Capítulo 4 O casaco do general
—Não me faça perguntas. Você também devia ter medo dele —Chloe retrucou, ríspida. —Evite o general sempre que puder. Ele é um homem poderoso… poder demais pra um homem só carregar. —Ela me alertou e então emendou: —Que diabos aconteceu com a sua mão?
Eu puxei a mão para fora do aperto dela. —Tá tudo bem. Eu prometo. Você vai ser a primeira a saber se começar a doer ou inchar.
Não era como se Chloe tivesse alguma preferência especial por mim —ela cuidava de todas as meninas. —Por enquanto, você vai evitar água. Vou te colocar na equipe de suprimentos.
Eu odiava suprimentos. Quem comandava era Lisa e, ao contrário da Chloe, Lisa não era boazinha.
—Tira essa bunda preguiçosa do chão e vai trabalhar —ela berrava pra acordar a gente de manhã. A equipe de suprimentos fazia todo tipo de serviço ingrato. A gente não pisava no campo de batalha, mas chegava perto demais. Carregávamos água e comida pros soldados; ouvíamos muita coisa. A batalha estava quase acabando. A gente tinha vencido. Eu não sentia remorso nenhum pela minha antiga tribo. Só me perguntava como a Eva estava.
Foi na equipe de suprimentos que eu percebi o quanto eu era diferente das outras garotas. Minha pele era mais clara; tirando a minha mão horrível, eu era impecável. Elas me olhavam do jeito que a Louise às vezes olhava —como se quisessem me rasgar ao meio, mas soubessem que não podiam.
Só que a Lisa podia. —Leva isso pros homens na base —ela ordenou, me enfiando um cesto leve nas mãos.
—Já tá tarde —eu reclamei. A gente não saía do acampamento a essa hora.
—Esses homens lutam pelo país, pela tribo e pela alcateia. O mínimo que você pode fazer é levar um agrado pra eles, não importa o horário —ela rebateu, cortante.
Era uma boa ação, mas estranha —Lisa não era de fazer boas ações. Eu assenti e carreguei o cesto.
O caminho até a base estava escuro, mas a risada dos homens cortava o ar. Senti o cheiro de vinho antes de ver qualquer um. Eles já estavam bêbados antes mesmo de eu chegar nas tendas.
—Um lanchinho da madrugada pros nossos soldados corajosos —eu disse, animada, oferecendo o cesto. Eram oito; eu via seis com clareza e deduzi que outros dois estivessem por perto.
Um deles me examinou dos cabelos aos pés. Um frio desceu pela minha espinha. Eu larguei o cesto e me virei depressa, mas uma mão no meu ombro me parou.
—Aonde você pensa que vai? —O homem que me segurou se levantou atrás de mim, as mãos me prendendo com tanta força que doeu.
—Eu derrubei o cesto. Aproveitem o lanche —eu disse, tentando manter a voz firme.
Ele riu, o bafo carregado de álcool. Chutou o cesto; um cacho de bananas se espalhou —tava praticamente vazio. —O nosso lanchinho da madrugada é você, linda.
Eu podia ser ingênua em muita coisa, mas eu sabia o que era estupro. Eu já tinha ouvido os gritos quando o capitão frequentemente se forçava sobre as garotas, e eu morreria antes de me submeter a aquilo.
— Solta de mim — eu disse, baixinho. Minha voz saiu baixa, mas não denunciou o meu medo.
O homem riu de novo. — Sim, minha dama. — Em vez de me soltar, ele rasgou a minha blusa.
Eles riram; alguém se moveu para trás de mim e, de repente, eram sete.
Eu não conseguia lutar contra eles — eu não ia vencer —, mas eu morreria tentando. Eu tentei correr; mais do meu vestido se rasgou.
A faixa que segurava meus seios escorregou, deixando meu decote à mostra. Os homens começaram a me passar de um para o outro, cada um puxando e rasgando minha roupa antes de me empurrar para o próximo.
Lutar era inútil; minha força não se comparava à deles. Minhas roupas já eram farrapos quando, por fim, um deles me agarrou e me puxou para perto.
Eu fechei os olhos, esperando o pior. Se ele tentasse tirar mais alguma peça, talvez eu conseguisse pegar uma faca do bolso dele e ameaçá-lo. Talvez não funcionasse, mas eu estava disposta a tentar. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, ele gritou de dor e caiu de joelhos.
Eu não sabia o que tinha acontecido, mas os outros homens deram vários passos para trás.
Eu ergui o olhar e encontrei um par de olhos azuis — olhos cheios de raiva.
— Da próxima vez que uma coisa dessas acontecer na minha base, eu vou cortar as suas mãos fora. As duas. Vou fazer você viver e se contorcer de dor, sabendo que não serve para si mesmo, para este exército nem para a sua família — ele disse, com os dentes cerrados.
Parecia estar lutando para controlar a própria fúria, ou talvez não quisesse me ver daquele jeito. Eu me senti maculada.
Minhas roupas estavam rasgadas em pedacinhos; eu não conseguia juntá-las para me cobrir. O general Luther Lion tirou o casaco e o colocou sobre os meus ombros. O casaco me engoliu — grande demais, pesado, varrendo o chão enquanto nós caminhávamos.
— Venha comigo — ele ordenou. A boca dele estava contraída e a voz ainda carregava raiva.
Eu obedeci, lutando para acompanhar o passo dele.
Passamos pela tenda dele e eu percebi que ele estava me levando até Chloe. Alguém nos encontrou na entrada.
— General! — o homem disparou, chocado ao me ver vestida com o casaco do General.
— Onde está a Chloe? — perguntou o general Luther. Ele não explicou.
— Como o senhor soube que ela está doente? Mandamos chamar o médico... não tem mais nada que a gente possa fazer além de esperar — respondeu o homem.
Meus olhos se arregalaram. Um pensamento automático atravessou minha mente: aquelas pessoas tinham seus próprios métodos de cura. Era lento — mas ia salvar a Chloe. Não ia?
