Capítulo 3
O quarto ficou em silêncio depois das palavras do Sr. Vance.
— Sra. Montrel, conheça o Mestre Leo.
Por um momento, nenhum de nós se mexeu. Leo me encarou, pequeno e quieto, os olhos cor de avelã bem abertos e cheios de curiosidade.
O Sr. Vance limpou a garganta de leve. — Vamos deixar vocês dois se conhecerem — disse, fazendo um gesto para o homem mais jovem segui-lo.
Ao chegarem à porta, o Sr. Vance se inclinou um pouco e murmurou:
— Ele precisa de uma mãe, Sra. Montrel. Não de outra cuidadora.
Então ele saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
O silêncio que veio em seguida foi constrangedor e delicado. Leo mexia em um carrinho de brinquedo, fingindo não olhar para mim.
Fiquei imóvel, chocada ao descobrir que Damien Montrel, o temido chefe da máfia, tinha um filho de quem ninguém jamais ouvira falar.
Forcei-me a me mexer. Agachando-me, tentei não parecer muito invasiva.
— Oi — falei com suavidade. — Você tem uma bela coleção de brinquedos.
Ele não respondeu. Seus lábios pequenos se comprimiram em um biquinho.
Depois de uma pausa, ele perguntou, quase em tom de acusação:
— Você é outra babá?
O tom me pegou de surpresa. Não era rude, só triste.
— Eu falei pro papai que não quero outra — acrescentou, cruzando os bracinhos.
Algo dentro de mim se apertou. A voz dele carregava uma solidão que nenhuma criança de cinco anos deveria conhecer.
Sorri, adotando o tom calmo que eu usava na creche.
— Ah, é? Você não gosta de babás? Por quê?
Leo lançou um olhar cauteloso para mim.
— Elas sempre ficam bravas comigo. Dizem que eu não escuto.
— Talvez você não escute mesmo — provoquei de leve.
— Eu escuto! — protestou, na defensiva. — A culpa não é minha se elas não gostavam das minhas pegadinhas.
Pisquei.
— Suas pegadinhas?
Ele assentiu em direção à TV grande presa na parede azul do quarto.
— O Homem da Meia gosta de pegadinhas.
Baixinho, murmurei:
— Acho que vamos ter que investigar um pouco os desenhos que você assiste.
Voltei a olhar para ele, segurando o riso.
— Bem — falei suavemente — ainda bem que eu não sou sua babá, então.
Os olhos dele se arregalaram, e ele ergueu a cabeça de repente.
— Você não é?
Balancei a cabeça, ainda sorrindo.
Por um segundo ele pareceu confuso, depois esperançoso.
— Então... você é a minha mamãe? — sussurrou. — O papai disse que a mamãe ia voltar logo.
A pergunta me atingiu com mais força do que eu esperava. Meu sorriso vacilou.
Eu poderia tê-lo corrigido. Poderia ter dito algo seguro. Mas, quando olhei para o rosto dele, para o jeito como buscava uma resposta na qual desesperadamente queria acreditar, meu peito doeu.
Então eu assenti.
— Sim — sussurrei. — Eu sou sua mamãe.
O rosto de Leo se iluminou na mesma hora. Ele correu direto para mim, os bracinhos envolvendo a minha cintura. O calor repentino fez minha respiração falhar.
— Onde você estava? — perguntou contra a minha blusa, a voz trêmula. — O papai disse que você tinha ido embora.
Fiquei imóvel, sem saber como responder, mas o abraço dele só se apertou mais. Devagar, eu o abracei de volta.
— Está tudo bem — murmurei, apoiando o queixo nos cachinhos macios dele. — Estou aqui agora.
Pela primeira vez desde que eu chegara àquela mansão, meu medo diminuiu, substituído por algo mais suave e por algo muito mais perigoso.
—-
Ponto de vista de Damien
Observei a tela de segurança em silêncio.
Rachel estava ajoelhada ao lado de Leo, e o menino se agarrava a ela como se a conhecesse desde sempre.
O Sr. Vance estava ao meu lado, de braços cruzados. Ele era meu homem de maior confiança.
— Você estava certo sobre ela — disse ele em voz baixa.
— Pelo menos o velho bêbado conseguiu criar um filho decente — murmurei, batendo o dedo na pasta grossa marcada Família Owens.
A boca do sr. Vance se curvou em um pequeno sorriso. — Os erros de um dos pais não determinam o futuro de um filho. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.
Soltei o ar com força, cansado das lições dele. — Chega, velho. Vá verificar o pai e tenha certeza de que ele se lembra do nosso acordo.
Ele assentiu e saiu da sala.
Sozinho, voltei a atenção para a tela.
Rachel ainda estava lá, segurando meu filho.
E, por motivos que eu não queria nomear, não desviei o olhar.
—-
Ponto de vista de Rachel
Eu estava sentada no carpete entre os brinquedos de Leo, enquanto ele ficava de pé na minha frente, agitando as mãos ao contar uma história cheia de animação. O rosto dele inteiro brilhava de empolgação.
— E então o herói usou os poderes dele e salvou o dia! — terminou, fazendo uma pose dramática.
Eu ri baixinho e bati palmas. — Isso foi incrível, sr. Contador de Histórias.
Leo sorriu, orgulhoso, depois agarrou minha mão e puxou. — Anda, mamãe, vamos roubar alguns biscoitos a mais!
Pisquei. — Nada de roubar.
Ele me deu um sorriso travesso. — O papai não precisa saber. Ele está sempre trabalhando mesmo.
A menção ao pai dele fez meu estômago se revirar. Forcei um sorriso leve. — Ah, é? Que tipo de trabalho o papai faz?
Leo murmurou, já me puxando em direção à porta. — Não sei. Mas é chato. Ele é sério demais.
A sinceridade dele me fez sorrir, metade divertida, metade inquieta. Talvez fosse melhor que ele não soubesse o que o pai realmente fazia. Afinal, ele era só uma criança.
Saímos para o longo corredor da mansão, o chão brilhando como vidro sob a luz da manhã. Enquanto andávamos, notei dois homens de terno alguns passos atrás de nós. Os olhos deles acompanhavam cada passo nosso, e a lembrança de onde eu estava fez meu coração disparar de novo.
Leo não pareceu perceber. Foi pulando à frente, dando risadinhas, até chegarmos a um enorme portão de ferro guardado por mais três homens.
— Mamãe, olha isso! — disse ele, rindo.
Antes que eu pudesse impedi-lo, saiu correndo direto para o portão. Um dos guardas o pegou com facilidade, erguendo-o no ar. Leo soltou uma gargalhada aguda enquanto os outros riam.
— Ele é impossível — disse um deles, balançando a cabeça com um sorriso.
O guarda que o carregava se virou para mim. — O chefe não gosta que o garoto chegue perto desta área, sra. Montrel.
O nome — sra. Montrel — ainda parecia estranho. Assenti depressa, os nervos apertando meu peito enquanto eu olhava além deles para as portas pesadas atrás do portão.
A ala leste.
Então era este o lugar sobre o qual me alertaram.
Leo se remexeu nos braços do guarda, fazendo beicinho. — Eles sempre dizem isso, mamãe. O papai também diz que a ala leste é chata!
O homem colocou Leo de volta no chão, e eu segurei a mão dele com delicadeza. Os dedos dele eram pequenos e quentes contra os meus, me trazendo de volta ao chão.
Quando nos viramos para ir embora, não consegui evitar lançar mais um olhar para as enormes portas de ferro. Os olhos dos guardas me seguiram até desaparecermos na curva do corredor.
Um calafrio estranho percorreu meu corpo.
O que poderia haver ali dentro de tão secreto que nem mesmo uma criança podia chegar perto?
Leo puxou minha mão, interrompendo meus pensamentos. — Mamãe — disse baixinho —, ainda podemos pegar biscoitos?
Sorri, afastando a inquietação. — Claro, querido.
