Capítulo 4
Ponto de vista de Rachel
Revirei a gaveta grande, empurrando de lado camadas intermináveis de roupas antes de atravessar o quarto às pressas. Meus livros da faculdade e os exemplares gastos estavam empilhados sobre a escrivaninha, à espera. Enfiei tudo na minha bolsa, com uma agitação nervosa vibrando sob a pele.
Meu celular estava sobre a cama enorme e aconchegante, com a voz do meu pai chiando pelo alto-falante.
— Espero que ele esteja te tratando bem — disse meu pai, com a voz carregada de preocupação.
— Acho que sim — murmurei, pegando minha saia e vestindo-a. — Ele não fez nada. Na verdade, nem o vi nesses últimos dias. Ele quase nunca está por perto. Ao contrário do filho dele.
— Filho? — meu pai respondeu, confuso.
Soltei uma risadinha nervosa.
— Aparentemente, o rei da máfia tem um menininho. Ele me chama de “mamãe”. É... estranho.
A linha ficou em silêncio por um momento enquanto eu escovava o cabelo e me sentava diante da penteadeira. Meu reflexo parecia calmo — uma mentira gritante que meu pulso frenético desmentia.
— E-eu sinto muito, Rachel — meu pai disse de repente, a voz falhando. — A culpa disso tudo é minha.
Suspirei baixinho.
— Tudo bem, pai. Eu fiz essa escolha. Ou eu ou você sairíamos machucados, e ele não... — parei no meio da frase, com as palavras presas na garganta. — Ele não me machucaria — terminei em voz baixa. — Pelo menos... eu espero que não.
— Eu vou consertar isso — prometeu meu pai. — Vou dar um jeito de pagar o que devo e tirar você daí. Vou ser melhor por você e pelo seu irmão, eu juro.
Sorri de leve, porque o som daquelas palavras era familiar demais. Eu tinha ouvido essa promessa a vida inteira — depois de cada emprego perdido, de cada aposta ruim, de cada acesso de raiva.
— Tudo bem, pai — falei suavemente. — A gente se fala depois, tá? Preciso ir para a faculdade.
— Ah? — ele perguntou, hesitando. — Ele concordou com isso?
Congelei, com o tubo de gloss suspenso na mão.
Ele concordou com isso?
Meu coração disparou de nervoso ao me lembrar da regra que o Sr. Vance tinha deixado tão clara: sempre pedir permissão.
Encarei meu reflexo, com os lábios brilhantes tremendo. Eu não tinha pedido.
E não fazia ideia de como fazer isso.
Saí do meu quarto com a bolsa pendurada no ombro. Os dois guardas em seu posto habitual, ao lado da escada, se endireitaram, alertas e indecifráveis.
Um deles lançou um olhar para minhas roupas — a blusa discreta e a saia longa, meus livros bem arrumados no braço.
— A senhora está arrumada, Sra. Montrel?
Ofereci um sorriso sem jeito.
— Sim. Tenho aulas para assistir.
O mais jovem dos dois franziu levemente a testa, trocando um olhar com o parceiro.
— A senhora vai precisar pedir permissão ao chefe primeiro — disse com cuidado.
Suspirei, irritada, mas tentando continuar educada.
— E onde está o chefe?
O guarda mais velho se endireitou.
— No escritório. Vamos acompanhá-la até lá.
Meu pulso acelerou.
Claro que ele estava.
Eu evitava aquele escritório desde o dia em que cheguei. O corredor escuro que levava até ele sempre parecia mais frio, mais pesado, como se a própria casa estivesse me avisando para ficar longe.
Mesmo assim, assenti.
— Tudo bem.
Enquanto caminhávamos pelo corredor, senti os olhos deles nas minhas costas — não de forma ameaçadora, apenas vigilantes. Cada passo ecoava no piso de mármore.
Quando chegamos às grandes portas de madeira do escritório dele, minhas palmas já estavam úmidas.
Um dos guardas fez um breve aceno com a cabeça.
— Ele está aí dentro. É só bater uma vez.
Só uma vez.
Como se bater mais pudesse acordar uma fera adormecida.
Engoli em seco, fiquei de frente para a porta e bati.
— Entre.
A palavra veio baixa e firme através da madeira, quieta, mas suficiente para fazer meu estômago se revirar.
Empurrei a porta devagar para abri-la.
Damien estava sentado atrás de uma imponente mesa de mogno, com as mangas dobradas, enquanto um leve cheiro de fumaça e tinta impregnava o ar. Sua atenção estava fixa nos papéis à sua frente, a caneta deslizando com precisão sobre um documento.
Ele não levantou os olhos.
— Precisa de alguma coisa, Sra. Montrel?
Hesitei.
— Sim... eu queria pedir permissão para assistir às minhas aulas hoje. Estou no segundo ano, e faltar a mais aulas pode...
— Negado.
A única palavra caiu como um martelo.
Meus dedos se apertaram na alça da bolsa.
— Você nem me deixou terminar.
Então ele olhou para mim — devagar, de propósito. Seus olhos escuros encontraram os meus, frios e analíticos.
— Não preciso deixar. Você fez um acordo. Vai ficar aqui até que eu decida o contrário.
Puxei o ar de forma trêmula, forçando minha voz a permanecer firme.
— Aquele acordo não significava que eu tinha que parar de viver minha vida. Você não pode esperar que eu simplesmente...
Ele se levantou.
A cadeira raspou de leve quando ele saiu de trás da mesa, cada passo medido. O ar mudou, ficando mais frio, mais pesado.
— Cuidado, Sra. Montrel — ele murmurou. — A senhora está se esquecendo em que casa está.
Meu coração disparou, mas me recusei a recuar.
— Eu não sou sua prisioneira.
Um lampejo de diversão passou por seu olhar. Ele se inclinou um pouco, baixando a voz.
— Não é?
Engoli em seco, e minha desafiança vacilou diante da proximidade dele. Sua presença era esmagadora — a autoridade silenciosa, o cheiro da sua colônia, o perigo pairando no espaço entre nós.
A porta se abriu com um clique antes que eu pudesse responder.
— Sr. Montrel — veio uma voz calma. — Talvez possamos discutir isso racionalmente?
O Sr. Vance entrou, tão composto como sempre, uma bandeja de prata em uma das mãos, como se não tivesse acabado de entrar no meio de uma tempestade.
Damien se endireitou, com a irritação estampada no rosto.
— Tem algo a dizer, velho?
— Sim — disse Vance simplesmente, pousando a bandeja. — A Sra. Montrel está estudando desenvolvimento e cuidados infantis. É por isso que o vínculo dela com o jovem mestre Leo é tão natural. Permitir que ela continue os estudos só ajudaria o menino — e ajudaria o senhor.
A mandíbula de Damien se contraiu, mas ele não respondeu.
Vance continuou com gentileza:
— O senhor a trouxe para cá por causa de Leo, não foi? Para dar a ele algo verdadeiro.
Por um momento, o silêncio preencheu o escritório.
Então Damien falou, a voz mais baixa.
— Leo vai ficar sozinho. Ele não tem ninguém para brincar, velho.
As palavras saíram mais ásperas do que ele pretendia — mais suaves, de certo modo.
Antes que eu pudesse me conter, soltei:
— Ele não vai à escola?
A pergunta ficou suspensa no ar.
O olhar de Damien se voltou para mim de repente, afiado como vidro.
— Eu decido o que é melhor para o meu filho — disse ele, em tom controlado.
Fiquei imóvel, percebendo que tinha ultrapassado um limite, mas o tom comedido do Sr. Vance suavizou o momento.
— Ele tem um tutor particular, Sra. Montrel — disse Vance com delicadeza.
Os olhos de Damien se voltaram para ele, frios, mas tensos.
— As autoridades estão no meu encalço. Não posso correr o risco de que qualquer pessoa ligada a mim esteja lá fora — nem ela, nem Leo.
Pisquiei, tentando entender o que ele queria dizer. Era medo? Ou controle?
Vance sustentou seu olhar, sem vacilar.
— Ela é uma mulher jovem, senhor. Pelo próprio bem-estar, ela precisa sair às vezes. Não a mantenha trancada, ou o senhor vai...
— Chega — Damien o interrompeu com rispidez.
A boca do velho se fechou, mas seus olhos carregavam uma tristeza silenciosa.
Damien se virou de volta para a mesa, a voz baixa.
— Isso é tudo.
Vance fez uma leve reverência.
— Sim, senhor.
Fiquei parada junto à porta, sem saber se devia agradecê-los ou simplesmente desaparecer. A tensão pressionava minha pele, pesada e sufocante.
Por fim, girei a maçaneta e saí de mansinho. A porta se fechou com um clique, selando as palavras não ditas.
Mas, no instante em que comecei a descer pelo corredor, ouvi a voz do Sr. Vance, baixa e gentil, carregando a verdade como um peso.
— Você não é ele, rapaz.
As palavras me paralisaram.
Congelei no meio do passo, olhando de relance para a porta fechada. Você não é ele.
A frase se repetiu na minha mente, estranha e pesada. Quem era “ele”? E por que parecia doer tanto dizê-lo?
Apertei a mão na alça da minha bolsa, e os livros lá dentro de repente pareceram inúteis. Eu tinha vindo perguntar sobre a escola, sobre o mundo lá fora — mas agora até essa esperança parecia pequena.
O corredor se estendia à minha frente, silencioso e interminável. Do lado de fora, uma faixa de céu azul era visível pelas janelas altas, brilhante e distante.
Eu não tinha saído além dessas paredes desde a noite em que cheguei. De repente, a ideia da luz do sol na minha pele pareceu uma lembrança que talvez eu nunca recuperasse.
Soltei um suspiro trêmulo, engolindo a ardência na garganta.
As palavras do Sr. Vance ecoaram de novo, mais suaves dessa vez, como um aviso que eu não deveria ter ouvido.
Você não é ele, rapaz.
Quem quer que “ele” fosse, eu tinha a sensação de que era a razão de aquela casa parecer assombrada.
— Mamãe!
A vozinha de Leo quebrou o silêncio. Virei-me quando ele correu na minha direção, urso de pelúcia na mão, os cachos balançando.
Forcei um sorriso e me agachei para encontrá-lo, envolvendo seu corpinho nos braços. O calor dele acalmou alguma coisa dentro de mim, nem que fosse só por um momento.
— Onde você estava? — ele perguntou, olhando para cima com os grandes olhos castanho-esverdeados.
— Só estava conversando com o seu papai — sussurrei.
Ele sorriu, satisfeito, e puxou minha mão.
— A gente pode brincar agora?
Assenti e deixei que ele me conduzisse pelo corredor. A risada dele ecoava suavemente, mas meu sorriso não chegava aos olhos.
Porque, mesmo caminhando ao lado dele, eu não conseguia me livrar da sensação de que estava vivendo em uma casa cheia de fantasmas — e de que Damien Montrel ainda estava lutando contra um dos seus.
