Desejada pelo Rei da Máfia

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Capítulo 5 Chamada desesperada

POV da Cherry

Eu saio do baile a passos pesados.

Meu pai me trouxe aqui pra me exibir, pra fechar os detalhes do noivado, e eu simplesmente... fugi. O peso da minha rebeldia desaba sobre mim, mais pesado do que o vestido grudado no meu corpo. Eu sei que acabei de cavar um buraco ainda mais fundo, mas eu não aguentava mais um segundo sob a fachada sufocante de tudo aquilo.

Lá fora, o ar frio da noite morde a minha pele, mas não consegue anestesiar a dor por dentro. Eu encontro um canto mais isolado perto da fachada de vidro do salão, e meu reflexo me encara — pálida como um fantasma, os olhos vermelhos e inchados de lágrimas silenciosas.

Eu pareço uma boneca quebrada, e talvez seja exatamente isso que eu sou. Por que a minha mãe aguenta essa vida? Por que ela ficou, ano após ano, enquanto meu pai exibe a Sharon sem a menor vergonha na frente de todo mundo? É por minha causa?

Deve ser. Eu fecho os punhos, odiando o quanto sou impotente. Se eu me recusar a casar com o Vincent, quem mais vai sofrer é a minha mãe. Meu pai me corta da vida dele num piscar de olhos. Eu vou estar acabada, e ela também. Nós estamos presos nessa gaiola dourada, com as asas cortadas, obrigados a sorrir por trás das grades. Meu estômago se revira com a verdade amarga: eu não tenho escolha a não ser entrar no jogo.

Eu fico do lado de fora por horas, adiando o inevitável. Voltar cedo pra casa significa encarar perguntas, desculpas e mentiras. Eu não estou pronta pra isso. A noite se arrasta, interminável e gelada, até meu celular vibrar com uma mensagem de um número desconhecido: [Você está bem?]

Spam, eu decido, e bloqueio o número. Enfio o celular de volta na bolsa e começo o caminho lento pra casa.

Eu mal passo pela porta quando a voz da vovó Mary corta o silêncio. — Onde você estava, Cherry? Como você se atreve a sair de um evento importante daqueles sem pedir permissão?

Meu coração afunda quando eu vejo meu pai já ali, parado no hall pouco iluminado. Eu fiquei tempo demais lá fora.

— Você tem noção — meu pai cospe — de como você me envergonhou na frente do Nicholas com essa sua insolência?

A mão da Mary aperta uma colher de pau, e ela desce com força na parte de trás das minhas pernas, a ardência atravessando o tecido do vestido. — Menina ingrata! — ela sibila, a voz pingando desprezo.

Meu pai chega mais perto, agarra meu braço com força, forte o bastante pra deixar marca, e me empurra em direção à escada. Ele ergue a mão e acerta um golpe duro na minha coxa com o punho fechado. — Você vai aprender a respeitar, nem que eu tenha que enfiar respeito em você na porrada! A gente não pode deixar marca onde eles vão ver, mas você vai sentir essa lição!

Minha mãe corre pra frente, o corpo frágil tremendo enquanto tenta me proteger, mas meu pai a empurra de lado com um rosnado. Ela tropeça, se segurando na parede, e eu vejo o desamparo nos olhos dela.

As vozes se sobrepõem, uma cacofonia de raiva e culpa, até o próprio ar parecer sufocar. Eu estou prestes a desabar quando um guincho repentino de pneus lá fora interrompe tudo. Antes que alguém reaja, a porta da frente explode ao abrir com um estrondo ensurdecedor. Homens armados entram em bando, as botas batendo na madeira do piso, os rostos escondidos por sombras e ameaça.

Uma figura enorme dá um passo à frente, a presença dele dominando o ambiente. — Arthur — ele rosna. — Você me deve cinco milhões de dólares. Três meses atrasado. O tempo acabou.

A valentia do meu pai some num instante, substituída por um gaguejo patético. — Macro, por favor, você sabe que eu tive problemas de caixa. Só me dá mais um pouco de tempo... —

Macro não deixa ele terminar. Com um movimento rápido do pulso, os homens dele caem em cima do meu pai, socos voando. O som enjoativo de carne batendo em carne toma o ar, pontuado pelos grunhidos de dor do meu pai. Mary grita, e eu fico paralisada, o horror me pregando no lugar, enquanto eles começam a destruir tudo o que veem pela frente: vasos, espelhos e os retratos da família — bem, se é que dá para chamar isso de família — alinhados nas paredes.

A minha mãe reage mais rápido do que eu. Ela agarra meu pulso e me puxa na direção da escada. “Cherry, volta pro seu quarto!”, ela sussurra, urgente, me empurrando para dentro do meu quarto e batendo a porta com força. Eu ouço a chave girar, e a voz dela, tremendo do outro lado. “Fica aí, aconteça o que acontecer!”

Meu coração martela dentro do peito quando eu encosto a orelha na porta, com cada som se multiplicando através da madeira fina. Lá embaixo, a violência piora — gritos, baques, o estalo de osso. A voz do Macro se ergue por cima de tudo, fria e impiedosa. “Se você não tem o meu dinheiro, Miller, então eu vou levar a sua filhinha bonitinha no lugar. Ela pode pagar sua dívida de um jeito que você não consegue.”

Pagar a dívida? Eu sei o que ele quer dizer, e só de pensar meu estômago revira. Minhas mãos tremem enquanto eu reviro a gaveta da escrivaninha e depois a lixeira, procurando os pedaços rasgados do cartão de visita do Nick. Eu tinha rasgado numa crise de raiva, mas agora é minha única tábua de salvação.

Meus dedos tremem enquanto eu junto os pedacinhos, mas os últimos dígitos sumiram, borrados a ponto de não dar para reconhecer. Aí eu me lembro — o número desconhecido de mais cedo. Pego o celular e comparo com o cartão todo fragmentado. É parecido. Parecido demais para ser coincidência. Será que é ele mesmo?

Não dá tempo de pensar. Puxo o ar, trêmula, desbloqueio o número e ligo, rezando para não estar errada. A chamada completa, e uma voz familiar, debochada, se arrasta pelo alto-falante. “Demorou, hein, sobrinha.”

“Tio Nick?” Minha voz falha, e as lágrimas escorrem pelo meu rosto. “Você disse que eu podia te ligar quando tivesse qualquer problema...”

Eu não me importo com o tom dele nem com como ele conseguiu meu número. Tudo o que eu consigo é um soluço preso na garganta enquanto eu despejo tudo — os invasores, a dívida, a ameaça de me levarem. Eu digo o nosso endereço, implorando: “Eles vão me levar. Eu sei que você tem dinheiro, por favor... ajuda a gente!”

O deboche some, substituído por algo frio, perigoso. “Eu tô indo. Aguenta aí.” A ligação cai, e eu fico agarrada ao celular, com o medo se acumulando no meu estômago.

Antes que eu consiga sequer sentir alívio, um estrondo sacode o quarto. A porta se estilhaça para dentro, e o Macro aparece no vão, o sorriso torto dele virando algo predatório. “Achou que dava pra se esconder, é?”

Eu recuo, a voz tremendo, mas desafiadora. “Eu liguei pra alguém. Ele tá vindo com o dinheiro. Você vai receber, só deixa a gente em paz!”

Ele ri, um som vazio e gelado, e faz um gesto para os homens. “Vamos ver.” Mãos brutais agarram meus braços, me arrastando para o corredor. Eu me debato, chuto e grito, mas não adianta.

Enquanto eles me puxam escada abaixo, eu vejo minha mãe largada encostada na parede da sala, inconsciente, com um fio de sangue na têmpora. Perto dela, meu pai e minha avó estão no chão, machucados, gemendo sob as botas do pessoal do Macro.

O desespero me atropela como uma onda gigante. Eu não tenho mais saída, não tenho mais tempo. Tudo o que eu posso fazer é rezar para o Nick ter falado sério — que ele venha e me salve...

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