular. — Ele quer que eu pense melhor e volte.

— Ele acha que, te cortando o dinheiro, você vai voltar obediente? — O rosto de Nicole ficou vermelho de raiva. — O que ele acha que você é?

Seraphine nem ela sabia.

— Não importa. Eu nem estava planejando gastar o dinheiro dele.

Ela tinha as mãos. Essas mãos já tinham desenhado projetos que deixaram o mundo impressionado. E ainda podiam.

Depois que se instalaram, Nicole percebeu que ela estava abatida e sugeriu:

— Amanhã é fim de semana. Deixa eu te levar pra comer fora. Tem um restaurante novo no centro que é muito bom!

Seraphine assentiu.

Na noite seguinte, as duas foram ao restaurante.

Um garçom as levou até a mesa reservada. Assim que se sentaram, ouviram uma voz familiar.

— Parabéns por ganhar o prêmio de ouro.

Era a voz do Charles.

O corpo inteiro dela travou. Seraphine virou o rosto.

Não muito longe, Charles, Sean, Vivian e várias amigas dela estavam sentados juntos.

A mesa estava cheia de pratos sofisticados e, no centro, havia um bolo com a frase: Parabéns, Vivian, pelo seu prêmio!

Eles estavam ali como uma família de verdade.

Sean comia caranguejo e falava com a boca cheia:

— A Vivian é a melhor! Minha mãe nunca deixa eu comer essas coisas!

Vivian perguntou sorrindo:

— E aí, você gosta mais de mim ou da sua mãe?

— Claro que eu gosto mais de você! — Sean respondeu sem hesitar. Então a cabecinha dele baixou. — Eu queria que você fosse minha mãe.

Vivian não disse nada. Ela olhou para Charles.

— Charles, você também acha isso?

Depois de um momento de silêncio, Charles assentiu.

O peito de Seraphine pareceu ser apertado por um arame. A dor tirou a cor dos lábios dela.

Talvez o olhar dela estivesse intenso demais. Charles olhou na direção dela.

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