Capítulo 3 A DEUSA DEVE ESTAR BRINCANDO
CAPÍTULO 003
A DEUSA SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA
DORIAN
Quase deixei passar.
Eu estava patrulhando o trecho da fronteira havia uns quarenta minutos, a ronda habitual do fim de tarde, nada fora do normal. A estrada estava vazia, a floresta silenciosa, aquele tipo de silêncio que significava que tudo estava exatamente onde deveria estar.
Então alguma coisa me puxou.
Era a única forma de descrever. Não foi um som, nem um cheiro, nem nada que eu pudesse apontar. Só um puxão, baixo e insistente, como um gancho em algum lugar atrás das minhas costelas me arrastando em direção à borda da cidade.
Eu já tinha sentido instinto de Alfa antes… aquele que avisa quando o território foi violado ou quando alguém da matilha está em apuros, mas isso era diferente.
Não questionei. Virei a moto e fui na direção.
Ouvi a confusão antes de ver. Vozes alteradas e movimento na grama perto da linha das árvores. Girei o acelerador e fiz a curva para encontrar quatro membros da minha matilha num círculo frouxo ao redor de uma garota que eu não reconhecia.
Reconheci aqueles quatro na hora. Jovens, esquentados, do tipo que acha que a área da fronteira é o parquinho particular deles. A garota no centro estava de pé, o que me surpreendeu.
Ela não estava encolhida. Estava com o queixo erguido e sangue nos nós dos dedos e, pelo jeito, tinha derrubado pelo menos um deles antes de eu chegar.
Encostei e desliguei o motor.
Eles ficaram imóveis no instante em que me viram.
Ótimo. Porque que diabos eles achavam que estavam fazendo, atacando uma desconhecida?
Desci da moto e avaliei a cena direito. A garota se virou para me olhar e começou a relatar o que tinha acontecido sem esperar os outros responderem.
Ela era clara, direta e, o mais importante, estava irritada. Queria saber se era assim que a cidade tratava recém-chegados.
Eu olhei para ela.
Ela sustentou meu olhar sem vacilar.
Resolvi com os quatro primeiro, um único aceno que disse tudo o que eles precisavam saber. Eles iam responder por aquilo na casa da matilha mais tarde. Sumiram entre as árvores sem dizer uma palavra.
E então eu cometi o erro de me virar de volta para ela.
Me atingiu no momento em que a encarei de frente. Não aos poucos, não em pedaços—de uma vez só, como dar de cara com uma parede. Ryler, meu lobo, passou do silêncio ao estrondo em um único fôlego.
“Companheira.”
Eu congelei por completo.
Eu conhecia aquela palavra. Eu vinha temendo aquela palavra havia três anos, desde que tomei minha decisão e enterrei a parte de mim que queria isso. E agora ela estava ali, despencando no meu peito como uma pedra.
Inspirei devagar, tentando ter certeza e tentando estar errado ao mesmo tempo, na mesma maldita medida.
Ela cheirava a cidade. Fumaça de escapamento, um sabonete desconhecido, aquele ranço específico de quem estava viajando. Cheiros humanos, em camadas por cima de todo o resto. Franzi a testa. Por baixo de tudo havia outra coisa; era fraca, pela metade, como uma palavra escrita com tinta que desaparece.
A deusa só podia estar de brincadeira.
Três anos.
Três anos mantendo a cabeça baixa e as muralhas erguidas, recusando toda loba que se colocava no meu caminho, dizendo a mim mesmo que eu estava melhor sem a complicação.
E era isso que a Deusa da Lua tinha decidido me dar.
Uma garota humana com sangue nos nós dos dedos que tinha acabado de chegar na minha cidade e que, naquele exato momento, me encarava como se estivesse esperando um pedido de desculpas.
“Ela é nossa”, disse Ryler, calmo.
“Fica quieto”, eu disse a ele.
Olhei para o rosto dela mais uma vez. Gravei na memória sem querer—o cabelo escuro, os olhos negros, o jeito como ela se mantinha firme mesmo quando não tinha motivo nenhum para estar tão longe de casa.
Então coloquei o capacete e fui embora de moto.
Eu precisava pensar. Precisava de distância. Precisava que Ryler parasse de dizer aquela palavra tempo suficiente para eu decidir o que eu ia fazer a respeito.
A resposta, decidi antes de chegar à estrada principal, era nada. Eu não ia fazer absolutamente nada.
Não funcionou.
Três dias depois, ela ainda estava lá, em algum lugar no fundo de cada pensamento, ocupando um canto da minha mente para o qual eu não tinha dado permissão. Eu tinha pesquisado, porque ignorar a situação por completo era uma coisa, mas estar desinformado era outra. Não demorou muito. A garota era a irmã mais nova do Zade e tinha chegado à cidade vinda do sul.
Zade Scott, um dos mais próximos do meu círculo. Um homem em quem eu confiava.
O que significava que ela estava completamente fora de cogitação.
Ryler não tinha nada a dizer sobre isso, o que significava que discordava, mas sabia que era melhor não discutir.
A festa daquela sexta-feira era pelo aniversário de um dos membros mais velhos da matilha. O clube tinha sido rearrumado: móveis empurrados para trás, música alta, o bar totalmente abastecido. A maior parte da matilha tinha se vestido para a ocasião — jeans apertado, couro, as mulheres em coisas que deixavam pouco para a imaginação. O ambiente inteiro tinha aquela energia específica de gente que trabalha duro e fica feliz em parar por uma noite.
Eu me sentei no canto mais distante do centro do salão com uma taça de vinho tinto e observei.
Festas não eram meu habitat natural. Eu vinha porque a matilha esperava isso. Afinal, um Alfa que nunca aparecia acabava virando um Alfa com quem as pessoas deixavam de se sentir conectadas. Mas, por regra, eu não ficava muito tempo, não bebia muito e não gostava particularmente do barulho.
Hoje à noite, eu estava achando mais difícil me concentrar do que de costume.
Eu ainda estava na primeira taça quando a cabeça de Ryler se ergueu num estalo.
Eu a senti antes mesmo de a porta abrir direito. Um calor, baixo e constante, como um fogo pegando num cômodo que tinha ficado frio por tempo demais. Mantive a expressão neutra e olhei para a entrada.
Ela entrou de braço dado com Zade. A postura dele era inconfundivelmente protetora, um pouco rígida, o corpo levemente à frente do dela — do jeito que irmãos fazem quando ainda não têm certeza de que o lugar merece a irmã.
Qualquer um que não os conhecesse poderia interpretar de outro jeito, mas eu conhecia Zade. Aquilo não era um homem entrando com uma mulher. Era um homem entrando com alguém por quem ele era responsável.
Ela usava um vestido curto de couro preto sobre uma blusa justa e botas pretas até os joelhos. Corpo pequeno, cabelo escuro solto sobre os ombros, olhos negros que percorriam o salão com curiosidade aberta em vez de nervosismo.
Ryler avançou com tanta força que eu cheguei a agarrar o braço da cadeira.
— Companheira — ele disse de novo. Como se eu tivesse esquecido.
Eu a vi atravessar o salão ao lado de Zade, absorvendo o clube, as pessoas e o barulho com a mesma qualidade de atenção que ela tinha tido na linha das árvores — como se estivesse avaliando, não reagindo.
Então ela se virou para o bar.
E os olhos dela encontraram os meus do outro lado do salão.
Ela piscou, me reconheceu e, sem hesitar nem um pouco, sorriu e levantou a mão num aceno pequeno.
Eu encarei.
Ninguém acenava para mim em festas. As pessoas faziam um gesto com a cabeça, abriam espaço e esperavam ser reconhecidas primeiro.
Ela acenou de novo, mais amplo dessa vez, com um sorriso luminoso no rosto.
Zade percebeu. Ele se virou para seguir a linha do olhar dela, e o que quer que tenha visto na expressão dela o fez se inclinar imediatamente, a voz baixa.
O que veio depois foi uma troca curta e tensa que eu não consegui ouvir por causa da música, mas que consegui ler bem o bastante. O queixo dela se ergueu. A mandíbula dele se fechou.
Ela disse alguma coisa que fez ele lançar um olhar fulminante. Ele se virou para dizer outra coisa, e ela olhou para mim de novo, impassível.
Ryler me empurrou com força. — Vai. Agora. Ela está bem ali.
Eu me levantei antes de decidir por completo.
Atravessei o salão devagar, assentindo para as pessoas que me cumprimentavam, desviando de duas mulheres que se colocaram no meu caminho com sorrisos que eu não retribuí. Meus olhos ficaram nela o tempo todo.
Quando eu cheguei até eles, Zade já tinha se reposicionado à frente dela, casual como se não fosse nada, braços cruzados, queixo levemente erguido, como se a mudança tivesse sido acidental.
Não tinha sido.
Ele encontrou meu olhar e se endireitou. — Alfa.
— Zade. — Olhei por cima do ombro dele. — Por que você não me apresenta à dama?
Uma pausa.
— Eu não sabia que você tinha uma amante — acrescentei, com um sorrisinho colado no rosto.
