Capítulo 4 Entre beijos e vale macio
— Então deixe que o mundo acabe — respondi em um tom puramente provocador e firme. — Se o mundo exterior desabar agora, ele nos encontrará exatamente onde deveríamos estar desde o princípio: perdidas uma na outra.
Maya não respondeu com termos vãos ou promessas vazias. Em vez disso, ela se moveu com destreza, deslizando o seu corpo quente para baixo.
Começou beijando o vale macio entre os meus seios, descendo pela linha da minha barriga com toques labiais que deixavam rastros genuínos de fogo por onde passavam.
O metal estrutural do veículo rangia de leve com o nosso peso combinado, criando um ritmo metálico e contido que acompanhava perfeitamente o batimento acelerado do meu coração.
Cada vez que a boca dela descia mais um centímetro em direção à minha intimidade, o ar no compartimento parecia ficar mais escasso, mais denso, quase sólido.
Eu fechei os olhos com força, deixando minha cabeça pender totalmente para trás e sentindo a textura macia do estofado contra a minha nuca.
A sensação das mãos firmes de Maya, agora posicionadas com propriedade nas minhas coxas, abria-me como um livro precioso que ela já sabia ler de cor, mas que fazia questão absoluta de saborear cada página com uma curiosidade totalmente renovada.
O prazer ali não era mais uma explosão súbita e descontrolada, mas sim uma onda longa, fluida e constante, que crescia de tamanho à medida que o sol subia majestoso no horizonte.
Ali dentro daquele casulo protetor de metal, o tempo cronológico era uma mera ficção. Não existiam prazos a cumprir, perigos externos ou a Stella machucada e traída de antes.
Éramos apenas duas mulheres tentando decifrar o mistério de uma atração magnética que desafiava qualquer lógica humana.
A cada toque cirúrgico, a cada gemido agudo que escapava inevitavelmente entre os meus dentes, eu sentia que estávamos escrevendo juntas um novo capítulo na minha história, um que definitivamente não precisava de asfalto ou de rumo para seguir em frente.
Entre o Fogo e o Espanto
Aquele momento subsequente de exaustão deliciosa, em que os nossos corpos cansados ainda tentavam recuperar o oxigênio que havia sido roubado pelo desejo avassalador, foi subitamente cortado por um ruído agudo que definitivamente não pertencia à calmaria da natureza.
Estávamos ali, perfeitamente enroscadas nos lençois, sentindo o suor secar lentamente com o mormaço agradável da manhã, quando um estalo seco, forte e assustador veio diretamente do teto do trailer.
O barulho foi seguido por um balanço violento e abrupto da estrutura do veículo, que quase nos jogou com força para fora do colchão improvisado.
— Maya... — eu sussurrei de imediato, cravando as minhas unhas e apertando os ombros dela com força. O meu tom de voz não carregava mais nenhuma nuance de provocação ou sedução; era puro e genuíno susto. — Tem algo pesado mexendo no teto. Ou alguém.
Maya, que escassos segundos antes era a própria personificação da sedução e do controle, tentou se levantar com rapidez mística, impulsionada pelo instinto imediato de mostrar que podia me proteger de qualquer ameaça externa.
Porém, a pressa é a pior inimiga da perfeição — e, visivelmente, da total nudez. Ao tentar ficar de pé no espaço reduzido, o joelho esquerdo dela bateu com um estrondo doloroso na quina pontiaguda da mesa dobrável de fórmica.
— Ai, cacete! — ela soltou um ganido agudo de dor, começando instantaneamente a pular em um pé só no meio do corredor estreito enquanto segurava a articulação ferida.
— No desespero do equilíbrio, acabou batendo a cabeça com força no teto baixo de alumínio logo em seguida.
— Puta que pariu... Stella, eu tenho a absoluta certeza de que quebrei o crânio e a canela ao mesmo tempo!
Eu, mesmo paralisada de medo pelo barulho estranho do lado de fora, não consegui me conter.
Ver a Maya, aquela mulher misteriosa que havia me conquistado horas antes com um único olhar de mestre e passos calculados, agora completamente despida, pulando feito um saci-pererê desgovernado e xingando em voz alta os deuses da engenharia automobilística, fez com que eu soltasse uma gargalhada genuinamente histérica.
— Maya! Fica quieta, pelo amor de Deus! O assassino lá fora vai ouvir você reclamando do joelho! — eu sibilei entre dentes, cobrindo a boca com as duas mãos e tentando conter o riso que explodia no meu peito diante do absurdo.
— Assassino nada! Se for alguém mal-intencionado lá em cima, vai achar que tem dois guaxinins raivosos brigando pelo lixo aqui dentro! — ela rebateu prontamente, tentando de todas as formas recuperar a dignidade perdida.
Ela agarrou a minha camiseta que estava no chão e a vestia às pressas. Na confusão motora, colocou a peça totalmente do avesso, fazendo com que a gola ficasse presa na sua cintura por um segundo de pura comédia.
O clima de piada, porém, evaporou em um milésimo de segundo quando algo nitidamente pesado deslizou pela lataria externa, fazendo um som perturbador de unhas ou garras raspando com força no metal:
Screeeeee-chhhhhh.
O som ecoou agudo e estridente, o suficiente para arrepiar cada pequeno pelo da minha nuca.
O medo gelou o meu sangue instantaneamente. O contraste daquela situação era completamente absurdo:
Lá fora, o sol lá fora brilhava lindo, as flores silvestres do acostamento da montanha balançavam calmamente com a brisa, e nós duas estávamos ali, presas e nuas dentro de uma caixa de metal trancada, com algo totalmente desconhecido tentando forçar a entrada pelo teto.
— Pega alguma arma, Stella! Qualquer coisa serve! — Maya ordenou em voz baixa, agora com a camiseta posicionada na direção (quase) certa e agarrando o nosso escorredor de macarrão de alumínio na pia, posicionando-o na cabeça como se fosse um capacete improvisado de guerra.
Eu olhei em volta no mais completo desespero, com os olhos arregalados.
Minha mão trêmula tateou a bagunça de roupas jogadas e os restos de café até que meus dedos encontraram um frasco cilíndrico. Era o meu spray de cabelo extra forte.
— Eu tenho um laquê de fixação máxima, Maya! — eu disse com a voz visivelmente trêmula, oscilando entre o pavor absoluto e a graça inevitável da situação. — Se for um monstro ou um tarado, pelo menos ele vai cair daqui de cima com o penteado perfeitamente impecável!
O jato potente de laquê extraforte cortou o ar confinado com um chiado sibilante e agudo, criando instantaneamente uma névoa espessa, pegajosa e intensamente brilhante que flutuou suspensa sob os raios dourados do sol da manhã.
Maya, com o escorredor de alumínio ainda equilibrado na cabeça, brandiu a espátula de cozinha com as duas mãos como se fosse uma espada samurai legítima, pronta para desferir o golpe de misericórdia em qualquer invasor que ousasse cruzar a nossa porta.
— SAI DAQUI, SEU PSICOPATA NOJENTO! — Maya berrou a plenos pulmões. Sua voz, no entanto, oscilava de forma cômica entre um rugido feroz de leoa defensora e um guincho agudo de quem acabou de dar de cara com uma barata voadora.
XXX
