Desejada pelo Rei da Máfia

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Capítulo 7 Proposta

POV do Nicholas

Eu vejo a Cherry se encolher ao ouvir a voz do pai, um tremor passando pelos ombros dela. Eu quase consigo sentir o peso do medo que ela carrega, o pavor de encarar o Arthur depois de tudo que ela passou esta noite. Minha mão, por instinto, fica pairando perto do braço dela — uma promessa silenciosa de proteção —, mas eu não toco nela.

— Tá tudo bem — eu murmuro. — Eu falo com ele primeiro.

Por dentro, porém, meus pensamentos se revolvem, mais sombrios. A Cherry não sabe quem eu realmente sou. Revelar minha identidade agora poderia despedaçar tudo. Variáveis demais, riscos demais. Eu preciso conduzir a conversa com o Arthur antes, garantir que ele siga um roteiro que a mantenha no escuro por mais um pouco.

Eu faço um gesto para ela continuar sentada no banco e sigo em direção ao Arthur. Ele está perto do posto de enfermagem, com o rosto misturando irritação e uma preocupação claramente ensaiada, mas eu não dou a ele a chance de falar primeiro. Eu seguro o cotovelo dele e o conduzo até a escada, longe do alcance dos ouvidos da Cherry.

— Sua filha tá bem — eu digo, com a voz seca, fechando a porta atrás de nós com um baque baixo. — Sem sequelas. De nada.

Arthur solta o ar, passando a mão na nuca, e o alívio dele chega a ser teatral.

— Obrigado, senhor Salvatore. O senhor não faz ideia do quanto eu agradeço por ter entrado nessa. Por ter resolvido isso pessoalmente, quer dizer.

Eu não sorrio. Eu não alivio. Em vez disso, eu dou um passo à frente, minha sombra se impondo sobre ele na luz fraca da escada.

— Eu limpei a sua bagunça, Arthur. Essa gracinha com o Macro acabou. Mas já vou te avisando: não inventa mais nenhuma merda dessas. Não deixa a Cherry se machucar de novo. Se ela sequer ralar o dedo do pé por causa da sua negligência, a conversa sobre casamento acaba. Entendeu?

Minha mente corre por baixo do gelo das minhas palavras. Eu não desmontei a operação do Macro por completo — e não vou. Não porque eu não consiga, mas porque meus negócios já se enroscaram com os dele no passado. É confuso demais pra desenrolar sem chamar atenção. Além disso, eu estou em San Laurent pra legalizar os negócios da Salvatore, não pra derrubar impérios clandestinos nem ampliar território. Menos conflito, menos barulho — esse é o objetivo. E o verdadeiro culpado aqui não é o Macro. É o Arthur, com as dívidas e a covardia dele, que colocou a Cherry naquele galpão desde o começo.

Ele concorda rápido, o pomo de Adão subindo e descendo quando ele engole em seco.

— Claro, claro. Eu vou garantir isso. O senhor tem a minha palavra.

Eu não confio na palavra dele nem o suficiente pra arremessar, mas deixo passar por enquanto.

— Ótimo. Vou ver a Cherry de novo. Sozinho.

Ele faz um gesto com a mão, quase ansioso demais.

— Pois não. O que o senhor precisar.

Eu viro nos calcanhares, deixando ele na escada pra ferver na própria incompetência. Quando volto até a Cherry, ela ainda está no banco, os dedos se torcendo nervosos no colo. Os olhos dela sobem até os meus, cheios de perguntas.

— O que você disse pra ele?

Eu me sento ao lado dela, perto o bastante para nossos joelhos quase se encostarem, mas mantenho a postura relaxada, sem ameaça.

— Eu disse que você tá bem, e que ele tá agradecido. Mas eu não fiz isso pelo agradecimento dele, Cherry. Eu fiz porque eu me importo com você.

Os lábios dela se entreabrem; um lampejo de surpresa atravessa o rosto dela antes de ela baixar o olhar.

— Ah… eu quase me esqueci. Obrigada, Nick. De verdade. Eu não sei o que teria acontecido se você não tivesse vindo.

Um sorriso de canto puxa meus lábios, embora eu mantenha o tom leve, provocador. — Um simples “obrigado” não é o bastante, sabia.

Ela pisca, inclinando a cabeça com uma mistura de curiosidade e cautela. — E o que é o bastante, então?

Eu alcanço a mão dela, meus dedos se fechando nos dela com delicadeza. A pele dela está fria, tremendo de leve, e eu sustento o olhar dela, deixando o peso das minhas palavras se instalar entre nós. — Casa comigo, Cherry. Eu não quero que a gente seja só tio e sobrinha. Eu quero marido e mulher.

Os olhos dela se arregalam, o choque tomando conta do rosto enquanto ela me encara, sem piscar. Eu continuo antes que ela me interrompa. — Eu posso manter você segura. De tudo — de qualquer perigo, de qualquer dor. Você nunca mais vai precisar passar por algo como hoje à noite.

A expressão dela vacila, a hesitação nublando o rosto bonito. Ela gagueja: — Isso… Isso não é certo, né? Se a sua esposa descobrisse, ela ia…

— Eu não tenho esposa — eu corto. — E, se eu tivesse, seria só você.

Ela fica sem fala, a boca abrindo e fechando como se procurasse palavras que não vêm. Eu me inclino um pouco, meu polegar roçando os nós dos dedos dela. — Você não disse não de cara. Isso significa que você sente alguma coisa por mim. Admite, Cherry.

Os dentes dela prendem o lábio inferior, e ela puxa a mão de volta só um pouquinho, a voz mal acima de um sussurro. — Eu… Eu preciso pensar. Tá?

Eu não consigo me segurar. Me aproximo mais, encostando um beijo leve como uma pluma nos lábios dela, sentindo o gosto doce, bem de leve, do sonho de creme com morango que ainda ficou ali. — Não pensa por muito tempo.

Ela se afasta num tranco, as mãos empurrando meu peito, a voz num sibilo desesperado. — Meu pai… Ele vai ver!

Eu me levanto, ajeitando o paletó com um gesto despreocupado, o sorriso de canto voltando. — Pensa bem. E não me menciona pra ele. Eu vou dizer o mesmo — por enquanto, deixa meu nome fora disso. Deixa você decidir sem pressão. — Eu paro, encontrando os olhos dela uma última vez. — A gente se vê em breve.

Enquanto me afasto, sinto o peso do olhar dela nas minhas costas. Eu sei que ela está dividida, e eu sei por quê. A maldita noivação com o Vincent paira sobre ela como uma guilhotina. Sem isso, talvez ela já tivesse dito sim. O pensamento me corrói, mais um obstáculo para esmagar. O Vincent voltou pra cidade hoje à noite, recuperado e se preparando pro encontro com os Miller daqui a dois dias. Está na hora de conversar com meu sobrinho, fazer ele sair do caminho. Com a minha posição, convencer ele não vai ser difícil. É só uma questão de achar a alavanca certa.

Eu encontro o Arthur de novo antes de sair do hospital. Minhas instruções são claras, dadas com um tipo de autoridade que não deixa espaço pra discussão. — Não mencione meu nome pra Cherry. Eu quero que a minha apresentação formal fique pra reunião daqui a três dias. Isso vai te dar tempo suficiente pra se recuperar disso. Se sua família perguntar como você saiu dessa enrascada, inventa a história que quiser. Só não coloque meu nome nisso.

Ele assente como um fantoche, ansioso pra agradar. — Entendido, senhor Salvatore. Eu vou cuidar disso.

Eu não me demoro. Ao sair pro ar frio da noite, tiro o celular do bolso pra ligar pro Vincent. A gente precisa resolver essa palhaçada de noivado. Mas, antes que eu consiga discar, a tela acende com o nome dele. Eu atendo, franzindo a testa. — O que foi?

A voz dele sai embolada pela linha, em pânico e chorosa. — Tio Nick, eu tô num bar no centro. Um desgraçado me pegou de surpresa. Eu tô muito machucado. Você tem que vir me buscar…

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