Capítulo 6
POV da Lena
Saí da propriedade dos Reynolds antes que Isabelle pudesse fazer mais perguntas. O motor do Bentley ronronava sob mim, constante e reconfortante de um jeito que nada mais parecia ser naquela manhã. Além do para-brisa, o horizonte de Silverton surgia por entre a neblina de novembro — torres de vidro refletindo as nuvens, o lago como uma linha cinza e plana no limite da vista.
Marcus preso. A Grant Investment em queda livre. Ação trinta por cento abaixo no pré-mercado.
Os fatos se arrumavam em colunas certinhas na minha cabeça, como sempre acontecia. Exposição financeira. Responsabilidade legal. Pânico dos acionistas. Protocolos de resposta do conselho. Eu tinha passado dois anos redigindo planos de contingência para crises corporativas — crises dos outros, desastres de outras famílias.
Não o seu próprio pai sendo levado algemado.
Meu celular vibrou no console. Número desconhecido. Deixei cair na caixa postal. Dois minutos depois, tocou de novo. O mesmo número.
Ela está ligando do telefone fixo. O que significa que o celular dela deve estar tocando sem parar. Imprensa. Advogados. Conselheiros exigindo respostas.
Terceira ligação. Encostei no acostamento, com o motor em marcha lenta, e atendi.
— Lena. — A voz da minha mãe veio afiada, controlada, tremendo com um pânico mal contido. — Onde você está?
— Dirigindo pro escritório.
— Você precisa voltar pra casa. Agora. A gente tem que conversar sobre—
— Não tem nada pra conversar. — Vi um caminhão de transporte passar roncando e senti o carro tremer de leve. — Marcus fez as escolhas dele. O conselho vai lidar com as consequências.
— Não seja ingênua. — O tom dela mudou, com aquela ponta específica que ela usava quando a lógica não funcionava e ela precisava apelar para autoridade. — Isso não é só sobre o Marcus. A empresa inteira está em risco. A nossa reputação. A nossa posição. Tudo o que eu construí—
— Já está comprometido. — As palavras saíram retas, frias, factuais. — Há anos. O Marcus vem mexendo nos fundos da empresa de forma irresponsável desde antes de eu terminar a faculdade de Direito. Você sabia. O conselho sabia. Todo mundo simplesmente fingiu que não via porque confrontar ele significava admitir que você tinha deixado um—
Eu parei. Deixei o silêncio se esticar.
— Deixado um o quê, Lena? — A voz dela desceu, perigosa agora.
Fala. Fala o que ele realmente é. O que você sempre soube que ele era.
— Um passivo — eu concluí. — Alguém que se casou com você por acesso, não por lealdade.
— Chega.
— Chega mesmo? — Meus dedos se apertaram no volante. — Porque, de onde eu estou, o Marcus ser preso é a coisa menos surpreendente que aconteceu na última década. A única pergunta é por que demorou tanto.
Silêncio. Então:
— Eu preciso que você ligue pro Rowen.
Aí estava. O motivo real da ligação, sem fingimento, escancarado.
— Não.
— Lena, escuta—
— Não. — Eu repeti, mais dura dessa vez. — Eu não vou ligar pro Rowen. Não vou pedir que a família Reynolds intervenha. Isso é um problema da família Grant, e a gente vai lidar com isso do jeito que os problemas da família Grant sempre foram lidando — mal, caro e com o máximo de estrago pra todo mundo envolvido.
— Não seja debochada. — A voz dela subiu, o controle escorregando. — Você tem noção do que está em jogo? O preço das ações. As investigações. Se o Marcus cooperar com os promotores federais, se ele começar a falar sobre acordos internos, sobre decisões do conselho—
—Então você devia tê-lo tirado do cargo de CFO cinco anos atrás. —Meu pulso estava firme, minha voz nivelada. Clínica. —Você devia ter comprado a parte dele quando ele começou a se mexer. Devia ter protegido a empresa em vez de proteger o seu casamento.
A inspiração brusca do outro lado me disse que eu tinha acertado em cheio.
—Como você se atreve—
—Por quê? —A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia, com todos aqueles anos vendo ela sacrificar tudo — dignidade, poder, o futuro da própria filha — no altar de um casamento que estava morto havia uma década. —Por que você ainda protege ele? Ele vem desviando dinheiro da empresa. Ele vem te traindo há Deus sabe quanto tempo. Ele tem uma segunda família, mãe. Filhos. Uma vida inteira paralela. E você ainda— o quê? Acha que ele vai voltar? Acha que dá pra consertar isso?
—Você não entende—
—Eu entendo perfeitamente. —Minha voz estava fria agora, o mesmo tom que eu usava em depoimentos quando o advogado da outra parte tentava me desestabilizar. —Eu entendo que você passou trinta anos tentando transformar uma transação numa história de amor. Que achou que, tendo eu, de algum jeito ele ficaria. Que você se convenceu de que esse casamento dá pra salvar se você só— o quê? Aguentar o suficiente? Sacrificar o suficiente?
—Para.
—Ele te usou. —As palavras vieram cortantes na minha boca, anos de observação se cristalizando numa verdade brutal. —Desde o momento em que ele se casou com você, ele te viu como uma ferramenta. Acesso a capital. Um lugar à mesa. Poder que ele não conseguiria de outro jeito. E você deixou ele—
—Eu disse para. —A voz dela falhou, furiosa e com outra coisa por baixo — algo que soava quase como desespero. —Você não faz ideia do que eu fiz por esta família. Do que eu sacrifiquei. Do que eu aguentei para manter tudo de pé.
—Transformando a sua filha numa moeda de troca? —A pergunta ficou suspensa entre nós, fria e definitiva. —Arranjando um casamento por contrato para fortalecer alianças de negócios? Me tratando como se eu fosse só mais um ativo, pra usar quando convém?
Silêncio.
Então, baixo, venenoso:
—Tudo o que eu fiz, eu fiz por você. Pra te dar opções. Pra te dar poder. Pra garantir que você nunca ficasse presa do jeito que eu—
Ela parou.
Do jeito que eu fiquei.
As palavras não ditas ecoaram mais alto do que qualquer coisa que ela tivesse realmente falado.
—Eu não sou você —eu disse, baixo. —E eu não vou cometer os seus erros.
—Ligar pro Rowen não é um erro. É estratégia. É sobrevivência. A Grant Investment precisa de capital. A gente precisa de proteção jurídica. A gente precisa—
—Da família Reynolds pra limpar a nossa bagunça? —eu interrompi. —Não. Não precisa. E, mesmo que precisasse, eu não seria a pessoa a pedir. Meu casamento com o Rowen termina em três semanas, mãe. O contrato vence. Eu não vou renovar. Esse sempre foi o plano.
—Planos mudam. —A voz dela endureceu de novo, o desespero enterrado sob aço. —Seu avô construiu esta empresa do nada. Seu pai —Marcus— quase destruiu tudo. Você é a única Grant que restou que pode salvar alguma coisa. E se isso significar estender seu casamento por contrato, manter laços com a família Reynolds, fazer o que for necessário pelo bem de—
—Não.
A palavra caiu como uma pedra.
