Capítulo 2
Houve uma breve pausa na linha, depois o farfalhar de papel. “Entendido.”
Encerrei a ligação. A tela ficou preta, refletindo o espaço morto e oco que acabara de engolir meu coração. Meus dedos apertaram o celular até os nós ficarem brutalmente brancos, lutando contra o impulso violento de arremessá-lo contra a parede de concreto.
A bile subiu pela minha garganta, me sufocando. O homem que me esperava lá fora não era meu salvador; era o arquiteto do meu inferno em vida.
Por um segundo selvagem e ofuscante, tive vontade de invadir o salão de banquetes, pegar uma faca de prata de cortar carne e cravá-la direto naquele rosto hipócrita e sorridente.
Não. Para cortar a garganta do monstro, eu precisava dormir na cama dele. Precisava ser a presa perfeita e agradecida até que a armadilha se fechasse sobre ele.
Engolindo o gosto metálico de sangue do meu lábio mordido, forcei minhas mãos, que tremiam violentamente, a se acalmarem. Respirei fundo, num fôlego trêmulo.
Fiquei diante do espelho no vão da escada e arrumei a maquiagem borrada aos poucos.
No reflexo, eu estava ali com meu vestido de noiva e o colar de pérolas no pescoço, usando um sorriso suave e sereno. Perfeito. É exatamente assim que eu preciso estar.
Empurrei a porta corta-fogo e saí. William imediatamente me puxou para os braços dele, exalando álcool. “Querida, amanhã vamos para as ilhas na nossa lua de mel. As Maldivas. Animada?”
“Estou.” Curvei os lábios num sorriso. “Qualquer coisa que você escolher está bom para mim.”
Ele se inclinou e depositou um beijo gentil no topo da minha cabeça, claramente satisfeito.
Enquanto o avião cortava as nuvens, William e Aurora estavam sentados na frente, conversando e rindo alegremente. Eu me acomodei sozinha junto à janela, na classe executiva, e fechei os olhos. O rosto encovado do velho Sr. Sinclair em seu leito de morte continuava surgindo na minha mente.
“Selene, devo a minha vida ao seu pai.”
Ele tinha apertado minha mão, com a respiração fraca e irregular. “Meu testamento já está pronto. Se aquele meu filho inútil algum dia trair você ou quebrar a palavra dele, cada ação que possuo no Grupo Sinclair será sua.”
“Minha querida, nossa família lhe deve ao menos isso.”
Na época, desabei em lágrimas e disse a ele que não queria nada daquilo. Tudo o que eu desejava era que ele sobrevivesse. Agora percebo que o velho já enxergava através do próprio filho havia muito tempo.
O avião pousou, e uma brisa salgada do mar nos envolveu.
Aurora entrelaçou o braço no de William e saiu andando à frente. Ela olhou para trás com um sorriso. “Selene, você não se importa de eu vir junto, né? William disse que estava preocupado que você fosse ficar entediada, então me pediu para te fazer companhia.”
“Nem um pouco.” Arrastei minha mala atrás de mim, observando a mão de William repousada com firmeza na cintura dela, sem se mover nem um centímetro.
Uma onda de tristeza bateu no meu coração, mas eu a reprimi no mesmo instante.
Aurora não perdeu tempo em causar problema já na primeira noite.
William tinha ido tomar banho. Ela se enroscou no sofá, mexendo no celular, e de repente ergueu os olhos. “Ei, ouvi dizer que tiraram toda a sua roupa quando você foi sequestrada. É verdade?”
Mantive o rosto impassível e fiquei em silêncio.
— Uau, calma, eu só estava curiosa! — Ela piscou, batendo os cílios. — Pelo menos o William não guarda isso contra você, né?
Na manhã seguinte, no café da manhã, William mal tinha se sentado quando os olhos de Aurora se encheram de lágrimas.
— William, eu errei em vir para cá? A Selene não fala uma palavra comigo. Ela me odeia?
William se virou para me olhar, e o calor no olhar dele sumiu num instante. — Selene, a Aurora veio de tão longe para te fazer companhia na nossa lua de mel. Por que você está tratando ela com frieza?
Pousei o garfo. — Eu não estou.
— Não está? — Ele soltou um resmungo frio. — Você me acha idiota? Você nunca foi tão amarga e de língua afiada antes. O que deu em você?
Na terceira noite, um grupo de amigos encostados do William arrastou ele para fora para beber. Morrendo de tédio, Aurora reuniu todo mundo na sala da vila para assistir a um filme.
— Gente, olha uma coisa divertida que eu achei. — Ela tirou um tablet, com um sorriso doce.
A tela se acendeu.
Nela, havia uma mulher vendada, com as mãos amarradas atrás das costas e uma mordaça enfiada na boca. Ela se encolhia no chão, tremendo. Alguém puxava as roupas dela, e ela gritava. Um tapa estalou no rosto dela, e ela se retorceu, soluçando sem controle.
Assobios ecoaram pela sala.
— Ela tem um corpão — gritou um homem, animado. — Quem é essa garota, afinal?
Aurora inclinou a cabeça. — Sei lá. Uma amiga me mandou, disse que era coisa pesada.
Na tela, mãos grosseiras percorreram o rosto da mulher e depois desceram, agarrando o peito dela. Ela se debatia, implorando repetidas vezes com uma voz rouca, irreconhecível.
Eu conhecia aquela voz.
Era a minha.
Minhas mãos começaram a tremer violentamente.
— Uau, ela está chorando de dar dó — Aurora riu. — Espera só até ver o que acontece depois… fica ainda melhor.
Eu me atirei para frente para arrancar o tablet dela.
Aurora torceu o pulso no último segundo. Errei completamente e despenquei no tapete. Ela ergueu o tablet bem alto, acima da cabeça, a tela ainda brilhando. Eu encarei minha própria figura desgrenhada, com lágrimas escorrendo pelo rosto, exposta para todo mundo ver.
— Selene, por que você está chorando? — Ela olhou para mim com uma expressão perfeitamente inocente. — Espera… é você na tela?
A sala ficou completamente muda por um instante.
Então alguém caiu na gargalhada. — Ah, não… sério?
Meu rosto queimava, como se eu tivesse levado tapa atrás de tapa. Eu estava estirada no tapete, os dedos cravados com força no tecido. Eu até ouvia o estalo seco das minhas unhas quebrando.
— Não… — eu ofeguei, as palavras mal conseguindo passar pela garganta. — Desliga… por favor, desliga.
Aurora levou uma mão à boca, fingindo choque. — Ai, meu Deus, é você mesmo! Desculpa, eu não fazia ideia—
O tablet continuou ligado. Eu ouvi meus próprios gritos apavorados ecoando pelos alto-falantes. Mais assobios vieram do grupo, homens zombando, dizendo que aquela filmagem era emocionante. Meus dentes batiam sem controle.
Nesse exato momento, a porta da frente se abriu de supetão.
