Capítulo 2
Ponto de vista de Rachel
O carro estava em silêncio, exceto pelo ronco do motor e pelo som da minha própria respiração trêmula. Fiquei olhando pela janela, vendo a minha vida antiga se desfazer num borrão, até que minhas lágrimas finalmente se esgotaram e eu caí num sono inquieto.
Não senti o carro parar. Mal percebi ser conduzida por corredores frios e ecoantes. Minha última lembrança antes de apagar de verdade foi o baque suave de uma porta pesada se fechando, selando-me lá dentro.
——
Meus olhos se abriram aos poucos com uma sensação de calor e uma cama muito mais macia e luxuosa do que qualquer coisa em que eu já tivesse dormido. Por um breve instante, suspirei aliviada, deixando o conforto me engolir por completo.
Então minha mente alcançou meu corpo.
Essa não era a minha cama.
Os lençóis eram sedosos demais, o quarto silencioso demais.
Sentei de supetão, o coração disparado, enquanto absorvia o que havia ao meu redor. O quarto era enorme, claro, elegante e completamente desconhecido. Cortinas douradas emolduravam janelas altas. Um lustre cintilava acima de mim como uma estrela cativa.
E então, as lembranças despencaram sobre mim.
A arma.
O acordo.
Damien Montrel.
Ele tinha me feito seguir os homens dele até a mansão logo depois do incidente. Eu devia ter chorado até a exaustão no caminho até aqui.
Meu olhar caiu sobre o criado-mudo, onde meu celular estava com a tela virada para baixo — exibindo dez chamadas perdidas.
Papai.
Tentei ligar de volta, mas antes que eu pudesse tocar na tela, uma batida seca me fez estremecer.
A porta se abriu antes que eu conseguisse responder. Dois homens estavam ali.
Um era alto e idoso, com cabelos prateados penteados para trás com cuidado. O terno preto lhe caía perfeitamente e, embora a idade tivesse suavizado seu rosto, sua postura carregava uma força silenciosa. Seus olhos verdes me analisaram com uma calma levemente divertida, como se ele já tivesse visto aquilo tudo antes.
Ao lado dele estava um homem mais jovem, de gola alta e calças escuras. Ele parecia bem mais intimidador, com um olhar frio e uma postura alerta, fechada. Segurava uma folha de papel na mão enluvada.
— Bom dia, senhorita... — começou o mais velho, com a voz grave e firme. — Pode me chamar de Sr. Vance. Eu trabalho diretamente sob o Sr. Montrel.
Assenti, nervosa, sem saber se devia falar.
O Sr. Vance sorriu de leve e fez um gesto para o mais jovem me entregar o papel.
Quando vi do que se tratava, meu coração quase parou.
Uma certidão de casamento.
— A senhorita dormiu por um tempo — disse o Sr. Vance com gentileza, como se isso fosse normal. — Então o Sr. Montrel foi adiante e assinou a parte dele. A senhorita só precisa fazer o mesmo.
Por um momento, eu não consegui respirar. Meu nome estava ali, bem ao lado do dele — Rachel Owens e Damien Montrel. A assinatura do homem que tinha ameaçado meu pai me encarava como uma sentença de morte.
Minha voz tremeu.
— Você está falando sério com isso?
— O Sr. Montrel nunca brinca — respondeu o Sr. Vance. — Isso garante a segurança do seu pai.
Minha mão tremeu quando peguei a caneta. Encarei o papel até minha visão embaçar e, então, forcei meu nome sobre a linha.
Quando ergui os olhos, os dois homens ainda me observavam.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, com a voz baixinha.
O sr. Vance soltou uma risadinha contida.
— Nada com que se preocupar, sra. Montrel. Não precisa ficar ansiosa. Agora todos nós servimos à senhora. Não se deixe intimidar.
O homem mais jovem enfim falou, com a voz seca e profissional.
— Estamos aqui para informá-la das regras, senhora. Por ordem do chefe.
— Regras? — repeti, franzindo a testa.
— Fique à vontade para circular pela casa, pelos jardins e pela ala oeste — disse o jovem. — A ala leste, no entanto, é restrita. Não entre. O chefe conduz os negócios dele lá, e não vai gostar de ser interrompido.
Assenti depressa, entendendo que “negócios” significava coisas que eu nunca quis ver.
O sr. Vance continuou, o tom educado, porém firme:
— O contato com o mundo lá fora será limitado. A senhora vai precisar de permissão para sair da propriedade e, quando sair, nossos homens a acompanharão para sua segurança. O sr. Montrel prefere que o mundo esqueça que este lugar existe.
Meu estômago afundou.
— Mas eu tenho a faculdade… e o trabalho… e a minha família…
Os olhos do sr. Vance suavizaram, embora a expressão não vacilasse.
— Eu sei, sra. Montrel. Mas essas coisas pertencem ao seu passado. A sua vida agora… pertence aqui.
Encarei o sr. Vance, ainda tentando processar tudo — o papel que eu tinha assinado, as regras, a sensação de que toda a minha vida havia sido apagada em silêncio.
— Sr. Vance — disse, forçando a voz a ficar firme —, é só isso?
Ele hesitou e então trocou um olhar com o mais jovem.
— Quase. Há mais uma pessoa que a senhora precisa conhecer.
— Quem? — perguntei, cautelosa.
Os lábios do homem mais jovem se contraíram num traço de diversão discreta, como se ele soubesse de um segredo que eu não sabia.
— O jovem mestre Leo — disse o sr. Vance. — O filho do sr. Montrel.
Pisquei.
— O filho dele?
Ele fez um pequeno aceno com a cabeça.
— Um bom menino. Cinco anos. A senhora vai encontrá-lo na sala de brinquedos. O jovem mestre Damien achou melhor que a senhora o conhecesse imediatamente.
Antes que eu conseguisse formular uma pergunta, o homem mais jovem abriu a porta e fez um gesto para que eu o seguisse. Meu coração martelava enquanto atravessávamos corredores longos e ecoantes, ladeados por retratos e portas fechadas. Quanto mais avançávamos, mais silenciosa a casa ficava.
Por fim, o sr. Vance parou diante de uma porta branca decorada com adesivos e pequenas estrelas desenhadas à mão. Por um instante, a expressão dele se suavizou.
— Ele não fala com muitas pessoas — disse em voz baixa. — Mas é dócil. Tente não assustá-lo.
Assenti, sem saber o que esperar. O homem mais jovem abriu a porta.
A luz do sol se derramou pelo corredor, quente e suave. Lá dentro, um menininho estava sentado no chão, cercado de blocos coloridos. Ele ergueu os olhos para mim com íris cor de mel bem abertas; cachinhos caíam sobre a testa.
Por um segundo, tudo parou — a mansão, o medo, até os meus pensamentos. Eu só via aquela criança pequena e quieta, piscando para uma estranha.
O sr. Vance sorriu de leve atrás de mim.
— Sra. Montrel — murmurou ele —, conheça o jovem mestre Leo.
