Capítulo 10 Adeus choroso
POV da Cherry
O Nick ficou maluco? Eu moro no segundo andar!
Abro a janela depressa e sibilo: “Você enlouqueceu? O que você está fazendo aqui a essa hora?”
Nick entra com elegância, os movimentos fluidos como os de uma pantera negra. Ele veste uma roupa preta, casual, e a jaqueta está salpicada de gotas de chuva. “Eu não ia conseguir dormir sem uma resposta, mia cara”, ele diz, a voz baixa e íntima no silêncio do meu quarto.
Dou um passo para trás, tentando manter alguma distância entre nós. “Você não pode simplesmente escalar e entrar no quarto dos outros! E se alguém te visse?”
Os olhos dele se fixam no meu rosto quando ele estende a mão para apagar, com delicadeza, as marcas das lágrimas que eu nem percebi que ainda estavam nas minhas bochechas. “Você estava chorando”, ele constata, direto. “Quem foi que te magoou dessa vez?”
Eu me viro instintivamente. “Ninguém. É só que… alergia.”
“Alergia?” Ele arqueia uma sobrancelha, claramente sem acreditar. “E essa marca vermelha no seu rosto… também é alergia?”
Eu fico em silêncio. Não adianta contar o que aconteceu. Ele não entenderia, e de qualquer forma não tem como ele impedir.
Ele suspira. “Amanhã eu te levo para sair. Pra você espairecer.”
“Eu não posso.” Balanço a cabeça com firmeza. “Amanhã eu tenho que ficar em casa. Eu preciso descansar.” Vou me encontrar com os Salvatores depois de amanhã, o que significa que amanhã vai ser um inferno de treino de etiqueta. Não tem como eu dar uma escapada de novo, mesmo que eu queira.
“Tá bom.” Nick se aproxima, o tom dele suavizando. “Então… você já pensou no que eu te perguntei?”
Antes que eu consiga responder, passos pesados ecoam pelo corredor, seguidos da voz do meu pai. “Cherry? Com quem você está falando?”
O pânico me invade. Se meu pai encontrar o Nick no meu quarto, eu nem consigo imaginar as consequências. “Rápido, se esconde aí!” Eu empurro Nick, desesperada, na direção do meu closet. “Não faz um barulho!”
Eu ajeito o camisão às pressas, puxo o ar e tento parecer calma. “Só estava lendo em voz alta, pai. Já vou dormir.”
A porta se abre, e o olhar cortante do meu pai varre o quarto. “Eu ouvi outra voz. Voz de homem.”
“Talvez tenha sido o meu celular? Eu estava vendo um vídeo.”
Os olhos dele se estreitam quando ele repara na janela aberta. “Por que a janela está aberta? Já está tarde e está chovendo lá fora.”
“Eu gosto do barulho da chuva…” Eu minto. “Me ajuda a dormir.” Enquanto isso, meu coração está batendo tão forte que eu tenho medo de ele me denunciar.
Meu pai fecha a janela com firmeza. “Você não pode ficar resfriada”, ele diz. Ele examina o quarto devagar, até o olhar finalmente parar no meu closet. “Como está indo a escolha da sua roupa?”, ele pergunta, alcançando a porta do closet.
“Pai! Espera…” Eu disparo, sem pensar. “Eu… eu estou com um problema com o vestido.”
Ele para com a mão na maçaneta. “Que problema?”
Eu improviso rápido. “Eu acho que o vestido ficou apertado demais. Será que dá pra pegar outro? Quando eu encontrar o Vincent, eu quero causar uma boa impressão…”
Meu pai não tem o menor interesse em discutir vestido apertado, e abandona a inspeção do closet. “Tanto faz. Não fique acordada até tarde. Acorde cedo amanhã; ainda temos treino de etiqueta.” E, com isso, ele sai do quarto.
Eu solto o ar devagar, encostando na porta. Nick sai do closet em silêncio, com uma expressão ao mesmo tempo divertida e séria.
— Então… — a voz dele ficou fria de repente. — Você vai se encontrar com alguém? Quem é esse Vincent?
Eu explico, nervosa:
— Foi um acordo que a minha família fez… Eu não tenho escolha.
Nick dá um passo à frente e segura meu rosto entre as mãos.
— Você sempre tem escolha, Cherry. — Ele me encurrala de leve contra a parede. — Você está mesmo planejando se casar com um homem que nunca sequer conheceu?
Eu tremo ao responder:
— É uma decisão da família… Eu preciso…
Nick me interrompe:
— Olha nos meus olhos e me diz que você quer o Vincent no meu lugar.
Eu fujo do olhar intenso dele.
— Eu… eu não consigo dizer isso…
O tom dele suaviza.
— Cherry, eu sei que isso é de repente, mas desde aquela noite eu não consigo parar de pensar em você. — Ele acaricia minha bochecha com delicadeza. — Eu nunca me senti assim por nenhuma mulher antes. Isso me assusta… mas também me deixa certo do que eu quero.
— Nick… — Eu fico chocada com a vulnerabilidade dele. Aquele homem tão poderoso, que sempre parecia mandar em tudo, está me mostrando um lado diferente.
Ele se inclina e deposita um beijo suave na minha testa.
— Eu quero que você seja minha mulher, não só por uma noite, mas por uma vida inteira.
Minha cabeça dispara. Ele deve ser alguém importante, talvez com um lado sombrio… mas o jeito como ele me trata faz meu coração disparar.
— Eu preciso de tempo… está tudo acontecendo rápido demais — eu digo, evitando uma resposta direta de novo.
Nick sorri, aparentemente satisfeito.
— Um dia. Amanhã, fique em casa para as suas aulas de etiqueta e pense no seu futuro. Se você quer ficar com alguém que não ama… ou comigo.
A preocupação franze minha testa.
— Se… se eu te escolhesse, eu estaria segura? E a minha mãe?
A promessa de Nick é solene:
— Enquanto você estiver comigo, ninguém vai fazer mal a você nem a ninguém que você ame.
Com isso, ele sobe com elegância de volta pela janela e some na noite chuvosa.
Eu passo mais uma noite sem dormir direito, com a mente virando um campo de batalha.
No dia seguinte, o tempo passa num borrão de aulas de etiqueta implacáveis. Enquanto eu ouço meu pai e minha avó me darem sermão, eu descubro que os Salvatore entraram em contato com meu pai, confirmando que querem, sim, que eu me case com alguém da família deles.
De volta ao meu quarto naquela noite, eu me sento sozinha com meus pensamentos. Eu percebo que, por mais poderoso que Nick seja, por mais rico que ele seja, por mais contatos que ele tenha com os Salvatore, ele não teria a menor chance. O que aconteceria se eles descobrissem que ele estava tentando roubar a noiva da aliança de casamento deles? Quão miserável seria o destino dele? Eu não quero que ele lute essa batalha por mim. Minhas últimas fantasias desmoronam quando eu decido seguir o que a minha família acertou.
Naquela noite, Nick não me enche de mensagens como de costume. Só bem tarde ele manda uma pergunta simples: [Você já decidiu?]
Com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, eu digito a resposta: [Nick, depois de pensar bem, nós não somos compatíveis. Por favor, não entre mais em contato comigo. Isso tudo foi um erro.]
Depois de enviar a mensagem, eu bloqueio o número dele de novo e desabo em soluços que doem por dentro. Parece que eu arranquei um pedaço da minha alma.
Eu sei que me apaixonei por Nick, mas eu não posso ficar com ele. Me casar com a família Salvatore é a única forma de proteger a mim e a minha mãe. E o Nick.
