Capítulo 2 A reivindicação do rio
Meu nome não era Curandeiro, mas ninguém ligava para como eu me chamava. Tudo o que queriam era ser curados — então me chamavam de Curandeiro.
Era o único nome de que eu me lembrava ouvir. Eu nem sabia se algum dia tive outro.
O sol estava prestes a se pôr. Meus olhos estavam grudados nele, o coração martelando no peito, os dedos tremendo de um jeito terrível. Eu ia falhar com a Eva.
Eu ouvia a água com clareza — a correria, a fúria, o jeito como ela batia nas pedras e as desgastava. Mas eu não conseguia senti-la pelo cheiro. Como a Eva esperava que eu sentisse cheiro de água de tão longe? Para piorar, eu ainda estava no alto da árvore, sem fazer ideia de como descer.
Eu tinha me distraído com a altura. Quando olhei para cima de novo, o sol tinha sumido.
Agora.
Eu não pensei. Não calculei. Eu me joguei. Qual era o pior que podia acontecer?
Eu quebrei o tornozelo.
Ou talvez não tenha quebrado — só saiu do lugar.
Era engraçado como eu conseguia curar qualquer pessoa de qualquer coisa, mas não a mim mesmo.
Eu arrastei a perna, ainda tentando captar um rastro de cheiro de água. Quando meu nariz me traiu, voltei a confiar nos ouvidos. Foi aí que eu ouvi eles —
O som de um exército, correndo em quatro patas, nas formas de lobo. Eles vinham atrás de mim.
Eu corri.
Esqueci a dor, esqueci a água — só corri, para longe daqueles sons.
O medo se enrolou em mim, me deixando ainda mais lento do que a dor na perna. Aí tentei de novo. Eu precisava sentir o cheiro da água. Por favor, Deus. Por favor.
Eu não podia me dar ao luxo de correr sem rumo. Se me pegassem, a Eva também estaria perdida. A minha vida já não importava — mas a dela, sim.
Parecia que a mistura enfim tinha feito efeito. Meus sentidos ficaram mais aguçados. Mas o som da água começou a sumir. A água estava adormecendo. Eu já não conseguia ouvi-la. Era por isso que a Eva tinha me mandado seguir o cheiro, não o som.
Eu estava perdido. Mas não podia parar de correr.
A tontura tinha passado, e eu corri mais rápido. Então, por algum milagre, eu finalmente senti.
Água.
No começo era fraco — como um cheirinho suave de comida escapando da panela do vizinho —, mas foi o bastante para me dar força. O bastante para me dar esperança.
Eu parei, sentei, levantei o pé e encaixei ele de volta no lugar com um estalo. Doeu pra caramba, mas eu estava disposto a aguentar. Pela Eva.
Aí eu corri de novo. Mais rápido. Seguindo o cheiro. Abafando o som.
“Finalmente!”, eu gritei. “Água!”
Alegria. Que sensação estranha. Eu não tinha um motivo para senti-la fazia tanto tempo. Mas agora — eu tinha. Eu consegui.
Mas então… e agora?
“Vejo que você recuperou as forças.”
Eu me virei. O capitão estava ali, na forma de lobo, sozinho.
—Volte comigo —ele ordenou.
Olhei em volta. Só terra e água, mais nada. Por que a Eva tinha mandado eu chegar até o rio? Ela disse que aqui eu estaria a salvo. Mas ela sabia que eu não sabia nadar. Eu nunca tinha aprendido.
—Não existe lugar pra uma coisa como você neste mundo, Curandeira —disse o capitão. —Você só serve pra uma coisa: curar. Você vai comigo.
—Prefiro morrer. —Minha voz saiu áspera, quase um rosnado, enquanto eu recuava e entrava na água. Estava mais funda do que eu imaginava; com um passo, já batia nos meus joelhos.
—Volte aqui, Curandeira —rosnou o capitão.
—Vem me pegar —provoquei.
Eu não sabia o motivo, mas o capitão não conseguia chegar mais perto. Ele parou exatamente onde estava. A Eva era um gênio. Eu ia dar um beijo nela quando a encontrasse de novo.
Mais um passo, e a água chegou à minha cintura.
—Para aí, Curandeira!
Dessa vez, eu não estava com medo. —Por que você não vem me impedir? —respondi, dando de ombros.
Outro passo —a água subiu até o meu peito.
—CURANDEIRA!
Levantei o dedo do meio, como eu tinha visto a Eva fazer quando ele virava as costas, e então me deixei cair, me rendendo à correnteza —ao que quer que o destino quisesse de mim.
Infelizmente, a água não parecia ter fim —e até água parada podia afogar alguém.
O rio devia dormir como um pássaro, porque de repente acordou e voltou a se enfurecer. Ele me empurrou como se eu fosse uma inimiga, tentando me dominar e me destruir.
Não havia nada pra me segurar, nada pra eu agarrar. A água me arremessou contra uma pedra —duas vezes. Minha cabeça latejou, e a raiva queimou por dentro.
—Para de tentar me afogar! —implorei, mas a água não tinha ouvidos.
Então eu consegui agarrar uma pedra. Eu tinha certeza de que o rio queria esmagar minha cabeça pela terceira vez, mas dessa vez não.
A água precisava ter uma alma —ou um espírito. Nada me convencia de que o que aconteceu depois foi coincidência.
—Pois saiba de uma coisa: eu venci! —eu gritei. —Você tentou, mas não conseguiu. Eu não me afoguei!
Eu berrava com o rio, esquecendo que ainda estava dentro dele, até minhas mãos começarem a escorregar da pedra.
—Não. Não, não... por favor, me desculpa! —eu arquejei. —Eu fui grossa, espírito da água. Já brincamos tempo demais. Eu não quero brincar mais. Por favor, se acalma. Por favor.
Como num passe de mágica, a água ficou calma. Na hora.
Ao que parece, a água gostava que suplicassem. Que coisa arrogante.
—Saia daí e me diga quem você é.
A voz era fria —tão fria que me deu um arrepio na espinha. Eu nunca tinha ouvido uma voz tão poderosa. Cada nervo do meu corpo reagiu a ela.
Eu estava certa.
Era o espírito da água.
