Capítulo 5 O Ataque do "Monstro" de Pelúcia
Eu apertei o gatilho plástico do spray até o limite, esvaziando praticamente metade da lata em questão de escassos segundos, disposta a cegar o inimigo.
Mas o som que ecoou logo em seguida através da névoa não foi um grito de dor humana ou um rosnado ameaçador de um assassino. Foi um espirro. Um espirro agudo, fofinho, estrangulado e extremamente confuso.
“Atchim! Grrr-nhé!”
Quando a densa nuvem de fixador e glitter finalmente baixou, assentando-se no ambiente, nossos olhos quase saltaram para fora das órbitas diante da realidade.
Parado bem ali na soleira da porta de metal, com o focinho agora perfeitamente modelado e endurecido pelo produto químico, brilhando sob o sol como se estivesse fantasiado para um desfile de Carnaval, estava um legítimo filhote de urso da montanha.
Ele nada mais era do que uma imensa bola de pelos marrons e desalinhados, com orelhas perfeitamente redondas e dois olhos castanhos e expressivos que nos encaravam fixamente, com uma mistura nítida de julgamento moral e puro pavor.
O terrível "monstro" que quase nos fizera morrer de ataque cardíaco tinha, na verdade, pouco mais de meio metro de altura.
Este pequeno invasor olhou confuso para Maya, piscou os olhos grudados de laquê, observou o escorredor de macarrão brilhando na cabeça dela e soltou um ganido baixo e choroso.
Ele provavelmente estava se perguntando em que tipo de pesadelo psicodélico e barulhento havia ido parar ao se afastar da floresta.
— É... aquilo ali é um urso? — perguntei com a voz trêmula, mantendo a lata de spray ainda estendida e apontada diretamente para o nariz preto do bicho.
— É um filhote de urso, Stella! — Maya exclamou, baixando a espátula aos poucos, mas sem abandonar a sua postura defensiva de combate.
— E ele agora está com o penteado mais firme, blindado e laqueado do que o meu no dia da minha formatura de colégio!
O ursinho, sentindo o cheiro químico forte do produto, deu um passo apressado para trás.
Com a sua sabedoria animal, ele percebeu que aquelas duas criaturas seminuas, histéricas e cobertas de purpurina eram consideravelmente mais perigosas do que qualquer predador nativo daquela floresta.
Na pressa, ele acabou tropeçando nas próprias patas traseiras, soltando um último "miau-rugido" de protesto.
Em seguida saiu em disparada em direção à vegetação fechada. Pudemos ver seu bumbum gordinho e peludo balançando de um lado para o outro enquanto ele sumia de vez entre os arbustos densos do acostamento.
Nós duas ficamos ali, paradas como estátuas na porta aberta do trailer, enquanto o silêncio pacífico da estrada de montanha retornava aos poucos.
O vento fresco soprou leve, trazendo o cheiro gostoso de pinheiros e... uma quantidade industrial de fixador de cabelo com aroma de baunilha.
Maya retirou o escorredor de alumínio da cabeça com uma lentidão profundamente dramática, limpou a testa e me encarou com os olhos arregalados:
— Stella... a gente acabou de colocar um urso selvagem da montanha para correr usando uma espátula de fritar ovo e um laquê de brilho extra forte.
— E você gritou feito uma coruja velha com asma crônica, Maya — retruquei instantaneamente, sentindo toda aquela descarga de adrenalina pura se transformar, em um milésimo de segundo, em uma crise de riso completamente incontrolável.
Nós simplesmente desabamos sentadas no chão de metal do veículo, nuas, suadas de pavor e agora inteiramente cobertas por uma fina camada de purpurina prateada que havia sobrado no ar.
Eu ria tanto que a musculatura da minha barriga doía intensamente.
Maya ainda tentou manter a sua pose de mulher destemida e protetora por alguns segundos, mas logo já estava rolando de rir no chão junto comigo, com as pernas longas entrelaçadas nas minhas enquanto o absurdo completo daquela situação tomava conta dos nossos pensamentos.
— Imagina só a história inacreditável que esse urso vai ter que contar para a mãe dele na floresta — Maya disse, usando o dedo para limpar uma lágrima de riso que escapava do canto do olho.
— "Mamãe, eu fui atacado no mirante por uma mulher-escorredor de massa e uma fada-do-laquê psicopata!"
No entanto, o som do nosso riso cessou abruptamente quando o meu olhar vagou para fora e encontrou o asfalto cinzento da estrada.
O sol agora estava visivelmente mais alto no céu, e o maldito pneu furado continuava ali, imponente, servindo como um lembrete cruel de que o mundo real e os nossos problemas ainda existiam e exigiam uma solução.
— Maya... o filhote estava bem aqui na nossa porta — comecei, o tom de voz caindo para uma gravidade preocupante. — Isso significa que a mamãe urso não deve estar muito longe defendendo o território.
O sorriso sedutor dela desapareceu do rosto de forma instantânea.
— Stella... veste uma calça comprida. Agora. Se aquele filhote saiu daqui com o topete brilhando e cheirando a salão de beleza, a mãe dele vai querer subir aqui para saber a marca do produto.
O pânico voltou a se instalar no Motorhome, mas, dessa vez, foi um temor puramente prático e urgente. Começamos a nos vestir em uma confusão generalizada de braços, pernas, tecidos e roupas colocadas do avesso.
Maya tentava desesperadamente enfiar o pé esquerdo na manga de uma blusa de frio, enquanto eu girava em círculos tentando encontrar o meu sutiã que, por algum motivo místico, tinha ido parar em cima do painel dianteiro do carro durante o nosso "momento" caloroso da madrugada.
— Cadê a bendita chave do Motorhome?! — eu gritava histérica, enquanto pulava em um pé só para tentar fechar o zíper do meu jeans apertado.
— Estava no bolso da sua calça! Não, espera, acho que ficou jogada no banco da frente! Stella, se a mãe urso aparecer agora e eu estiver apenas de calcinha, eu juro que vou morrer de vergonha antes mesmo de ser devorada viva!
A Fuga das Divas do Asfalto
O medo legítimo é, sem sombra de dúvidas, um excelente combustível para a eficiência humana.
Maya e eu, ainda ostentando restos visíveis de glitter nos cabelos bagunçados e com as roupas visivelmente tortas e desalinhadas, saltamos para fora do motorhome como se fôssemos uma equipe profissional em um pit stop de Fórmula 1.
O grande problema logístico é que nenhuma de nós duas tinha qualquer experiência como mecânica.
— Onde fica o macaco hidráulico deste veículo, Stella?! — Maya gritava com os pulmões, enquanto revirava freneticamente o compartimento de carga na lateral do motorhome.
— Eu sei lá! Eu achei que "macaco" fosse apenas o animal que comia bananas até herdar este motorhome do meu avô! — rebati no mesmo tom, tentando manter a calma mínima enquanto vigiava a mata fechada a cada dois segundos.
Finalmente, após muita bateção de latas, encontramos a maldita ferramenta de ferro. Maya, tentando resgatar toda a sua postura de mulher decidida e prática, ajoelhou-se sem cerimônias no asfalto que já começava a esquentar.
— Segura a lanterna para mim bem aqui embaixo!
— Maya, são quase dez horas da manhã e o sol está rachando as pedras! Para que você quer uma lanterna acesa?
XXX
