Capítulo 3 Noiva relutante
POV da Cherry
Eu fico em silêncio, mas isso só parece alimentar a raiva dele.
— Olha pra mim quando eu estiver falando com você! — Ele dá um passo à frente, a mão erguida de um jeito ameaçador.
Mamãe aparece na sala de visitas. — Arthur, por favor. Ela só está nervosa com o noivado. Precisou tomar um ar. — Mamãe se coloca entre nós dois.
A mão do papai abaixa, mas o olhar dele não amolece. — Tomar um ar? A essa hora? Ela está lá fora brincando enquanto a gente planeja o futuro dela! Nenhum senso de responsabilidade. — Ele aponta o dedo pra mim por cima do ombro da mamãe. — Os Salvatore não vão gostar de uma garota sem a educação social adequada. Se eles te rejeitarem, acabou pra nós. Agora entra. A Mary e a Teyana estão discutindo como você deve se apresentar amanhã.
Ele sai pisando duro.
Mamãe se vira pra mim, as mãos dela segurando meu rosto com cuidado. — Você está bem, meu amor? Aconteceu alguma coisa hoje à noite?
Por uma fração de segundo, eu quase conto tudo, mas engulo as palavras. O rosto da mamãe já está marcado de preocupação, olheiras escuras embaixo dos olhos que combinam com o roxo desbotando no pulso. Ela já carrega peso demais sem o meu.
— Eu tô bem, mãe. — Eu forço um sorriso.
O casamento da mamãe com o papai também foi arranjado. Ela me contou uma vez que a empresa do irmão dela precisava de capital urgente, e ela foi o preço. Papai nunca a amou — nem uma vez em dezoito anos. Ele mal tolera a existência dela, enquanto esfrega na nossa cara o caso com a Sharon, a assistente dele, que ainda por cima deu a ele uma filha. Mamãe aguenta tudo com uma dignidade silenciosa que me parte o coração todos os dias.
O pior é que a família da minha mãe não levanta um dedo por nós. Agora que a empresa do papai está em crise, eles ficam ainda mais dispostos a me sacrificar pra manter a vida confortável deles.
Mamãe aperta minha mão. — A empresa do seu tio precisa de mais uma injeção de dinheiro. Ele pediu ajuda pra Teyana. Ela foi falar com a Mary, mas... — Ela suspira. — As duas estão planejando descontar em você, eu tenho medo.
A injustiça de tudo aquilo ferve dentro de mim. — A gente podia ir embora — eu sussurro, com raiva contida. — Só nós duas, mãe. A gente não precisa deles.
Os dedos dela encostam nos meus lábios. — Se a gente for embora agora, a empresa do seu tio quebra. Quarenta anos do trabalho do seu avô, jogados fora. — Os olhos dela brilham com lágrimas que ela não deixa cair. — Só mais um pouco, tá?
Eu me aproximo do ouvido dela. — Quando eu me formar na faculdade e conseguir um emprego, eu te tiro daqui. Eu prometo. — Eu sinto os dedos dela apertarem os meus, em concordância silenciosa.
— O que vocês duas estão cochichando aí fora? — a voz do papai ecoa lá de dentro. — Entrem aqui agora!
Mamãe e eu entramos na sala de estar como prisioneiras indo pro tribunal. Minha avó paterna, Mary, está sentada, imponente, no nosso sofá estilo Luís XIV, enquanto minha avó materna, Teyana, ocupa a poltrona de orelhas ao lado. A expressão das duas dava pra congelar o inferno duas vezes.
— Olha só pra você — diz Mary no instante em que eu apareço. — Cabelo como se tivesse acabado de sair de um estábulo. É assim que você pretende se apresentar amanhã?
Teyana estala a língua. — E de onde você tirou esse vestido? Está apertado demais.
— Você vai precisar acordar às seis amanhã — Mary continua. — Vamos precisar de tempo extra de treinamento de etiqueta antes do jantar.
Eu quero retrucar que eu sei qual garfo usar e como sentar direito — eu fui treinada como um cavalo de exposição a vida inteira —, mas um olhar pro rosto da mamãe me faz parar. — Sim, vovó.
Mais tarde, no meu quarto, eu encaro o teto, cercada por um luxo que parece muito mais uma prisão do que um privilégio. Nunca pareceu um lar.
A faculdade começa em breve, e eu tinha esperança de que morar no campus me desse um pouco de liberdade. Mas será que meu futuro marido vai sequer deixar eu continuar estudando? Ou eu vou acabar como a mamãe, presa num casamento sem amor, com meus sonhos sufocando aos poucos?
E eu não consigo parar de pensar no Nick. Talvez ele me ajudasse a escapar desse casamento arranjado expondo a minha “impureza”. Mas só de pensar nisso já me dá um gosto amargo na boca. Nick pode até ser bonito, mas provavelmente é pelo menos uns dez anos mais velho do que eu. E, pelo que eu sei, ele pode ser casado. Pedir ajuda a ele só faria de mim exatamente aquilo que eu desprezo.
Tomada por uma determinação repentina, eu rasgo o cartão de visitas do Nick em pedacinhos, vendo-os voarem até a lixeira como confete para sonhos que eu nunca vou ter.
A manhã chega com as batidas secas e impacientes de Mary. “De pé! Agora!”
O que vem depois é um treinamento de um dia inteiro sobre como ser a noiva perfeita dos Miller. Endireitam minhas costas com cutucões doloridos, corrigem minha postura com réguas de madeira.
“Não, não! Coluna reta, queixo paralelo ao chão!”, Mary rosna, dando um tapa nas minhas pernas quando eu erro um passo durante o treino de valsa.
Teyana preenche as pausas com histórias de horror sobre os Salvatore. “Eles cortam as mãos e os pés das esposas se elas desobedecem”, ela diz, como se fosse a coisa mais normal do mundo. “Tradição italiana.”
Eu não me aguento. “É isso que você está esperando? Que eles me esquartejem se eu te envergonhar?”
O tapa vem rápido, ardendo na minha bochecha. Mamãe se mete entre nós, e leva o segundo golpe de Mary no ombro.
“A culpa é sua, Brittany”, Mary sibila. “Você criou uma criança insolente.”
Eu tento defender a mamãe, mas Teyana me puxa para o lado. “Ah-ah, nem pense nisso. Vem pra cá e continua praticando.”
A culpa me invade. Meu momento de desafio só serviu para fazer a mamãe ser punida. De novo.
Horas depois, depois de falhar em fazer uma virada de valsa perfeita, a vovó Mary acerta minha coxa com força com uma régua. “Nada de mãos ou rosto”, ela explica, fria e metódica. “Isso apareceria.”
Eu mordo o lábio e me obrigo a não revidar, sabendo que qualquer resistência só resultaria em mais castigo para a mamãe.
Quando a noite se aproxima, o papai aparece por um instante. “Tenho que resolver uma coisa. Se arruma e vai na frente pro local. Eu encontro vocês lá.” Ele vai embora sem esperar resposta.
Mary e Teyana me conduzem escada acima para me preparar. “Você tem sorte de ter a minha cor”, Mary comenta enquanto me vestem como se eu fosse uma boneca. “Pelo menos você não vai parecer totalmente comum.”
Diante do espelho, num vestido cor de vinho, eu não vejo a mim mesma, e sim uma peça de troca perfeitamente montada. Meu cabelo está preso num coque elegante, a maquiagem realça traços que eu nem sabia que tinha, e diamantes — emprestados do cofre da família — brilham nas minhas orelhas e no meu pescoço.
“Adequado”, Mary decreta, o que, vindo dela, é um grande elogio.
No local do evento, sou abandonada imediatamente assim que chego. Sem apetite depois de um dia de estresse e sem ter almoçado, começo a ficar tonta. Vou até a mesa de sobremesas, torcendo para que algo doce me firme.
Quando estendo a mão para pegar um docinho, um círculo de jovens mulheres em vestidos de grife me cerca.
“É verdade que sua família tá indo à falência?”, uma pergunta com falsa compaixão. “Tão desesperados pra entrar nos Salvatore.”
Outra se inclina para perto. “Eu ouvi que o homem com quem você vai casar dorme com qualquer coisa que se mexa. Boa sorte.”
Eu abro a boca para responder, mas, de repente, a sala inteira fica em silêncio. O clima muda como o ar antes de uma tempestade.
Eu ergo os olhos, seguindo o olhar de todo mundo até a entrada principal.
Nick entra, atraindo atenção sem esforço. As pessoas se afastam diante dele como ondas batendo em pedra.
Meu coração para por um segundo, depois dispara.
O que ele está fazendo aqui?
