Capítulo 8 Noiva comprada
POV do Nicholas
Solto um suspiro profundo. É exatamente por isso que eu não quero que a Cherry se case com o Vincent. Ele vive se metendo em encrenca. Se a Cherry virasse esposa dele, era bem capaz de ele descarregar nela as frustrações depois de levar algum tombo em outro lugar.
— Qual bar?
Vincent diz um lugar no centro. Encerro a ligação e, na mesma hora, mando o Leo reunir os homens e providenciar os carros até lá.
Eu lidero a comitiva pelas portas. A cena lá dentro é um caos — vidro quebrado, mesas viradas e, no meio, o Vincent encolhido no chão, cercado por um grupo misto de homens e mulheres chutando e gritando com ele.
A nossa entrada muda o clima na hora. A música corta, as conversas morrem, e os agressores congelam no meio do movimento. Vinte e cinco homens de terno invadindo um bar costuma causar esse efeito.
O grupo que estava em cima do Vincent recua, formando uma linha defensiva. No centro deles está uma mulher de cabelo azul-elétrico, a maquiagem borrada do esforço. Atrás dela, alguns caras estufam o peito, tentando bancar os valentes.
— Quem diabos são vocês? — exige a Azulada.
Um dos acompanhantes dela, um brutamontes num terno caro, mas amassado, dá um passo à frente.
— Isso aqui é território dos Rossi. Não importa quantos ternos você traga.
Eu avalio a cena com frieza clínica. Então era isso que tinha feito o Vincent berrar por ajuda? Um punhado de capangas dos Rossi e uma mulher com um senso de moda tão duvidoso quanto o gosto para homens?
Mantenho a expressão neutra enquanto desabotoo o paletó.
— Qual é o problema?
A mulher de cabelo azul aponta, acusadora, para o Vincent, que agora tenta se levantar.
— Aquele pedaço de merda bêbado pegou na minha bunda e tentou enfiar a língua na minha garganta. Quando eu empurrei ele, ele derrubou a bebida no meu vestido e me chamou de puta.
Típico do Vincent. Eu nem me dou o trabalho de olhar para o meu sobrinho.
— A gente só tá ensinando ele a respeitar — acrescenta um dos homens. — Então, a menos que vocês queiram problema com os Rossi, eu sugiro que deem meia-volta.
Meus lábios se curvam no que poderia passar por um sorriso, se não fosse o gelo no meu olhar. Sem aviso, eu me movo. Em um instante, estou com o braço de um deles torcido nas costas, e outro está no chão, de joelhos, arfando depois de levar um golpe no plexo solar. Nenhum dos dois viu de onde veio.
O salão fica em silêncio. Eu solto o primeiro homem com um empurrão e recuo, sem pressa. Do bolso interno, tiro um charuto cubano e um isqueiro de ouro. A chama ilumina meu rosto enquanto eu acendo com calma.
O reconhecimento atravessa os olhos de um deles; o rosto perde a cor.
— S-Sr. Salvatore... eu não sabia que era o senhor...
— Evidentemente. — Dou uma tragada longa e encosto a ponta acesa na bochecha dele. O grito rasga o silêncio enquanto o cheiro de carne queimada se mistura ao tabaco. Antes que alguém reaja, meu pé acerta o joelho dele — o estalo do osso é audível.
Eu me dirijo ao grupo, a fumaça escapando dos meus lábios.
— Digam ao Rossi que, da próxima vez que ele mandar os cachorros dele, é melhor garantir que eles saibam para quais lobos estão latindo.
A mulher de cabelo azul dá um passo para trás, entendendo de repente a gravidade da situação. Os companheiros dela socorrem os feridos; toda a valentia evapora.
Leo se inclina para perto.
— Senhor, devo...?
Eu balanço a cabeça de leve.
— Não é necessário. — Volto a atenção para o Vincent, que agora está de pé, com sangue escorrendo do lábio partido. — Vamos.
A turma dos Rossi se dispersa, se enfiando pelos cantos como baratas quando a luz acende. Eu agarro o Vincent pela gola e o conduzo até a saída.
— Isso aqui é San Laurent, não Chicago — eu murmuro. — Não arrume mais confusão.
Assim que entramos no carro, Vincent tenta esboçar um sorriso, mas acaba parecendo uma careta.
— Tio, obrigado. Quando a gente voltar, por favor, não comenta isso com ninguém...
— Tenho uma coisa pra conversar com você — eu o interrompo. — Sobre a reunião com os Miller daqui a dois dias.
A postura de Vincent relaxa.
— Ah, o noivado. Só uma formalidade, né? Aquela garota... como é mesmo o nome? Cherry, não é? Vi a foto dela. Bonitinha. Vai ser um canarinho legal na gaiola lá em casa.
Eu encaro Vincent, sentindo algo perigoso se mexer dentro de mim.
— Eu comi o seu canarinho.
Vincent pisca, processando minhas palavras.
— Tio, vamos lá, vamos manter a civilidade. Eu sei que chamar ela de canário não é legal, mas você não precisa falar desse jeito—
— Eu transei com a Cherry — eu interrompo, cada palavra medida e clara. — A GENTE TRANSOU.
O queixo de Vincent despenca; um choque genuíno toma o lugar da expressão presunçosa de sempre.
— Tio, você... você transou com a minha noiva? Como você pôde? Ela era pra ser minha!
— Você nem conheceu ela ainda — eu aponto, calmo.
O choque de Vincent rapidamente vira um drama teatral.
— Eu finalmente encontro um bom partido, linda como um anjo, e você... como você pôde fazer isso com o seu próprio sobrinho? Você não tem consciência?
— Dez milhões — eu digo, seco.
Vincent para no meio do lamento.
— Isso não é sobre dinheiro, tio, isso é sobre—
— Vinte.
— Você tá cometendo incesto! Vinte não é o suficiente pra—
— Oferta final. Trinta milhões.
Vincent agarra minha mão na hora.
— Fechado!
Eu preencho um cheque de trinta milhões de dólares como compensação. Vincent pega com uma alegria mal disfarçada, prometendo chamar Cherry de tia daqui pra frente.
— Vou precisar que você entre no jogo na reunião — eu informo. — Faça parecer que você está abrindo mão por vontade própria.
Vincent dá uma fungada, como se os ferimentos de antes já tivessem sido esquecidos.
— Pra quê eu ia aparecer? Você já dormiu com ela. Além disso, aquela garota é só uma moeda de troca mesmo.
Meu olhar vai direto nele.
— O que foi que você disse?
Burro demais pra perceber o perigo, Vincent continua.
— Ué. Eu falei alguma coisa errada? Ou quer que eu conte tudo pra ela? Eu não me importo de comer suas sob—
— A família tem um criadouro de jacarés no Lago Michigan — eu digo, num tom de conversa. — Eu estava pensando se eles não estão precisando de comida fresca.
O rosto de Vincent perde a cor de medo. Ele levanta as mãos, rendido.
Depois de deixá-lo em casa, eu volto pra minha residência temporária, onde Leo me espera com uma pasta.
— Os resultados da investigação sobre a família Miller, senhor.
Eu passo os olhos pelos documentos, minha expressão escurecendo a cada página:
Arthur tinha se envolvido com Jenna, a melhor amiga de Brittany, antes do casamento, e teve um filho chamado Oscar. Depois, de repente, Arthur anunciou o noivado com Brittany, fazendo Jenna cair em depressão. Ela se suicidou estando grávida.
Sharon, agora amante de Arthur, é irmã de Jenna. Depois da morte de Jenna, Oscar foi criado pela família dela. Arthur visitava o filho com frequência e, com o tempo, começou um relacionamento com Sharon, tendo uma filha chamada Candy.
O casamento de Brittany com Arthur, ao que tudo indica, aconteceu por causa da crise financeira da empresa da família dela. Agora a Miller Manufacturing está à beira da falência e afundada em dívidas, desesperada pelo nosso investimento.
Eu fecho a pasta. A história está se repetindo do jeito mais trágico possível. A vida de Brittany foi destruída por obrigações familiares e pelo egoísmo de Arthur. Agora parece que a Cherry está prestes a virar o próximo sacrifício.
Só que desta vez existe uma diferença crucial: eu.
Eu não vou deixar ninguém machucar a Cherry. Nem o pai dela, nem Vincent, nem ninguém.
Agora ela é minha pra proteger.
