Contrato Encerrado, Começa a Obsessão

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Capítulo 4

POV do Rowan

O motor do Bentley estalava enquanto esfriava na entrada da casa, o som anormalmente alto no silêncio de novembro. Vi a Lena sumir lá dentro sem olhar para trás, os ombros carregando aquele tipo específico de cansaço que eu vinha enxergando com mais frequência nas últimas semanas. O tipo que não tinha nada a ver com virar noite no escritório.

Mais três semanas.

Fiquei no carro mais tempo do que precisava, os dedos batucando no volante.

Movimento na janela do andar de cima. Uma silhueta que eu reconheceria em qualquer lugar.

Droga.


A sala de estar estava exatamente como eu a tinha deixado naquela manhã. Afrouxei a gravata borboleta e estendi a mão para o estojo de charutos na mesinha lateral. Cohibas cubanos, os que eu guardava para noites que exigiam entorpecimento de nível farmacêutico.

A chama pegou na segunda tentativa. Puxei fundo, deixei a fumaça encher meus pulmões, segurei até o peito arder. Melhor do que pensar no rosto da Lena naquela varanda. Melhor do que repetir a voz dela na minha cabeça: Você é exatamente o que a gente combinou que você seria. Nada mais, nada menos.

— Bela atuação hoje à noite.

Eu não me virei. Não precisava. Os passos da minha mãe eram inconfundíveis — cliques decididos no mármore, cada um deles uma afirmação.

— Não sabia que você já tinha chegado — eu disse, soltando a fumaça em direção ao teto.

— Evidente. — Ela desceu a escada com aquela graça específica que ela nunca conseguiu me ensinar e se acomodou na poltrona de frente para a minha. — O Jack comentou que você voltaria tarde.

— A gente ficou até o fim do evento.

— Que dedicado. — Os olhos dela — do mesmo cinza aço que os meus — acompanharam meus movimentos quando alcancei o decanter de cristal. — Embora eu imagine que não tenha sido exatamente agradável.

Servi dois dedos de Macallan, cogitando colocar um terceiro. — Quando é?

— Não brinca comigo, Rowan. — A voz dela ficou mais cortante. — Falei com o Thomas Adams hoje à tarde. O advogado da família. Aquele que cuidou do seu contrato de casamento?

Minha mão parou no copo. Merda.

— Ele comentou uma coisa interessante — minha mãe continuou, com um tom enganadoramente leve. — Pelo visto, o seu contrato com a Lena está para vencer. Daqui a três semanas, inclusive.

Tomei um gole demorado, saboreando a queimação. — O Thomas precisa aprender a ser discreto.

— O Thomas achou que eu já soubesse. — Ela se inclinou para a frente, e não havia nada de leve na expressão dela agora. — Então deixa eu ver se entendi: você teve a audácia de assinar um casamento por contrato sem contar para a sua família e agora está planejando encerrar isso com a mesma discrição?

— Está tudo sob controle.

Sob controle. — Ela riu, seca e amarga. — Você é mesmo o filho do seu pai. Toda essa inteligência, e ainda assim emocionalmente travado como um adolescente.

Apoiei o copo na mesa com mais força do que pretendia. — O que exatamente você quer que eu diga?

— Que tal a verdade? Você achou que a gente não ia perceber? Que a Lena está infeliz há meses? Que você tem estado… — Ela fez um gesto na minha direção, a pulseira de diamantes captando a luz. — Seja lá o que isso for. Fuga? Negação? Estupidez deliberada?

— Nós tínhamos um acordo. Está vencendo. Ponto final.

— É mesmo? — o olhar dela podia cortar vidro. — Porque, do meu ponto de vista, você parece um homem prestes a cometer o maior erro da vida.

Eu já cometi. Dois anos atrás, quando assinei aquele maldito contrato.

— Você não sabe do que está falando — eu disse.

— Não sei? — Ela se levantou e foi até a janela com vista para o lago. — Eu venho te observando há dois anos, Rowan. Observando você fingir que isso era só negócios, só mais um acordo pra administrar. E eu vi a Lena — aquela mulher linda, brilhante — aos poucos perceber que casou com um covarde.

A palavra me atingiu como um golpe. Esmaguei o charuto no cinzeiro, e a cinza se espalhou pelo mármore.

— Eu não sou covarde.

— Não? — Ela se virou para me encarar. — Então por que você está deixando ela ir?

— Porque é isso que ela quer.

— E o que você quer?

A pergunta ficou suspensa no ar entre nós, impossível de responder. Ou talvez fácil demais — e esse era o problema.

— Não importa o que eu quero — eu disse, por fim. — O contrato…

— Ah, pelo amor de Deus, esquece esse contrato! — A voz da minha mãe estalou como um chicote. — Eu estou perguntando dos seus sentimentos. Supondo que você tenha algum, enterrado aí embaixo de toda essa frieza calculada.

— Meus sentimentos não têm importância. Nós dois sabíamos o que isso era desde o começo.

— Sabiam? — Ela se aproximou, e o perfume dela — Chanel Nº 5, como sempre — cortou a fumaça do charuto. — Porque eu já vi o jeito que você olha pra ela quando acha que ninguém está vendo. Como se ela fosse a única coisa sólida num mundo que vive mudando.

Para.

— Eu também vi o jeito que você afasta ela — continuou, implacável. — Toda vez que ela chega perto. Toda vez que começa a parecer algo além do seu contrato precioso.

— Você está vendo coisa onde não tem…

— Eu estou vendo exatamente o que está aí. — A mão dela pousou no meu ombro, surpreendentemente suave. — Você está com medo, Rowan. Com medo de que, se admitir que se importa, ela passe a ter poder sobre você. Então, em vez disso, você se esconde atrás de cláusulas e de distância emocional.

Eu me levantei de repente, tirando a mão dela do meu ombro.

— Essa conversa acabou.

— Não, não acabou. — Ela não se mexeu, não vacilou. — Deixa eu te dizer o que vai acontecer. Daqui a três semanas, esse contrato vence. A Lena vai embora. E você… — A voz dela amaciou, ficou quase de pena. — Você vai passar o resto da vida se perguntando como teria sido se tivesse tido coragem de ser sincero.

— Eu estou sendo sincero. Nós tínhamos um trato. Eu vou cumprir.

— Você está sendo um idiota. — Ela pegou a estola da cadeira e foi em direção à escada. — E um dia, quando você estiver sentado sozinho nessa casa vazia, vai perceber que alguns acordos não valem a pena.

Ela parou no pé da escada e olhou para trás, na minha direção.

— Aquela mulher vale dez de você, Rowan. Caramba, ela vale cem. E o trágico é que eu acho que você sabe disso.

Os passos dela foram sumindo escada acima. Eu fiquei parado no silêncio repentino, encarando a fumaça do charuto subindo em espirais até o teto, tentando me convencer de que minha mãe estava errada.

Tentando. Falhando.


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