Curvas Perigosas

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Capítulo 1 O Mirante do Adeus

A subida era íngreme. A estrada, apesar de bem asfaltada e sinalizada, mostrava-se muito perigosa, pois contornava a montanha como uma serpente traiçoeira, deixando a cidade de Vale dos Suspiros cada vez menor lá embaixo. Eu estava furiosa. 

Para piorar, meu  Motorhome resolveu brincar com a minha paciência: quando eu estava prestes a alcançar o topo, o pneu furou e me deixou completamente na mão, já que não faço a menor ideia de como trocá-lo.

Ainda cega de raiva pelo que testemunhara em nosso futuro quarto, sentia o peito angustiado. Faltava apenas uma semana para o meu casamento com ele... e o cretino estava ali, com outra em nossa cama. 

Como ele pôde fazer isso comigo? Só sei que não tive forças para confrontar a cena sórdida; por isso, simplesmente peguei as chaves do Motorhome sobre o aparador e parti sem rumo.

E agora, diante daquele pneu estourado, tudo o que vinha à mente era o porquê de aquela traição ainda ecoar na minha cabeça. As palavras dele doíam como facas penetrando a carne... eu só queria sumir. 

Mas o destino tem um senso de humor ácido: o estrondo seco e o balanço violento do veículo aconteceram justamente na entrada do pátio do Mirante do Adeus.

Ali estava eu, sozinha, cercada pelo silêncio opressor da montanha, enquanto o mundo, lá embaixo, estourava champanhe e celebrava falsas promessas de Ano Novo.

Eu não tinha forças nem ânimo para trocar uma roda naquela escuridão. Foi quando os faróis de um carro surgiram na curva, cortando a pouca neblina que começava a se formar. 

O veículo parou de qualquer jeito, atravessado no pátio. A porta se abriu e uma mulher desceu.

Ela não parecia alguém que vinha para ajudar. Trajava um vestido desalinhado, trazia um salto agulha pendurado pelos dedos de uma mão e uma garrafa de champanhe quase vazia na outra. 

Caminhou até a mureta protetora, ignorando a minha presença a princípio, e fitou as luzes da cidade com um desprezo profundo, como se quisesse incendiar tudo aquilo com o olhar.

Aproximei-me, limpando o suor da testa e tentando disfarçar o nervosismo.

— O pneu resolveu comemorar a virada antes de mim — eu disse, tentando quebrar o gelo.

A desconhecida virou-se devagar. Seus olhos estavam nublados pela bebida, mas brilhavam com uma intensidade tamanha que me fez esquecer o problema num piscar de olhos. 

Ela deu um gole longo na garrafa, limpou a boca com as costas da mão e soltou uma risada amarga, que ecoou pelo despenhadeiro.

— O pneu? — perguntou, aproximando-se tanto que pude sentir o cheiro doce do álcool e o calor que emanava de sua pele. — Esqueça o pneu. A cidade inteira lá embaixo está podre, e nós somos a única coisa real que sobrou aqui em cima.

Em vez de procurar uma chave de roda, ela estendeu o gargalo na minha direção. Seu olhar era um desafio e um convite ao mesmo tempo.

— Beba. Nós não vamos a lugar nenhum hoje, e eu não aguento mais ficar sozinha com os meus pensamentos.

Aceitei a oferta. O vidro estava frio, mas o convite queimava. Olhei para o Motorhome, depois para o chão de terra e, por fim, para aquela mulher que parecia tão perdida quanto eu. 

Pensei comigo mesma: por que não? Já estava tudo arruinado mesmo. O que mais faltava para destruir o que restava da minha noite?

— Espera só um pouquinho — pedi, quebrando o transe.

Corri até o interior do veículo, com o coração batendo num ritmo descompassado que não vinha apenas do esforço físico. 

Peguei um cobertor grosso e voltei para junto dela. Escolhi um lugar plano na borda do mirante, onde a vista era privilegiada: Vale dos Suspiros inteira se estendia lá embaixo, esperando pelo espetáculo da meia-noite.

Forrei o chão com cuidado. Nos sentamos ali, tão perto que nossos ombros se tocavam. O silêncio da montanha era preenchido apenas pelo som da nossa respiração e pelo tilintar do vidro compartilhado.

Quando o relógio marcou a meia-noite, os primeiros fogos de artifício começaram a explodir, colorindo o céu de vermelho, dourado e azul, refletindo no rosto dela. 

Foi nesse exato momento, sob as luzes da virada, que ela me olhou de um jeito diferente. Não era mais o desprezo pela cidade; era um olhar de descoberta. Sem dizer uma palavra, ela se inclinou e me deu um beijo.

Aquele toque selava o fim de tudo o que deixamos para trás e o início de algo que nenhuma de nós tinha planejado.

O beijo rapidamente se transformou em um incêndio. Meu corpo reagiu ao dela com uma urgência que eu não sentia há anos; abracei-a com força, querendo fundir nossas peles sob o cobertor. 

Mas, no auge desse despertar, uma luz branca e violenta cortou a escuridão do local. Eram os faróis de um carro que subia a estrada. Nos afastamos num salto, assustadas, com o coração saindo pela boca.

Ficamos em silêncio, apenas observando o veículo seguir seu rumo sinuoso pela montanha, sumindo na curva sem sequer notar nossas silhuetas ali. 

O incidente me deixou em alerta; no alto daquele desfiladeiro, estávamos indefesas, expostas a qualquer olhar.

— Vamos entrar — sussurrei, a voz trêmula de adrenalina e desejo.

Ela não contestou. Recolhemos o cobertor e a garrafa às pressas e subimos os degraus de metal. Ao fechar a porta do Motorhome, o som do mundo lá fora, os fogos distantes, o vento na montanha, o motor do carro, foi substituído por um silêncio denso e elétrico.

Na penumbra do espaço apertado, o único som era a nossa respiração ofegante. Encostei as costas na madeira trancada, sentindo que ali, finalmente, estávamos protegidas. 

Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós até que seu calor me envolvesse novamente. No escuro, seus olhos brilhavam com uma promessa que não precisava de palavras.

Senti meu corpo tremer ao me aproximar. Era uma ansiedade que eu não conseguia controlar, um desejo que ignorava qualquer lógica de certo ou errado. 

Eu só sabia que precisava ser beijada novamente por aquela boca macia, sentir aquele hálito mentolado invadir meus sentidos e deixar que o calor dela derretesse o gelo que havia se instalado em meu coração.

Parei diante dela, esperando uma reação. Mas ela parecia paralisada, os olhos fixos nos meus, como se estivesse processando a eletricidade que corria entre nós. 

Tomei a iniciativa: inclinei-me e selei nossos lábios num toque suave, quase tímido. Porém, quando ia me afastar, ela soltou um sorriso curto e sedutor.

Antes que eu pudesse respirar, suas mãos me puxaram com firmeza, tascando-me um beijo tão profundo e urgente que me arrepiou inteira. 

Senti um calor líquido percorrer meu corpo e soube, naquele instante, que já estava completamente entregue. Era incrível como ela me fazia sentir completa em apenas alguns segundos.

Eu queria mais, muito mais do que jamais imaginei desejar de uma desconhecida. 

Deixei-me levar por aquele turbilhão e, quando dei por mim, já estávamos na cama, transformando toda aquela dor e fuga no momento mais especial da minha vida.

xxx

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