Capítulo 5 O preço da cura.
Tínhamos vencido a batalha, mas não havia comemoração no nosso acampamento.
Chloe estava morrendo. Ninguém conseguia dizer ao certo o que havia de errado com ela. Palavras como “exames”, “hospital” e “médicos” eram jogadas de um lado para o outro, mas eu não entendia muito de civilização, tendo passado a maior parte da vida nas fronteiras.
Diziam que a nova civilização podia salvá-la — mas que transportá-la podia matá-la. Cabia ao General decidir, embora não fosse exatamente uma escolha. Ela podia morrer de qualquer jeito.
Na noite seguinte, o estado dela piorou. Agora era impossível movê-la. As meninas circulavam de preto, já de luto. Muitas choravam.
“Eu não fazia ideia de que vocês gostavam tanto da Chloe”, eu disse a uma delas.
Ela soltou uma risada curta e amarga. “Isso não é amor. A morte da Chloe é a nossa sentença”, disse, entre lágrimas.
“Por quê?”
“Nós não somos exatamente as meninas da Chloe. A Baronesa é quem é dona da gente. Ela tem duas filhas — Chloe e Portia. A Chloe nunca ligou para os… negócios da mãe. Viajou o mundo atrás de alegria. Se apaixonou. Quase casou. Mas descobriram que ela não podia ter filhos, e a família dele rejeitou ela. Ela voltou para casa furiosa, e a casa do Barão tremeu naquele dia. As meninas foram divididas em dois grupos. A Chloe se recusou a tocar o negócio de prazeres da mãe. Em vez disso, a gente limpava, entregava mantimentos e cozinhava. A gente está aqui porque a guerra paga. A gente organiza festas e faz o que for preciso. Mas, se a Chloe morrer…” ela fungou, “a gente volta para aquele inferno.”
As palavras me atingiram como um raio.
Eu encarei minha mão horrível. Será que eu conseguia consertar um útero? Eu não sabia. Meu sangue tinha sido misturado com poções e encantamentos para curar todo tipo de ferimento e doença. Eu nunca tinha ouvido falar de falhar.
“Eu vou ficar com a Chloe hoje à noite. Vou vigiar ela”, anunciei.
Eu sabia que tinha prometido parar de curar as pessoas. Mas a Chloe era boa. E o Zach também —
Não. Eu balancei a cabeça. Aquilo tinha sido burrice de adolescente. Eu era crescida agora. Dezessete, quase dezoito. Eu era adulta, capaz de tomar minhas próprias decisões.
Eu só precisava garantir que ninguém me pegasse. Muitas vidas dependiam de a Chloe acordar.
Sentei ao lado dela e segurei sua mão. Estava quente, mas eu sentia a vida escorrendo por entre meus dedos. Então caiu a ficha — eu já tinha visto algo assim antes.
Era veneno. Alguém tinha tentado matá-la. Se ela acordasse, a gente podia pegar quem tinha feito isso.
Tantos bons motivos. Tantos riscos. Mas a Chloe valia a pena.
Eu só precisava de alguma coisa afiada para fazer um corte na minha mão — duas gotas de sangue podiam curá-la. Três talvez até consertassem o útero dela. Eu estava disposta a arriscar.
Só havia um problema: não tinha nada afiado no quarto. Procurei em silêncio, mas só encontrei roupas e livros.
“O que você está fazendo?”
Aquela voz me paralisou.
Isso era ruim. Eu devia estar com cara de culpada, revirando as coisas da Chloe. O tom dele estava mais frio do que eu jamais tinha ouvido.
“Você devia esperar o corpo dela esfriar antes de começar a roubar”, ele disse, gélido, com os olhos ardendo de decepção.
“Eu só queria achar alguma coisa quente pra vestir enquanto eu vigio ela”, menti. Era melhor isso do que admitir que eu precisava de uma lâmina para me cortar.
Ele não acreditou, mas eu não me importei. A guerra tinha acabado; eu nunca mais veria ele.
O General se sentou ao lado da Chloe, em silêncio.
“Ela foi envenenada”, eu soltei, de uma vez.
A cabeça dele ergueu num tranco. “Como você sabe?” Ele puxou uma faca da bota, por instinto, embora mantivesse a lâmina baixa. “Foi você? Ou você viu quem fez?”
Um plano se formou na minha cabeça. Eu precisava daquela faca mais perto.
“Se eu tivesse feito, eu não ia te contar”, eu disse, dando de ombros, largando a mão frouxa da Chloe com descaso.
Dedos fortes se fecharam no meu cabelo, me puxando para trás. A lâmina encostou na minha garganta. Homens eram fáceis demais de provocar.
“Fala”, ele rosnou.
Eu sorri de leve e ergui minha mão horrível até a faca. A lâmina cortou meu dedo antes mesmo de ele perceber minha intenção.
“Você é louca”, ele disse com os dentes cerrados, os olhos se estreitando enquanto recuava.
“Eu já vi esse quadro antes”, eu disse depressa. “Tenho certeza de que é veneno.”
Eu nem sei se ele me ouviu. O rosto dele era indecifrável. Então ele se virou bruscamente e saiu do quarto como uma tempestade.
Finalmente.
Dei três gotas para a Chloe e estanquei o sangue. Minha mão ardia. Eu não tinha me recuperado tão bem quanto eu achava, mas fiquei aliviada por ter feito.
Eu arrumei o lugar, colocando tudo de volta como estava — e então o mundo tombou. Minha cabeça ficou leve. Minha visão ondulou.
O que estava acontecendo?
Eu nunca tinha me sentido fraca por curar antes. O medo me agarrou quando minhas pernas falharam. Eu tentei me manter em pé — só o tempo suficiente para ver a Chloe se mexer e acordar.
Os olhos dela se abriram de uma vez, arregalados, confusos. Então ela apontou para mim, com as mãos tremendo.
“Você. Você me envenenou!”
Suspiros ecoaram atrás de mim.
Nós não estávamos sozinhas.
Será que tinham armado para cima de mim?
Meus joelhos cederam quando a escuridão me engoliu.
