Desejada pelo Rei da Máfia

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Capítulo 9 Vou ver você dormir

POV da Cherry

Passo a noite no hospital a pedido do meu pai, com a cabeça repassando cada momento — o sorriso de deboche do Macro, o fedor úmido do galpão, e a sombra do Nick cortando tudo aquilo como uma lâmina. Quando acordo na tarde seguinte, estou mais exausta do que descansada. Então meu pai entra e me tira dali quase sem dizer uma palavra.

A volta para casa é sufocante. Arthur segura o volante como se estivesse estrangulando. Nem uma menção ao Nick, exatamente como o Nick tinha prometido.

Em vez disso, Arthur resmunga sobre como vai contar a história para a Mamãe e para a Vovó. Eu sei por que ele está fugindo da verdade. O nome do Nick tem peso — um tipo de peso que eu ainda não consigo entender direito — e o Arthur é orgulhoso demais para admitir que precisou de outra pessoa para limpar a bagunça dele. Por mim, tudo bem. O silêncio me dá espaço para lutar com esse emaranhado de pensamentos sobre o Nick. Eu realmente tenho sentimentos por ele?

Quando a gente chega em casa, Mamãe e Vovó estão esperando. Elas se recuperaram do que passaram com os homens do Macro — pelo menos fisicamente. Arthur emenda a história ensaiada: que molhou a mão de gente certa e salvou o dia. Eu me seguro para não desmentir quando vejo os olhos da Mamãe cintilarem com desconfiança, mas ela não o confronta. Arthur termina e bate as mãos uma na outra. “Brittany, vai começando o jantar. Já tivemos drama demais.”

Aproveito a chance para escapar da sala, indo atrás da Mamãe até a cozinha, fingindo que vou ajudar. Ela olha para mim, as mãos parando sobre a tábua de cortar. “Cherry, o que aconteceu de verdade?”

Eu hesito, torcendo o pano de prato com mais força. “Não… não foi só o pai pagando alguém. Eu… eu liguei pra um amigo. Um novo. Ele me ajudou.”

“Um amigo novo?” A sobrancelha dela se ergue, afiada e certeira. “Cherry, que tipo de amigo gasta esse dinheiro — ou puxa esses contatos — pra te salvar? Esse… é alguém especial?”

O calor sobe pelo meu pescoço. Eu me atrapalho nas palavras, com a cabeça toda embaralhada. “Ele… bom, ele tem insistido comigo. Mais ou menos. Mas eu… eu ainda não sei. Eu falei pra ele que preciso de tempo pra pensar.”

A mão da Mamãe encontra minhas costas. “E como ele é, esse… amigo?”

Fecho os olhos, e o rosto do Nick aparece por trás das minhas pálpebras — aqueles olhos penetrantes, a linha dura do maxilar, o jeito como ele tinha se colocado entre mim e o perigo. “Ele é… poderoso, eu acho. Rico, com certeza. Talvez, se eu… se eu me casasse com ele, ajudasse a gente tanto quanto casar com os Salvatores. Talvez até mais.” Minhas palavras ficam no ar, frágeis e imprudentes.

Antes que ela responda, a voz do Arthur explode da sala de jantar. “Brittany, Cherry, anda com essa comida!”

Mamãe dá um beijo rápido na minha testa. “Depois a gente conversa mais, meu amor.”

O jantar é um campo de batalha disfarçado de refeição em família. Mamãe coloca um pedaço extra de peixe no meu prato com um sorrisinho, mas a Vovó corta na hora. “Brittany, para com isso. A reunião com os Salvatore é daqui a dois dias. Ela precisa cuidar do corpo.”

Eu encaro o prato, com o garfo suspenso, quando meu celular vibra no meu colo. Meu pulso dispara enquanto eu olho de relance.

Nick: [Já pensou sobre isso?]

Eu travo, com o polegar pairando sobre a tela, quando o olhar duro do Arthur me puxa de volta pra mesa.

“Quem te deu permissão pra mexer no celular durante o jantar? É essa a educação que sua mãe te ensinou?” Ele bate a faca e o garfo no prato, o barulho ecoando. “Guarda isso. Agora.”

Minhas mãos tremem enquanto eu me atrapalho para enfiar o celular de volta no bolso. Na pressa, esbarro na minha tigela. A sopa se espalha pela toalha de mesa, escorrendo e infiltrando no tapete lá embaixo. Eu suspiro, caindo de joelhos para tentar absorver a mancha. Mamãe se junta a mim, mas o olhar de desdém da Vovó paira acima de nós. “Olha só essa imundície. Esta é a sua filha.” O pé dela cutuca o lado da Mamãe, um chute mesquinho.

Eu me ergo num impulso. “A culpa não é dela!”

A mão de Arthur se levanta, pairando no ar, tremendo de raiva, mas, em vez de bater, ele me empurra para trás. “Chega! Pro seu quarto e se prepare para a aula de etiqueta de amanhã! Brittany, vem comigo.”

Ele segura o braço dela e a arrasta em direção à escada. Eu vou atrás, tropeçando, o pânico arranhando minha garganta. “Solta ela! Nem pense em machucar ela!”

Arthur se vira num estalo, e a palma dele acerta minha bochecha num tapa ardido. Eu cambaleio, quase despencando os degraus, com o mundo inclinando. “Quem você pensa que é pra se meter nos meus assuntos?”, ele rosna.

Mamãe se solta de uma vez, entrando no meio de nós. “Lembre-se, Arthur, os Salvatores vêm ver ela. Se tiver sequer uma marca no rosto dela, o acordo acaba.”

A mão dele cai, e um sorriso frio entorta seus lábios. “Eles já puseram os olhos nela. Mas você… não comece a achar que vai sumir com a minha filha. Se eles descobrirem que ela desapareceu, você e ela vão pagar caro.”

Eu engasgo num soluço enquanto Mamãe me puxa para perto, me protegendo. Arthur resmunga uma praga e invade o próprio quarto, batendo a porta atrás de si. O peso das palavras dele afunda em mim. Os Salvatores me reivindicaram. Eu e o Nick… somos uma fantasia, nada além disso. Se eu escolher ele, eu arrisco a fúria deles — não só contra mim, mas contra a Mamãe. Eu sei o que preciso fazer.

De volta ao meu quarto, eu digo: “Eu decidi. Vou me casar com um Salvatores. Assim você fica segura.”

Mamãe se vira para mim, com lágrimas brilhando nos olhos. “Não, meu bem. Eu não vou deixar você se sacrificar pela minha segurança.” Ela aperta minhas mãos com força. “Os Salvatores são muito piores do que os Miller. O dinheiro deles está manchado de sangue.”

Eu balanço a cabeça, séria. “Eu sei. É justamente por isso que eu preciso me casar com eles. Você ouviu o que o Pai disse. Se eu não fizer o que eles querem, eles vão vir atrás da gente.”

Mamãe me puxa para um abraço, as lágrimas molhando meu ombro. “Vamos dormir e pensar melhor. Eu vou encontrar outro jeito, eu prometo.”

Mas eu sei que não existe outro jeito. Nossa família está praticamente falida, e eu sou a última moeda de troca deles. E os Salvatores… quem é que teria coragem de enfrentar?

Quando Mamãe sai, eu vejo mais uma mensagem do Nick: [Você está me ignorando?]

Eu respondo curto: [Vou dormir. Te respondo amanhã.]

A resposta dele vem na hora: [Não dorme ainda. Eu não consigo descansar até ter a sua resposta.]

Eu estou emocionalmente exausta demais para os joguinhos dele. Meu rosto ainda arde por causa do tapa do Pai, e a minha decisão já está tomada.

[Você fica acordado. Eu vou dormir.]

[Aí eu vou te ver dormir a noite toda.]

Eu franzo a testa para a mensagem estranha: [???]

[Abre a janela. Eu tô aqui fora.]

Meu coração para. Eu me sento num pulo, atravessando até a janela em duas passadas. Lá, na beirada, está o Nick, com um sorriso largo e imprudente, acenando para mim como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

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