O Chamado.
Isabel sempre teve a sensação de viver numa realidade diferente da das pessoas ao seu redor. A família dela não a entendia e muitas vezes a tratava como uma criança esquisita e sonhadora, que passava tempo demais perdida no próprio mundo. Mas Isabel sabia que a vida tinha muito mais do que os olhos alcançavam. Ela enxergava o mundo em cores vibrantes, intensas, e conseguia sentir a energia do universo pulsando à sua volta.
Desde pequena, os dons de Isabel a destacavam das outras crianças. Enquanto as demais se contentavam em brincar com bonecos, carrinhos e jogos, Isabel se interessava muito mais em explorar os mistérios do universo. Com frequência, ela se embrenhava no mato, conversando com as árvores e com os bichos que viviam ali, sentindo uma ligação profunda com a terra e com a natureza.
A aparência única dela já chamava atenção, com traços que pareciam quase de outro mundo. Isabel tinha cabelos longos, dourados e cacheados, caindo em anéis perfeitos ao redor do rosto de anjo, e olhos de um azul cristalino, brilhando com uma curiosidade inocente. A pele era de um marrom dourado profundo, com um brilho natural que sugeria a aura radiante que a envolvia.
Apesar da pouca idade, Isabel se portava com uma graça e uma confiança que desmentiam o quanto era jovem. Havia nela algo etéreo, como se fosse um ser vindo de outro reino. As roupas dela eram sempre enfeitadas com desenhos detalhados e cores vivas, como se refletissem as cores e as energias que ela via no mundo ao redor. Ela preferia vestidos longos e soltos, que rodopiavam na altura dos tornozelos quando caminhava, dando a ela a aparência de uma fada, um serzinho do mato.
Os olhos, porém, talvez fossem o traço mais hipnotizante. Eram grandes e redondos, com uma inocência e um encantamento raros em alguém tão novo. Quando Isabel olhava para alguém, parecia enxergar direto a alma, com um olhar ao mesmo tempo intenso e sereno. Os olhos dela guardavam uma sabedoria e uma profundidade muito além da idade, como se ela já tivesse vivido muitas vidas.
Apesar da beleza, Isabel nunca usou a própria aparência para chamar atenção ou impressionar os outros. Em vez disso, permanecia humilde, com os pés no chão, sempre voltada para seus dons espirituais e para a conexão com o universo. A beleza dela era apenas um reflexo da pureza e da luz que brilhavam por dentro — um lembrete de que existe magia e encanto no mundo, mesmo para uma criança.
Isabel cresceu com uma capacidade inata de perceber o mundo de um jeito que ninguém mais conseguia. Ela via cores vibrantes invisíveis para todos os outros e sentia energias que ninguém ao redor era capaz de notar. Quando criança, conversava com as árvores e os animais que viviam nas matas exuberantes ao redor da pequena cidade, encravada no coração das montanhas. Isabel sentia uma ligação inquebrável com o mundo natural que a cercava, um mundo cheio de magia e deslumbramento.
O ar na floresta era sempre fresco e puro, e o céu tinha um azul profundo que parecia se estender sem fim. Era um lugar onde tudo era possível, onde a imaginação de Isabel podia correr solta. Ela passava horas perambulando por entre as árvores, conversando com elas e sentindo a energia que pulsava dentro de cada uma.
À medida que foi crescendo, Isabel percebeu que a capacidade de enxergar o mundo de um jeito diferente era um dom. Mas, mesmo assim, ela não conseguia explicar direito o que via e sentia. Cores que para ela eram intensas e vivas eram invisíveis para os outros, e as energias que ela percebia eram impossíveis de serem notadas por mais ninguém. A floresta continuava sendo o seu refúgio, e os animais, seus confidentes. Eles a entendiam de um jeito que os humanos jamais conseguiriam.
A imaginação de Isabel continuou a se transformar, e ela passou a ver o mundo de um modo ao mesmo tempo deslumbrante e misterioso. A beleza e a magia da floresta viraram parte dela, e ela carregava isso por onde fosse. Para Isabel, a floresta não era só um lugar, mas uma entidade viva, que respirava, com a qual ela podia se comunicar.
Com esse jeito único de perceber o mundo, Isabel descobriu uma compreensão mais profunda da natureza e uma admiração intensa pelos mistérios do universo. Ela encontrava conforto na energia que corria por tudo ao seu redor e na certeza de que sempre existia mais para descobrir.
Isabel tinha apenas quatro anos quando teve seu primeiro encontro com as auras. Enquanto observava as crianças brincando no parquinho, ela notou um brilho estranho e colorido ao redor delas, cintilando sob o sol. Animada com aquela descoberta, Isabel correu até a mãe e disparou, cheia de empolgação:
— Mamãe, mamãe, olha! As crianças… elas estão brilhando! Você não está vendo?
Mas a mãe, com uma expressão confusa, não via nada do que Isabel via. Ela tratou aquilo como coisa de imaginação fértil, mas Isabel sabia que era real. Ela queria que houvesse alguém capaz de entender o que ela estava vivendo e de dividir com ela aquela empolgação.
Como qualquer criança da idade dela, Isabel não tinha palavras nem compreensão suficientes para descrever o que estava vendo. Ainda assim, ela se lembrava com nitidez de sentir a energia ao redor, por toda parte. Sempre tinha acreditado que todo mundo enxergava auras como ela enxergava, mas logo percebeu que não era assim. Apesar do ceticismo da mãe, Isabel continuou convencida de que as cores que via não eram invenção — elas estavam ali.
A cada dia que passava, o peso de Isabel não conseguir transmitir a profundidade dos próprios pensamentos e emoções ficava maior. Ela ansiava por um jeito de colocar em palavras o caleidoscópio da sua percepção, mas parecia que ninguém conseguia alcançar os tons vivos que ela enxergava no mundo ao redor. Aquela sensação de isolamento a fazia se sentir como uma viajante solitária, incompreendida e à deriva num mar de normalidade.
Quando finalmente conseguiu encontrar palavras para expressar o que tinha vivido, os adultos ao redor foram rápidos em desmerecer o que ela dizia. Disseram que auras não existiam e que ela estava apenas imaginando coisas. Aquilo foi um golpe devastador para Isabel, que sempre confiara que gente grande sabia de tudo.
Foi um ponto de virada na vida de Isabel. Desde pequena, ela aprendeu que as pessoas podiam ser descrentes e ter a mente fechada quando se tratava de experiências que não compreendiam. Foi uma lição que ficou com ela, moldando sua percepção do mundo e de quem a cercava.
A Isabelzinha, antes tão curiosa e de olhos brilhantes, começou a duvidar de si mesma. Ela se esforçava para conciliar o que sabia ser verdade com o que os outros insistiam em dizer. Era uma batalha constante, que ela carregaria por muitos anos. Mesmo assim, apesar das dificuldades, Isabel se recusou a abandonar suas crenças. Ela continuou determinada a encontrar um jeito de dividir suas experiências com outras pessoas e ajudá-las a enxergar o mundo como ela enxergava.
Essas experiências muitas vezes deixavam Isabel com uma sensação de inquietação e uma curiosidade ardente pelo desconhecido, sempre desejando algo a mais, algo além da realidade comum do dia a dia.
Desde cedo, Isabel sabia que o mundo era cheio de magia e encantamento, mas, conforme foi crescendo, descobriu que nem todo mundo estava aberto ao seu jeito único de ver as coisas. Ela via beleza nas menores coisas: no farfalhar das folhas ao vento, no modo como a luz do sol dançava sobre a água. Mas logo percebeu que suas vivências nem sempre eram bem-vindas no mundo “normal” — e aprendeu a guardá-las para si, como segredos preciosos que só ela podia cultivar.
Quando chegou ao ensino médio, Isabel entendeu que, se quisesse sobreviver no mundo real, teria de esconder seus dons e se misturar aos demais. Ela entrou na faculdade, conseguiu um emprego e começou a levar uma vida comum. Mas, no fundo, sempre soube que seu verdadeiro propósito estava em outro lugar, que existia algo a mais esperando por ela.
Só quando esbarrou no chalé isolado no meio da mata é que ela finalmente encontraria sua verdadeira vocação.
Juntar uma pequena fortuna em seis meses depois de se formar na faculdade era um feito e tanto. Mas Isabel nunca foi do tipo que se contenta com o que já conquistou. Ela queria mais, sempre atrás daquela faísca difícil de explicar que a fazia se sentir realmente viva. Por isso, quando o namorado, Brad, pediu que ela se mudasse com ele para uma cidade completamente diferente, Isabel não hesitou em dizer sim.
No começo, era empolgante abrir um novo capítulo da vida ao lado de Brad. Eles só estavam namorando havia três meses antes da formatura, mas Isabel soube desde o instante em que o conheceu que ele era diferente de qualquer pessoa que ela já tinha conhecido. Ele era ambicioso e obstinado, como ela, e a riqueza irritantemente ostentada da família dele só aumentava seu encanto. Juntos, eles eram um casal poderoso em formação.
Isabel se jogou de corpo e alma para ajudar Brad a lançar a startup dele, colocando o coração inteiro no projeto. Era uma aposta arriscada, mas os dois acreditavam no negócio e na capacidade que tinham de transformar aquilo em sucesso. E transformaram mesmo. Em poucos anos, a empresa deles entrou na lista da Fortune 500, e eles viraram celebridades da noite para o dia. Eram o assunto do momento, o casal mais fotografado da cidade, e Isabel não conseguia evitar o orgulho de tudo o que tinham construído juntos. Mas, à medida que a fama e o dinheiro cresciam, ela não conseguia se livrar da sensação de que ainda faltava alguma coisa — algo que ela não conseguia nomear direito.
Quem ela achava que estava enganando? Não era que ela não conseguisse apontar o que era. O problema é que ela tinha ficado sem dedos. Será que ela sempre foi uma pessoa tão difícil? Ela se pegava pensando nisso com mais frequência do que deveria. Brad tinha dado a ela um estilo de vida capaz de fazer até a Meghan Markle morrer de inveja. E por que alguém iria querer fazer parte da realeza britânica? Pareciam todos tão engessados, entediados, sem estímulo nenhum. A fachada de felicidade que tentavam vender não tinha a menor chance contra o vazio e a tristeza escancarados no olhar deles. Por mais clichê que fosse, Isabel acreditava de verdade que os olhos são a janela da alma. E os olhos da realeza pareciam mortos e, às vezes, nem pareciam humanos. Eram frios — daquele tipo de frio que vem de ser de sangue-frio. A essa altura, seria mais fácil convencer Isabel de que eles eram répteis do que gente.
Ela não tinha ficado sem dedos por causa do povo-lagarto. Ela tinha ficado sem dedos porque precisava identificar a raiz do vazio crescente, da insatisfação e da irritação que ferviam dentro dela. Era por isso que ela estava começando a se enxergar como uma puta de uma escrota.
E, à altura de uma escrota de carteirinha, ela não podia correr o risco de ser retratada pela mídia como a escrota que era. Já tinha gente demais odiando-a por pura inveja e recalque. Dá para imaginar a festa que os tabloides fariam quando descobrissem que ela tinha terminado com Brad sem motivo algum além do fato de ele ter dado a ela mais do que ela jamais sonhou — acordar em lugares novos e exóticos em mais manhãs do que acordar na própria cama? O sucesso e a popularidade deles como casal vieram com uma quantidade ridiculamente excessiva de seguidores nas redes sociais, o que os transformou em influenciadores. Ela estava literalmente sendo paga mais do que muita gente ganha em um ano para aparecer vestida com as roupas e joias mais incríveis, ir a uma festa e tirar uma foto com o namorado. Brad não tinha feito absolutamente nada de errado — e, com certeza, não aos olhos da mídia.
