Capítulo 6
Ponto de vista de Rachel
Eu não dormi.
Como eu poderia?
Trancada neste quarto, guardas postados do lado de fora da minha porta, meu celular confiscado... toda escolha tinha sido arrancada das minhas mãos.
Ao nascer do sol, eu estava encolhida ao lado da janela, encarando o horizonte enquanto as lágrimas deslizavam em silêncio pelas minhas bochechas. Eu continuava enxugando, como se escondê-las diminuísse a dor.
Eu tinha mesmo vendido a minha alma ao Diabo.
E agora eu estava presa.
Uma batida suave interrompeu meus pensamentos.
—...Mamãe?
Eu me virei.
Leo espiava pela porta, vestido com seu pijama azul, um sorriso tímido no rosto. Ele entrou de mansinho, as mãozinhas torcendo nervosas.
Os olhos dele se ergueram até os meus, grandes e preocupados.
—O papai te deixou triste?
A pergunta me atravessou por inteiro. Eu caminhei até ele e me ajoelhei, puxando-o para os meus braços.
—Não, meu amor —sussurrei, uma mentira que minhas lágrimas denunciaram.
Ele me abraçou mais forte, como se tivesse medo de que, se soltasse, eu fosse desaparecer.
Depois de um instante, ele puxou a manga da minha blusa.
—Você quer ir para o jardim comigo? Só eu e você. Por favor?
Eu congelei.
A regra de Damien ecoou na minha cabeça: “Você não vai sair deste quarto a menos que o Leo peça por você pessoalmente.”
Se o Leo me levasse... os guardas obedeceriam.
Eu poderia passar por eles.
Eu poderia fugir.
Talvez ligar para o meu irmão. Pedir que ele comprasse passagens para outro continente. Qualquer lugar, longe do Damien.
Minha respiração travou.
Essa era a minha chance.
—Tudo bem —eu sussurrei.
Leo bateu palmas, sorrindo radiante, e agarrou minha mão, me puxando para fora pela porta.
Os guardas se endireitaram imediatamente e então relaxaram quando viram Leo me conduzindo.
Caminhamos pelo corredor, e meu coração martelava a cada passo.
À frente, vários funcionários estavam ocupados carregando bandejas e pastas em direção à ala leste.
Na esquina, uma empregada passou com um cesto de roupas dobradas.
—Srta. Anita —eu disse baixinho. —Você poderia levar o Leo para tomar um suco? Ele está com fome.
Ela fez uma pequena reverência.
—Sim, Sra. Montrel.
Leo piscou para mim, confuso.
—Mas a gente vai pro jar—
—Tudo bem, bebê —interrompi com delicadeza. —Eu vou logo atrás de você. Só preciso pegar uma coisa.
Leo hesitou, mas obedeceu, pegando a mão de Anita enquanto ela o conduzia para longe.
No segundo em que eles viraram a esquina, meu peito se apertou dolorosamente.
Era agora.
Eu me virei e andei o mais rápido que consegui —sem correr, ainda não— pelo corredor.
Passei pela ala oeste, atravessei a sala de estar principal, tentando parecer natural.
Meu pulso retumbava quando avistei mais homens perto da porta da frente.
Um deles semicerrrou os olhos para mim.
—Sra. Montrel, a senhora está fora do seu quarto? Onde está Leo? —perguntou, com a voz educada, mas os olhos desconfiados.
Minha voz permaneceu baixa e firme. “Leo está na cozinha. Ele esqueceu os brinquedos no pátio. Só vou buscá-los.”
Ele me estudou por um longo instante, então assentiu. “Minhas desculpas, senhora. Pode ir.”
Forcei um sorriso tenso e passei por ele pela porta antes que minhas pernas cedessem.
Cheguei aos fundos da mansão e escorreguei pela passagem dos criados até o quintal.
Um muro de pedra se erguia à minha frente — alto, frio e coberto por trepadeiras verdes e espessas.
Fitei-o, com a respiração trêmula.
É isso. Faça agora ou morra aqui.
Agarrei as trepadeiras. Elas aguentaram.
Bom o bastante.
Mão após mão, pé após pé, subi. Minhas palmas ardiam, e meus braços tremiam sob o peso do meu corpo. As trepadeiras se cravavam na minha pele, arranhando-a até deixá-la em carne viva e vermelha.
Por algum milagre, cheguei ao topo.
Joguei a perna por cima e me deixei cair.
O impacto fez uma dor disparar pelas minhas costas, arrancando o ar dos meus pulmões.
Mas eu não ligava.
Levantei às pressas. O mundo aberto se estendia diante de mim.
“Eu consegui”, sussurrei. “Estou livre.”
Então ouvi gritos.
Vozes. Homens chamando da mansão. Passos correndo em direção ao portão externo.
Eles ouviram minha queda.
Merda.
O pânico me atravessou como um choque. Disparei em direção às árvores, com os pés batendo no chão e galhos chicoteando meu rosto e meus braços.
Eu corri.
E corri.
Sem nem uma vez olhar para trás.
—-
Ponto de vista de Leo
Leo cantarolava sentado no balcão da cozinha, balançando as pernas enquanto tomava suco de maçã. Os funcionários se moviam ao redor dele, preparando o café da manhã e rindo baixinho.
Ele continuava lançando olhares para a entrada.
Esperando.
Mamãe já devia estar ali.
Ele franziu a testa e deslizou para fora do balcão com um baque suave.
“Onde ela está...?”, sussurrou.
Ele saiu da cozinha, com suas pantufinhas batendo depressa contra o piso de mármore.
“Mamãe?”, chamou, espiando ao redor da esquina.
Nenhuma resposta.
Em seguida, foi até a sala de estar.
Vazia.
“Mamãe...?” Sua voz ficou menor.
Ele correu pelo corredor, verificando um cômodo após o outro.
A escadaria.
Os quartos de hóspedes.
O corredor do lado de fora da porta do quarto dela.
Ainda nada.
Ele esfregou os olhos com as costas da mão, fungando.
“Talvez ela esteja escondida...”, sussurrou, embora sua voz tenha falhado.
Ele correu em direção ao pátio, a esperança se acendendo por um segundo.
Mas o pátio estava silencioso.
O vento movia as folhas.
Era só isso.
A garganta de Leo se apertou enquanto ele se abraçava.
“Mamãe... eu fiz alguma coisa?” A voz dele tremia. “Você está brava comigo...?”
Ele deu um passo lento à frente e parou quando ouviu passos apressados atrás dele.
Vários guardas se apressaram em direção ao pátio, os rostos tensos. Eles pararam ao ver Leo.
“Jovem Mestre?”, um deles perguntou, confuso.
Leo ergueu os olhos úmidos para eles.
“Ela... foi embora”, disse em voz baixa. “A mamãe foi embora.”
As expressões dos homens mudaram na mesma hora — choque, preocupação, medo.
Leo enxugou as lágrimas depressa, constrangido, balançando a cabeça enquanto mais lágrimas caíam.
“Ela disse que estaria comigo em breve... mas foi embora... eu não consigo encontrá-la.”
Outro som de passos apressados ecoou por trás.
O Sr. Vance apareceu, respirando um pouco mais pesado que o normal, claramente avisado sobre o barulho perto do muro dos fundos.
Ele parou ao ver os olhos vermelhos de Leo e suas mãos trêmulas.
“Jovem Mestre...?” Vance se agachou. “O que aconteceu?”
Leo balançou a cabeça, a voz se partindo. “Mamãe não voltou.”
“Eu acho que ela... ela nos deixou...”
O rosto do Sr. Vance mergulhou num silêncio profundo e inquieto.
Atrás dele, dois homens trocaram olhares sombrios.
Todos já sabiam o que aquilo significava:
Rachel havia escapado.
E Damien não ia reagir bem a isso.
Ponto de vista de Damien
Eu estava no meu escritório, revisando relatórios, quando passos pesados correram pelo corredor.
Rápidos demais.
Altos demais.
Alguém estava em pânico.
Antes que eu pudesse me mover, a porta se escancarou.
Walker estava parado ali, com a respiração irregular.
“Senhor...”
Ele hesitou.
Nunca era um bom sinal.
Ergui a cabeça devagar, friamente. “Onde”, eu disse, em voz baixa, “está meu filho?”
Walker engoliu em seco. “Ele está seguro. Está com o Sr. Vance, mas...”
“Mas o quê?”
Um par menor de passos ecoou de repente atrás dele.
Leo.
Ele entrou correndo no escritório, lágrimas escorrendo pelas bochechas.
Fiquei de pé imediatamente. “Leo?” Minha voz se suavizou por um segundo. “O que aconteceu?”
Leo se atirou em mim, agarrando minha camisa com mãos trêmulas. “A mamãe foi embora!”, soluçou.
Tudo dentro de mim ficou imóvel.
“...O quê?”
Ele chorou ainda mais, enterrando o rosto no meu peito. “Ela foi embora... foi embora sem mim. Eu procurei em todo lugar. Ela sumiu...”
Meu maxilar se contraiu, uma tempestade surgindo por trás dos meus olhos.
Eu me agachei e segurei o rosto dele com delicadeza. “Leo, olhe para mim”, eu disse com firmeza. “Quem te disse que ela foi embora?”
Leo fungou. “Eu vi... ela não estava no jardim... não estava no quarto dela... e os guardas lá fora disseram que ouviram alguma coisa perto do muro dos fundos.”
Walker deu um passo à frente com cuidado. “Havia sinais de escalada, senhor. Trepadeiras arrancadas. Pegadas do lado de fora do limite da propriedade.”
Meus olhos escureceram. A raiva ardeu, contida, no meu peito diante da audácia dela — ir embora e fazer meu filho chorar depois de tudo.
Vance chegou logo em seguida, parecendo cansado, preocupado e decepcionado. “A garota escapou, senhor”, ele confirmou.
Leo chorou ainda mais, tremendo. “Papai... por que ela me deixou? Eu fiz alguma coisa errada?”
A pergunta me atingiu como um golpe.
“Não”, respondi na mesma hora, puxando-o para mais perto. “Você não fez nada de errado.”
Leo continuou chorando na minha camisa, os ombros pequenos estremecendo.
Depois de um instante, ergui o olhar para Vance. Minha voz virou gelo. “Por que ninguém impediu ela?”
Vance sustentou meu olhar, calmo, porém firme. “Nós não percebemos, senhor. Não achamos que ela fosse tentar fugir tão cedo.”
Minhas narinas se dilataram. “Aquela garota tinha uma única função—”
“—ser mãe do Leo”, Vance interrompeu, franzindo a testa. “Não ser uma prisioneira.”
Meus olhos vacilaram — raiva e, depois, outra coisa.
Vance continuou, em voz baixa: “Se o senhor prende uma jovem, não pode esperar que ela fique. Ou que seja feliz. Ou que isso faça bem ao menino.”
Os soluços de Leo diminuíram, mas ele se agarrou a mim com mais força.
“E”, acrescentou Vance, ainda mais baixo, “o senhor se esquece de que sua mãe também já foi uma jovem. O senhor sabe o que o isolamento pode fazer com alguém.”
Silêncio.
Eu congelei por completo.
A menção à minha mãe não me enfureceu. Ela desligou alguma coisa dentro de mim. Me fez pensar.
Só por um segundo.
Então a frieza voltou.
Eu me levantei, erguendo Leo nos braços. “Vance”, eu disse, cortante, “reúna os carros.”
Ele assentiu.
“Vamos trazê-la de volta”, rosnei. “Viva. Sem um arranhão. Ninguém encosta nela.”
Walker deu um passo à frente. “Sim, senhor.”
Voltei o olhar para Vance, a voz fria e afiada. “Vance... quando trouxermos ela de volta, ela não vai sair do quarto de novo sem a minha permissão. Desta vez, nada de erros.”
A cabeça de Leo se ergueu num sobressalto. “Papai, não!”, ele gritou. “Ela vai ficar com medo!”
Aquilo me atingiu mais do que deveria.
Meu maxilar retesou antes de eu me obrigar a responder. “...Tá bom”, murmurei. “A gente... conversa com ela primeiro.”
Os ombros pequenos de Leo relaxaram, e ele encostou a testa na minha clavícula.
Passei uma mão nas costas dele, uma vez, firme.
Então a suavidade desapareceu.
Minha expressão endureceu de novo, e as sombras voltaram. “Andem”, ordenei.
Os homens se dispersaram na mesma hora, os passos sumindo pelo corredor enquanto se preparavam para iniciar a busca.
Vance suspirou, cansado e preocupado, mas os seguiu, já dando ordens discretas.
Eu apertei Leo contra mim enquanto saíamos do escritório.
“Papai?”, ele sussurrou, com a voz fraca, falhando. “Você... você vai trazer a mamãe pra casa, né?”
Minha voz baixou, gentil apenas com ele. “Vou”, eu disse. “Eu vou trazer ela pra casa.”
Leo soltou o ar, aliviado, agarrando-se a mim.
Mas, assim que ele abaixou a cabeça de novo, o calor na minha voz morreu.
E a escuridão voltou aos meus olhos.
