Capítulo 5 Capítulo 5
Nanda cresceu entre conflitos familiares e silêncios que nunca soube decifrar. Talvez por isso jamais tivesse acreditado num amor pleno, desses grandes, que transformam. Vivia ao sabor do momento, rindo das próprias escolhas, fazendo de cada situação um jogo leve para não sentir o peso do que evitava encarar. Assim, ia tropeçando em confusões e deixando para trás corações que nunca soube cuidar.
Para ela, o amor era uma ficção bonita, algo que só existia nas histórias que lia à noite. Até que o destino colocou em seu caminho um sentimento diferente: intenso, épico, impossível de ignorar. Pela primeira vez, Ananda deixou alguém atravessar suas barreiras e tocá-la de verdade. Aprendeu, no peito aberto, que brincar com sentimentos tem consequências, e que amar exige coragem, entrega, verdade.
Mas quando finalmente acreditou que tinha encontrado o amor real, a vida a golpeou sem aviso. A paixão que a ensinou a confiar também a tornou viúva. Entre dor e lembrança, ficou o aprendizado: o amor que ela achava não existir foi real, grande, e mudou tudo, mesmo que por um tempo curto demais.
Capítulo 1 - Parte 2
Ananda, uma atendente de farmácia de 24 anos, solteira e sem grandes amores na bagagem, levava uma vida dedicada ao trabalho e aos estudos. Seus relacionamentos anteriores haviam sido breves e sem grandes marcas.
Há algum tempo, no trabalho, Ananda notou um rapaz com um sorriso largo, corpo definido e pele negra, que irradiava charme. Ele sempre comprava o mesmo remédio para alergia. Certo dia, o item estava em falta, e ela indicou um similar. Ele brincou que, se não fosse bom, voltaria para reclamar. Ananda, com um sorriso, respondeu:
- Pode vir, será um prazer, particularmente!
Ela ainda ousou indicar um creme depilatório, sugerindo que, em caso de dúvida, ele pedisse auxílio à mulher dele. Ele riu e respondeu:
- Que mulher o que, moça? Não tenho não!
Ananda havia o visto antes com uma moça bem jovem e bonita, comprando coisas para ela, e pensou que fosse a esposa ou uma ex. Tirar a dúvida foi um alívio. Ela sempre o achou um "gato", um "pretinho do poder", vaidoso e estiloso – o tipo dela.
Um dia, ele voltou para comprar algo para dor, pois havia se machucado no futebol. Pegou uma pomada e, no caixa, brincou que precisava de ajuda para passar. Ananda entendeu a indireta, mas ficou sem saber o que dizer no ambiente de trabalho. Apenas deu risada. No entanto, junto com o troco, entregou a ele um papel com seu número de celular. Foi ousada. Ele não viu na hora.
Passaram-se dois dias e nenhuma mensagem ou ligação. Ananda ficou desanimada. Carente, sem nenhum "boy" e louca para uns beijinhos, ela, que nunca foi de muitas festas, sempre caseira, vivendo para trabalhar e estudar, se viu em um marasmo. Às vezes ficava com alguém, mas passava meses sem um beijo sequer, pois os rapazes a entediavam.
Por insistência de uma colega de trabalho recém-separada e sem amigas solteiras, Ananda aceitou um convite para sair. Com pena da amiga, as duas foram a uma balada. Ananda vestiu uma calça flare jeans escura e um cropped de renda vinho que parecia um sutiã. Sentindo-se linda e poderosa, caprichou no look. Seu pensamento era claro: "Hoje eu não volto para casa sem ficar com pelo menos uns cinco." Ela saiu "no veneno", querendo beijar muito.
As duas foram no carro da colega. Chegando lá, sentiram-se super deslocadas, sem conhecer ninguém – dois peixinhos fora d'água. Ficaram encostadas no balcão, bebendo e procurando um alvo, de preferência um duplo, naquela velha história de "gostei de você e minha amiga do seu amigo". Como estava difícil!
Alguns rapazes se aproximaram, sempre um feio com um bonito, ou dois feios, nenhum muito interessante. Ananda começou a desanimar. Foram dançar um pouco e viram uma galera em uma mesa com pelo menos quatro gatos, todos bem vestidos, com barba e cabelo arrumados – um espetáculo. Ananda fixou o olhar, escolheu um e disse à amiga para escolher outro daquela mesa.
Voltaram para o balcão, e Ananda ficou encostada, "secando" o rapaz de longe, jogando charme. Logo, eles as perceberam e as convidaram para ir à mesa. Como insistiram, elas aceitaram. Não foi o rapaz que Ananda tinha gostado que a chamou, mas outro. Começaram a conversar e se conhecer.
Duas meninas lindas e super simpáticas se aproximaram. Os meninos as apresentaram. Uma delas era irmã de um deles, justamente do rapaz que Ananda havia gostado. Havia quatro rapazes, as duas meninas, e Ananda e sua amiga. Começaram a pagar bebidas para elas. Todos ali pareciam ser muito bem de vida.
O rapaz que Ananda estava interessada se aproximou e começou a puxar assunto mais diretamente com ela, dando-lhe atenção, conversando e tocando em sua mão e cabelo. Ananda pensou: "Hoje tem!" Aquele chamego todo estava quase levando a um beijo, e ela, fazendo "doce", brincando com o psicológico dele.
Ananda foi ao banheiro para "dar perdido". Quando saiu, ele estava esperando na porta. Sua colega viu e voltou para a mesa sozinha. Ele a levou pela mão para um cantinho e a beijou sem dizer nada. Trocaram beijões demorados. Se Ananda pudesse, teria feito ali mesmo. Adorou a pegada dele, o cheiro, a boca – tudo.
Ele voltou primeiro para a mesa. Ananda foi logo em seguida, depois de retocar a maquiagem. Ao chegar na mesa, deu de cara com o "pretinho do poder", seu cliente gato da farmácia. Ele cumprimentava a todos. Quando a viu, abriu um sorriso lindo e simpático, beijou o rosto dela e a abraçou de leve. As garotas olhavam com curiosidade, com a cara de "o que está acontecendo aqui?".
Ananda ficou sem saber o que fazer ou como reagir. Cumprimentou-o, sorriu, mas se mostrou um pouco mais reservada. Saiu de lado para falar com a colega, disse que estava a fim dele há tempos e que era uma pena ter beijado o outro. O rapaz com quem ela havia ficado a estava devorando com os olhos o tempo todo.
Ananda voltou para a mesa enquanto conversava com o "cliente", Renato, e outro rapaz. Tentou fingir que não estava notando nada, fazendo-se de boba. Na verdade, os dois estavam olhando para ela. Achou meio chato. A irmã do rapaz com quem ela ficou perguntou de onde ela e Renato se conheciam. Ele deu uma risada maliciosa. Ananda respondeu que ele era apenas cliente da farmácia. A garota a olhou com ironia e disse:
- Ata.
Coisas que só mulher percebe: o pouco caso dela com Ananda. Ela passou seu número para uma das meninas que pediu e, sem ninguém ver, passou o número para o rapaz com quem tinha ficado. Ananda queria sair e ir embora sem ninguém perceber, mas seria muito feio e sem educação. Despediu-se de todos igualmente, agradecendo pela companhia. Não deu tempo de nenhum dos dois falar nada na frente de todos. Afastou-se rapidamente.
No caixa, enquanto pagavam a comanda, Ananda sentiu uma mão em sua cintura. Virou devagar, pensando que era o rapaz que havia beijado. Mas não, era o outro, o cliente Renato. Ele perguntou se ela não queria carona. Ananda respondeu que não precisava, que sua colega estava de carro. Ele a acompanhou até a saída e saiu atrás dela.
Ananda perguntou se ele já ia embora. Ele respondeu que "tudo ia depender dela". Ela não tinha coragem de ficar com ele, sendo que tinha ficado com o amigo dele na mesma noite. Isso seria ridículo até para ela. Mas provocar, ela podia. Ele a acompanhou até o carro, conversando numa boa. Sua colega entrou no carro primeiro.
Ele a encostou com tudo, segurou firme em sua cintura, puxando-a contra ele. Ananda virou o rosto com dor no coração. Ele a cheirou no pescoço e acariciou seus cabelos. Ela se arrepiou toda, deu risada, olhou para ele e disse:
- Para, por favor, hoje não dá.
