Capítulo 3 O Sol de Maya e Stella
— Bom, Maya... como hoje é feriado nacional e estamos oficialmente "ilhadas" no topo deste mirante, vou tentar retribuir o carinho da noite passada.
— O que você acha de um café da manhã improvisado? Depois a gente encara a realidade daquele pneu estragado lá fora...
— Ou — parei por um instante e olhei para ela por cima do ombro, com um semblante desafiador e divertido — você prefere que a gente simplesmente ignore o resto do mundo e teste o que sobrou daquela maleta no armário?
— Hum... eu prefiro o café primeiro — brinquei, mas a verdade é que senti as mãos macias dela me alcançarem por trás na cozinha, envolvendo a minha cintura. — Precisamos de energia extra para analisar isso melhor mais tarde. Estou morrendo de fome!
Maya riu gostoso contra a minha pele e me deu um último beijo estalado no ombro antes de se afastar e se ajeitar novamente entre os lençois da cama.
Enquanto eu preparava a cafeteira italiana, colocando a água e o pó com cuidado, sentia o olhar intenso dela queimando diretamente nas minhas costas nuas.
O aroma marcante e reconfortante da bebida logo começou a inundar cada centímetro do ambiente apertado, misturando-se de forma única ao cheiro de amor e intimidade que ainda pairava no ar do Motorhome.
Olhei novamente para ela, que continuava jogada de forma displicente e linda na cama, exibindo aquele sorriso que dizia claramente: "o café pode até esperar, mas eu não".
Senti, momentos depois, o toque sutil de Maya subir pela minha coxa quando ela se aproximou para pegar uma das canecas.
A pergunta que ela fizera antes ficou ecoando no ar, misturando-se ao vapor quente que subia das louças:
— O que mais você esconde debaixo dessa pose toda, Stella?
Suspirei profundamente, sentindo o calor reconfortante da caneca de cerâmica contra as palmas das minhas mãos e o magnetismo inegável do olhar dela travado sobre mim.
— O que eu escondo, Maya... — comecei, deixando minha voz baixar um tom, colocando a caneca na mesinha de cabeceira para finalmente ter as minhas mãos livres.
Aproximei-me dela, segurei as suas mãos e entrelacei nossos dedos com firmeza, sentindo a segurança daquele toque.
— São anos e anos tentando ser exatamente a mulher perfeita que os outros esperavam que eu fosse.
— Esse motorhome que você está vendo não é só um veículo velho de viagem; é o meu casulo de liberdade.
— Eu estava fugindo desesperadamente de uma vida inteira feita de aparências, de um futuro milimetricamente planejado por pessoas que nunca pararam por um segundo para me perguntar o que eu realmente desejava ou sentia.
Apertei os seus dedos com ternura, buscando os seus olhos.
— Mas aqui em cima, dentro deste espaço com você, sinto que não preciso ocultar nenhuma parte de quem eu sou. É estranho e assustador, não é?
— Em poucas horas de convivência, você simplesmente derrubou muros emocionais que eu levei décadas inteiras para construir ao meu redor.
Talvez o meu maior segredo seja este: eu nunca achei que fosse corajosa o suficiente para me entregar assim, sem qualquer reserva ou medo, a uma desconhecida que cruzou o meu caminho em uma curva perigosa.
Maya sorriu com doçura, eliminando a pouca distância que restava entre nós. O cheiro do café forte agora se misturava perfeitamente ao perfume natural da pele dela, que ainda exalava as memórias da nossa noite de amor.
— Pois eu acho que a sua coragem é a coisa mais linda e fascinante em você, Stella — ela sussurrou com a voz terna, bebendo um gole da caneca sem desviar os olhos dos meus por um único segundo.
— E se este feriado de ano novo for curto demais para tudo o que queremos viver, a gente dá um jeito de fazer o relógio esquecer de girar.
O silêncio do lado de fora do veículo continuava absoluto, denso e misterioso, como se o universo inteiro tivesse pausado a sua engrenagem e nos dado uma permissão especial para existir apenas ali, naquele pequeno refúgio de metal e desejo.
Eu tinha total consciência de que, em algum momento inevitável do dia, o pneu estragado precisaria ser trocado e o asfalto áspero da estrada nos chamaria de volta para as obrigações da realidade.
No entanto, naquele exato instante, com a mão macia dela subindo novamente pela minha pele e o sol da manhã aquecendo nossos corpos completamente nus, a única coisa que possuía relevância real era o aqui e o agora.
— Maya... — chamei num sussurro sutil, usando minhas mãos para puxá-la pela cintura de modo que ela deslizasse e ficasse sobre o meu corpo novamente.
As canecas de cerâmica foram sumariamente esquecidas de lado sobre a mesinha. O café, antes fumegante, agora esfriava progressivamente, transformando-se em um detalhe completamente irrelevante diante da nossa própria fervura interna.
— Esqueça as perguntas difíceis por um momento — continuei, encarando a imensidão dos seus olhos castanhos. — Por enquanto, vamos focar apenas em descobrir o que mais esta manhã ensolarada de primeiro de janeiro tem para nos oferecer.
O beijo que se seguiu não carregou qualquer pressa. Foi um encontro lento de lábios que parecia selar aquela confissão de liberdade. Deixamos, com total entrega, que os nossos corpos falassem exatamente o que as palavras humanas já não conseguiam mais expressar.
Entregamo-nos a um movimento ritmado, lento e profundo, que nos deixou, longos minutos depois, apenas ofegantes, exaustas e firmemente abraçadas, sentindo a vida pulsar de forma ritmada uma na outra.
O suor fino e brilhante decorrente do esforço fazia com que as nossas peles grudassem de leve, criando um mapa de calor compartilhado que me permitia sentir cada curva anatômica dela contra a minha.
Eu passei a palma da mão pelas suas costas unidas, tateando com precisão o relevo delicado da coluna vertebral, descendo até a curva do quadril com uma lentidão torturante e provocativa.
Maya soltou um suspiro pesado e sôfrego contra a curva do meu pescoço, um som rouco que vibrou diretamente na minha alma.
O sol matinal, entrando sem pedir licença pela fresta aberta da janela alta, desenhava linhas perfeitamente douradas e luminosas no seu cabelo castanho e bagunçado.
Por um segundo inteiro, eu me perdi completamente no tempo, admirando como ela parecia uma verdadeira deusa terrena: selvagem, imponente e, ao mesmo tempo, incrivelmente vulnerável dentro dos meus braços.
— Você é um perigo real para a minha sanidade, Stella — ela sussurrou bem perto dos meus lábios. Sua voz estava mais rouca do que nunca, soando quase como um arranhão gostoso de veludo na minha audição.
— A estrada nos espera lá fora, os problemas do passado nos aguardam na cidade... Mas você tem o poder de me fazer querer que o mundo simplesmente acabe aqui, agora mesmo, neste acostamento esquecido de montanha.
Eu sorri de canto, sentindo uma audácia completamente nova e revigorante percorrer o meu sangue.
Usei a ponta dos meus dedos para erguer delicadamente o queixo dela, obrigando-a a encarar diretamente o abismo de sentimentos nos meus olhos.
XXX
