Capítulo 2
—Srta. Brooks, o advogado da outra parte já está pronto. Só precisamos da sua assinatura para finalizar a aquisição de 300 milhões de dólares.
Mantive a caneta Montblanc suspensa sobre o contrato.
Então, meu celular vibrou. Uma única mensagem, desesperada, de Dean Morrison, o tutor de Lucas, piscou na tela: Venha para a escola agora. Lucas destruiu a escultura de formatura de um aluno do último ano. Os pais chamaram a polícia. Estamos redigindo a expulsão dele.
—Adiem a assinatura —eu disse, levantando de supetão.
—Stella, você tem certeza? —meu sócio sênior bateu as mãos na mesa. —Se você sair agora, o negócio desanda! Você vai perder a sociedade!
—Eu disse para adiar.
Peguei meu casaco e corri para a chuva torrencial.
Quando empurrei as portas do ateliê de escultura, a cena era um desastre. Mármore estilhaçado e gesso serrilhado cobriam o chão.
Um aluno do último ano sangrava na testa, e a mãe dele gritava histericamente com os policiais.
Lucas estava sentado com displicência num banquinho no canto. Os nós dos dedos estavam em carne viva e sangrando, mas o rosto dele era uma máscara de total indiferença.
—Seu lixo rico e mimado! —A mãe avançou quando me aproximei, apontando um dedo trêmulo bem no meu nariz. —Meu filho trabalhou nessa peça por um ano! Eu quero ele na cadeia! Eu quero ele expulso!
—Senhora, por favor... —comecei.
—Cala a boca! Você é só uma advogada gananciosa! —ela cuspiu, arremessando um punhado de esboços arruinados bem na minha cara.
A borda afiada do papel cortou minha bochecha. Uma gota fina de sangue escorreu pela minha mandíbula.
No canto, Lucas ergueu a cabeça num tranco. Os olhos cinzentos se arregalaram, fixos no sangue no meu rosto. Ele chutou o banquinho para longe de repente, cerrando os punhos com força enquanto dava um passo furioso à frente.
Eu me coloquei diretamente na frente dele, bloqueando-o da multidão.
Não limpei o sangue. Inclinei o tronco e fiz uma reverência profunda, perfeita, de noventa graus.
—Sinto muitíssimo —eu disse, com a voz firme, mas alta o bastante para todos ouvirem. —Assumirei total responsabilidade por todos os danos.
Nas duas horas seguintes, meu orgulho foi completamente estraçalhado no escritório apertado do diretor.
Sorri em pedido de desculpas enquanto me xingavam. Assenti enquanto me humilhavam.
Passei um cheque pessoal de 150 mil dólares como compensação imediata à família. Assinei uma garantia legal draconiana, comprometendo-me com o comportamento futuro de Lucas. Por fim, prometi uma “doação” de 500 mil dólares para um novo laboratório de impressão 3D, para impedir que o diretor assinasse a ordem de expulsão.
Quando saí do prédio da administração, minhas pernas pareciam de chumbo.
Lucas estava encostado na parede de tijolos do lado de fora, um cigarro pendendo dos lábios.
Aproximei-me e entreguei a ele o comprovante de readmissão. —Vá à enfermaria e faça um curativo na mão. Não falte à aula da tarde.
Ele não pegou o papel. Deu uma tragada lenta no cigarro e soprou a fumaça diretamente no meu rosto.
— Gostou do show, Stella? — ele zombou, a voz pingando veneno. — Fez você se sentir uma santa? Concordando com a cabeça e se curvando feito um cachorro só pra comprar minha saída?
— Lucas, chega.
— Não, não chega! — Ele deu um passo à frente de repente. — Você adora isso, não adora? Adora bancar a salvadora com o nosso dinheiro! Só quer mostrar pra todo mundo o quanto eu sou patético, pra ter a desculpa perfeita pra manter um controle rígido sobre o poder da minha família!
— Você é só uma velha controladora, faminta por poder — ele cuspiu, a voz afiada como lâmina.
— Só vai pra aula, Lucas — eu disse, baixinho. Sem lhe dar outro olhar, virei as costas e caminhei direto para dentro da névoa fria e úmida.
Lucas ficou paralisado, observando a figura esguia dela desaparecer.
No segundo em que o carro dela arrancou, toda a bravata se esvaiu do corpo dele, substituída por uma onda sufocante de auto-ódio.
Droga.
Ele encarou as próprias mãos trêmulas. Tinha visto o corte de papel sangrando na bochecha pálida dela. Tinha visto ela curvar a coluna e se humilhar diante de uma sala cheia de zés-ninguém só para mantê-lo fora da cadeia.
Por que eu sempre faço isso? pensou, chutando a parede de tijolos com violência até os nós dos dedos, em carne viva, latejarem.
Eu só queria limpar aquele sangue do rosto dela. Queria dizer obrigado. Mas no instante em que ela me olhou com aquela máscara sem emoção, eu precisei rasgar aquilo. Eu precisava ver se ainda conseguia fazer ela sentir alguma coisa... qualquer coisa.
— Stella...
Todo mundo em Nova York acha que eu sou viciada na riqueza da família Scott.
Eles não sabem que, cinco anos atrás, num dia chuvoso como este, meu mundo inteiro desabou.
Foi no dia seguinte ao funeral de Elias. Eu estava sentada no meu apartamento escuro, entorpecida até os ossos, quando meu médico ligou.
— Senhorita Brooks, como seu noivo faleceu, precisamos atualizar o contato de emergência no seu prontuário de transplante de rim.
Minha respiração travou. — Que prontuário de transplante?
— O... o rim que a senhorita recebeu três anos atrás, no seu terceiro ano da faculdade. Elias Scott foi o doador anônimo. Ele ordenou expressamente que mantivéssemos isso em segredo da senhorita.
Eu não me lembro de como cheguei à mansão da família Scott naquele dia.
Quando cheguei, a propriedade grandiosa era uma zona de guerra. Elias estava morto. O Sr. Scott tinha sofrido um colapso mental completo.
Os tios e primos gananciosos tinham descido como abutres, dilacerando a empresa, exigindo a liquidação dos bens.
E, do lado de fora, sob a chuva gelada, impedido de entrar na própria casa, estava Lucas, de dezesseis anos.
Ele estava encharcado, tremendo violentamente. Ergueu o olhar para mim. A chuva colava o cabelo escuro à testa.
Naquele momento, meu coração parou de bater.
Aqueles olhos cinzentos marcantes. Aquele maxilar teimoso. Era exatamente o mesmo rosto de Elias.
Eu atravessei a lama, abri meu guarda-chuva e o segurei sobre a cabeça dele.
— Venha comigo — eu tinha dito. — Eu vou ajudar você a proteger as coisas do seu irmão.
