Curandeira: A Última de Sua Espécie.

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Capítulo 1 Curador.

“Se a gente tirar mais uma gota de sangue dela, ela morre”, disse a mulher, num tom baixo. Eu não achava que ela se importasse comigo — ela só não podia se dar ao luxo de me ver morrer agora, não depois do dinheiro que tinha pago por mim.

Eu não precisava de espelho pra saber que eu estava pálida como papel, mas era a tontura que doía mais. Eu tinha perdido tanto sangue que mal conseguia ficar em pé.

“Os meus homens estão morrendo”, rosnou a capitã de volta. As duas mantinham a voz baixa por precaução — se alguém descobrisse que elas estavam comigo, muitos outros viriam atrás de mim.

“Ah, para com isso, Louise. Você já salvou mais homem do que muita gente. Do outro lado eles estão perdendo soldados, e os seus não conseguem nem se manter vivos. É nessa hora que você chama os médicos, usa atadura e um analgésico como todo mundo”, a mulher sibilou.

A capitã rosnou de volta, mas a mulher não parou. Ela era a única loba que nunca recuava quando a capitã ameaçava. Parecia que as duas se conheciam fazia tempo.

A capitã saiu do acampamento a passos pesados, furiosa.

A mulher me ergueu e enfiou uma tigela nos meus lábios. Os gestos eram impacientes, mas também cuidadosos. “Bebe isso. Vai te ajudar a repor o sangue. Do jeito que você tá, parece que vai desmaiar a qualquer momento.”

Eu bebi depressa, mas parei quando aquilo subiu direto pra minha cabeça, e eu perdi a consciência por um instante.

Era amargo, mas familiar.

“Dorme. Quando você acordar vai ter comida. Você precisa se recuperar o mais rápido possível — a gente precisa de você”, disse ela, me deitando de novo no colchão fino.

O sono não veio. Em vez disso, fechei os olhos e ouvi tudo ao meu redor. Como qualquer outro lobisomem, minha audição era afiada e precisa — mas, diferente dos outros, eu enxergava o mundo pelos ouvidos. Eu reconhecia passos, padrões de respiração, vozes, tons e sotaques. Eu sabia a que distância a capitã estava. E também sabia que ela tinha voltado atrás. Ela estava vindo para a tenda.

A mulher também deve ter percebido, porque chamou a filha.

“Eva!”, chamou, uma única vez. Eva apareceu.

Os passos da Eva eram os únicos que eu não conseguia acompanhar — era como se ela flutuasse, e ela era rápida. Eu gostava da Eva. Ela me alimentava melhor do que a mãe dela, embora esse carinho não fosse correspondido. Se fosse por ela, a Eva me odiava.

“Tira a Curandeira daqui”, disse a mulher. “A capitã tá voltando pra pegar ela. A gente não pode deixar que ela fique com a Curandeira.”

Eu suspirei. Outra briga — gente lutando por minha causa, tudo por ganância.

Eu já disse que a Eva era tão forte quanto rápida? Ela me tirou do chão como se eu não pesasse nada, se movendo depressa — talvez até mais depressa do que o normal.

Eu olhei para o rosto dela. O maxilar estava travado. Eva estava com raiva.

“Desculpa”, eu sussurrei. Falar era difícil; eu estava fraca demais, mas eu sabia que ela tinha me ouvido.

“Cala a boca”, ela rosnou.

Eu me perguntava onde ela pretendia me esconder. A fronteira não tinha muitos pontos cegos — só montanhas, pedras, algumas cavernas provavelmente cheias de animais perigosos e uma ou duas árvores.

Paramos debaixo de uma árvore.

— Curandeiro — Eva chamou, baixinho.

— Sim — respondi com esforço. A mistura ainda não tinha começado a fazer efeito.

— Você nunca desejou ser livre? — ela perguntou, me pegando de surpresa.

— Sua mãe disse que… — comecei, mas ela me interrompeu.

— Esquece o que a minha mãe diz. Ela não vai salvar a sua vida. Eu vi o que vem aí — nós vamos perder essa batalha. O capitão não vai aceitar a derrota enquanto você estiver vivo. Ele vai te esquartejar e dar o seu coração pros homens dele, porque acredita que o seu sangue mantém ele forte. O general está ferido — muito. Você sabe que o capitão não é nada sem ele. Mas, se você perder mais uma gota de sangue, você morre. — Ela sustentou meu olhar enquanto falava.

Havia tanta paixão na voz dela — raiva, dor e tristeza —, mas eu estava fraco demais para sentir qualquer coisa.

— Como você viu o fim da batalha? — perguntei, embora já soubesse a resposta. Eu só queria que ela admitisse.

Eva puxou o ar. Ela percebeu que eu já sabia. Talvez fosse por isso que eu gostava dela — porque, como eu, ela era diferente. Ela tinha visões.

— Não deixa ninguém saber — eu a adverti. — Eu posso morrer aqui, mas você merece muito mais. Não tente mudar o destino de ninguém, Eva. Não avisa ninguém. Só vive a sua vida como uma pessoa normal. — Minha voz saiu fraca, mas minhas palavras foram firmes.

Eu achei que estava fazendo um favor ao mundo quando comecei a curar. Nunca imaginei que ia acabar assim. Amor era uma mentira. Não existia.

— Eu vou te ajudar a subir nessa árvore — disse Eva, ignorando meu aviso. — Espera até o sol se pôr. No segundo em que isso acontecer, corre. Eu sei que você não consegue sentir o cheiro do rio, mas você precisa tentar. Você vai ter umas duas horas. Não segue o som — ele vai te enganar. Segue o cheiro do rio. Você vai estar seguro assim que atravessar.

— Então vem comigo — eu disse, estendendo a mão para tocar a bochecha dela. — Vamos fugir juntos.

Pela primeira vez, eu vi a Eva forte parecer frágil.

— O meu capitão mata a minha mãe — ela confessou. Eu entendi que ela tinha visto isso na visão — a mãe dela ainda estava viva.

— Então por que me tirar de lá? Ele pode poupar ela se me pegar — perguntei, confuso.

Eva balançou a cabeça.

— Curandeiro ingênuo. O mundo não é tão simples quanto você pensa, e mesmo assim tanta coisa depende de você. Você precisa continuar vivo a qualquer custo. Lembra: quando o sol se pôr, segue o cheiro da água e corre. A sua vida depende disso. O seu destino está do outro lado das águas. Até a gente se encontrar de novo, meu querido amigo.

Ela me ajudou a subir na árvore, mais alto do que eu conseguiria subir sozinho, e depois me deixou ali — sozinho.

Eu me sentei e esperei o sol se pôr.

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