Dark Paradise

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Capítulo 5 Capítulo 5

No dia seguinte, ninguém matou aula. Tinha prova naquela semana, por isso não faltaram mais. Tassiane estava sentando no fundo, na frente de Rebeca, perto de Saulo também. Deu para ver que eles estavam brigados, mas ela quase não conversava com Rebeca. Ela tinha as amigas dela e, quando estavam na escola, no intervalo, ficava com as outras. Às vezes chamava Rebeca para ir ficar junto, mas ela não ia, porque não sabia conversar com elas.

Depois que ela fez as pazes com Saulo, alguns dias depois, foram matar aula na quadra e chamaram Rebeca. As professoras começaram a notar que ela só faltava junto com eles. Naquele dia, ficaram de olho, e uma delas foi atrás com a diretora. Felipe e Saulo fumavam sempre. Elas pegaram os quatro de surpresa, perguntaram de quem era o cigarro e falaram que iam chamar os pais deles.

Rebeca deu risada sozinha, ironicamente. Ficou tranquila, porque nunca tinha sido pega aprontando e nem tinha medo de nada. A diretora perguntou qual era a graça. Rebeca falou que o cigarro era dela, mas que não tinha pais para ela chamar. Os três começaram a rir. A diretora levou Rebeca para a diretoria e mandou os três para a sala.

Rebeca continuou tranquila, desculpou-se, mas falou que era verdade e que o tio dela não tinha tempo de ir lá. Ficou mais de uma hora ouvindo sermão de como devia fazer novas amizades, que fossem boas. A diretora quis saber o que tinha acontecido com ela para mudar, começar a ficar rebelde. Foi direta em relação à criação do tio dela, deu a entender que, se alguém, qualquer homem, mexesse com ela, Rebeca podia falar com elas.

Foi liberada na hora de ir embora. Os “terríveis” estavam esperando por ela lá fora. Tassiane ficou se sentindo culpada, com medo por Rebeca. Também teve receio de ela entregar todos eles. Rebeca falou que não tinha dado em nada e que nem iam chamar o tio dela. Saulo falou que agora sim ela era membro oficial da gangue deles. Rebeca respondeu, irônica:

— E quem disse que eu quero participar? A parte mais legal de ficar com vocês é assistir na casa do Felipe.

Saulo ficou com cara de bobo. Felipe sorriu, olhando para ela, e falou sem graça:

— Fico feliz de saber que a televisão é mais legal que eu, digo, que nós, a galera.

Estavam rindo. Rebeca falou que não estava brincando. Felipe disse que podiam ir para a casa dele ver um filme. Ela disse que não podia por causa do trabalho. Foi para casa.

Depois, no outro dia, ele a chamou já cedo. Correu até ela na entrada da escola e falou que os outros dois já estavam esperando para matar aula. Rebeca disse que não podia, porque tinha sido ameaçada pela diretora. Falou rindo, brincando, e foi entrando na escola. Ele respondeu:

— Mas você vai ficar sozinha? Eles não vão vir, estão lá em casa já.

Rebeca falou, séria:

— Bom pra eles. Felipe, eu nem gosto disso. Eles ficam no quarto, vocês bebem, fumam, isso não é certo. Eu não gosto dessas coisas. Aquele dia, a Tassiane ficou muito mal.

Ele ficou quieto. Rebeca entrou na sala de aula. Alguns minutos depois, ele entrou, sentou do lado dela, no lugar de Tassiane, e falou que ia ficar na sala, mas que não estava a fim de fazer nada. Rebeca respondeu, irônica:

— E quando você está? Nunca, né!

Ele deu risada, pegou o caderno e começou a desenhar a professora. Foi mostrando para Rebeca. Fez uma caricatura dela com cara de brava. Ela elogiou o desenho. Ele falou que gostava de desenhar de tudo. Rebeca respondeu pensativa:

— É, eu já percebi.

Ele sorriu como quem estava aprontando e perguntou se ela queria ver uns desenhos diferentes. Rebeca falou que não. Ele mostrou assim mesmo. Rebeca achou ela lá nos desenhos. Quando foi ler as falas do quadrinhos, ele fechou o caderno rápido e falou que ela ia ficar brava. Ela ficou séria, quieta, não falou mais nada e começou a ignorá-lo.

Quando foi sair para o intervalo, ele falou que ia esperá-la na árvore dela. Rebeca respondeu séria, com pouco caso:

— Não precisa. Vai ficar com seus amigos maloqueiros. Eu já estou acostumada a ficar sozinha.

Ele respondeu que os únicos amigos dele não estavam lá. Foi sentar sozinho no canto. Depois de comer e ir ao banheiro, Rebeca foi sentar perto, mas ficou quieta. Logo voltaram para a sala e não conversaram mais nada.

Na hora de ir embora, Rebeca viu que ele tinha arrancado a folha do desenho e colocado no caderno dela. No quadrinho, ela estava sempre triste e somente pensando coisas ofensivas sobre todos, nunca falando, apenas pensando. Não achou nada demais. Amassou e jogou fora.

Nos outros dias, os três foram para a escola normalmente. De uma forma estranha, pareceu bom para Rebeca estar com eles. Ninguém mexia mais com ela. Como a diretora estava de olho em Rebeca, ela falou que não ia ficar matando aula mais. Tassiane, que era a mais esperta, decidiu que eles iam estudar pra valer, tentar recuperar as notas, porque o final do ano já estava próximo. Acabava que ela fazia a maior parte das coisas para ajudar os três. Como Rebeca era boa em matemática, ficava ajudando eles também. Os trabalhos, ela nunca fazia nada, tirava vantagem usando a desculpa de trabalhar. Tassiane colocava o nome dela sempre e, uma vez, era de dupla, Felipe fez sozinho e colocou também.

Começaram realmente a fazer “amizade”. Às vezes, Rebeca brincava com eles, dava risada dos outros. Quando chegou uma menina nova na turma e fizeram brincadeiras de mau gosto, falando do sotaque dela, logo Tassiane foi chamar a menina para sentar com eles. Ficaram bastante tempo só matando aula dentro da escola mesmo.

Rebeca, sentia que Tassiane conversava mais com a menina do que com ela, mas como era muito quieta, só ficava ouvindo, e elas sabiam que ela estava prestando atenção. A menina não era tão legal como Tassiane, mas também não era chata.

Um dia, estavam falando sobre fazer um trabalho de educação artística. Tassiane falou que queria fazer na casa de Felipe. Rebeca deu risada, porque lá ela gostava de ir para namorar. A menina falou que não entendeu por que Rebeca não estava levando a sério. Tassiane falou, brava com ela, que então deviam ir na casa de Rebeca, já que ela não queria ir à casa de Felipe porque tinha terminado todos os filmes de Velozes e Furiosos e perdido o interesse em ir lá.

No começo, Rebeca não ligou. Levantou os ombros, tipo “tô nem aí”, “pode ser”. A menina falou, apreensiva, disfarçando:

— Ah, não, vamos na minha casa então. Não tem problema nenhum e podemos pintar as unhas, fazer coisas de menina. Saulo e Felipe nem vão ajudar mesmo.

Rebeca falou, rindo, irônica:

— Na minha casa ninguém quer ir, né?!

Felipe respondeu:

— Você nunca convidou a gente! Se quer fazer na sua casa, a gente vai lá.

Rebeca falou que não ia fazer grupo com eles, porque estava sem tempo, que tinha umas coisas para fazer no sábado. O sinal já tinha tocado. Ela foi embora sozinha, e eles ficaram falando dela, porque ela morava no meio do lixo, no sítio. A menina nova já estava sabendo, porque outras pessoas falaram. Todos eles estavam achando que Rebeca tinha vergonha da própria casa e a viam como uma pobre coitada.

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